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VIAGENS ÁFRICA » SUAZILÂNDIA » SUAZILÂNDIASuazilândia
TRILHOS E SAFARIS NO JARDIM AUSTRAL“In our swazi culture...”. Lelemi, guia na Mantenga Cultural Village, uma aldeia turística situada no vale de Ezulwini, no coração da Suazilândia, retoma vezes sem conta a mesma expressão antes de enunciar cada uma das peculiaridades da cultura do país, uma das três monarquias africanas, a par do Lesoto e de Marrocos. No horizonte, a pouca distância do povoado, podemos ver recortado sobre um céu de nuvens escuras o pico da montanha Nyonyane, em tempos conhecido como Execution Rock, uma espécie de símbolo da justiça tradicional da Suazilândia. Até há algumas décadas atrás, era uma tradição as autoridades “convidarem” os criminosos a saltar lá do alto.
À margem deste pormenor, a história e a cultura da Suazilândia testemunham uma existência sem grandes atribulações durante uma boa parte do século finado, ao contrário do que registaram os anais de muitas outras nações africanas, que sofreram de forma mais marcada a violência e a repressão coloniais. O regime quase absolutista em vigor praticamente desde a independência tem originado, todavia, sobretudo desde os anos 90, forte contestação, sendo cada vez maiores as pressões para uma efectiva democratização do país. Apesar da natureza assumidamente turística de Mantenga, e da sua artificialidade, a experiência da visita constitui uma introdução bem animada à cultura do território, incluindo-se no périplo danças e cantos suazis e uma descrição das funções das diferentes palhotas na organização familiar de uma sociedade em que a poligamia mantém o seu reinado. As explicações ataviam-se com aquele humor despretensioso e descontraído com que poucas vezes se consegue falar de coisas sérias. Lelemi, como ficou provado das duas vezes que passei por Mantenga, tem um dom especial e raro para a tarefa. “In our swazi culture, one man, many women...”: imagine-se uma encenação improvisada de ilustradoras cenas do quotidiano, com a participação “voluntária” dos visitantes... SANTUÁRIOS PARA O ECOTURISMO NA SUAZILÂNDIAApesar da dimensão da Suazilândia - dezassete mil quilómetros quadrados para cerca de um milhão de habitantes - a diversidade paisagística marca fortemente o território suazi. O Highveld, na parte ocidental, é uma região montanhosa, onde o verde de matas densas acompanha cursos de água e, por vezes, enquadra voluptuosas cascatas sazonais. O Middleweld corresponde a um trecho menos acidentado, de transição, que abrange os vales com maior densidade populacional, precisamente a região onde se encontra o vale de Ezulwini, repleto de jacarandás floridos na primavera. O Lowveld, na metade leste do país, oferece um contraste forte com o resto do território, apresentando cenários de savana africana. É nestes dois últimos ecossistemas que se encontram as três mais importantes reservas de vida selvagem do país, o Mlilwane Game Sanctuary, a Mkhaya Game Reserve e o Hlane Royal National Park, três espaços naturais associados no projecto Big Game Parks.
Cada um dos parques tem características e ecossistemas específicos, embora constituam habitats comuns para certas espécies. O de Mlilwane, a mais antiga área protegida da Suazilândia, é um território que se pode percorrer a pé, ou a cavalo, já que a fauna é essencialmente constituída por várias espécies de antílopes, incluindo alguns raríssimos (como o frágil antílope azul), impalas, facocheros, zebras, búfalos, girafas e abundante e sortida passarada. Perto dos lagos, contudo, os caminhantes são instados a redobrar os cuidados e a não ultrapassar os limites de aproximação, já que aí se encontram habitats de crocodilos e de uma espécie do grupo dos chamados big five, o hipopótamo. Dentro da reserva há várias opções de alojamento, nomeadamente um camp com oito cabanas dispostas em círculo e construídas com materiais (caniço e colmo) e estilos arquitectónicos tradicionais do povo suazi. A oferta mais confortável e carismática é, todavia, o Reilly's Hilltop Lodge, a velha casa dos Reilly, uma família irlandesa que se instalou no país no século XIX. A moradia, de estilo colonial, em pedra e madeira, está situada no topo de uma colina, rodeada por antiquíssimos jacarandás e por um jardim botânico povoado de cicas e aloés raros. Do alpendre que abraça a casa avista-se uma boa parte da reserva de Mlilwane. Ao lado, à volta de um pequeno éden, partem trilhos pedestres que se entranham nos meandros da reserva. Tanto em Mlilwane como noutros parques, os serviços da Chubeka Trails podem ser muito úteis para a organização de caminhadas ou de percursos a cavalo. SAFARIS NA SAVANAO cenário da Mkhaya Game Reserve é substancialmente diferente. Nos seis mil hectares da reserva predomina a savana, planura sulcada por rios secos, estáticos a maior parte do ano. A fauna reúne muitos exemplares de rinoceronte branco (há também rinocerontes pretos, mais raros, que são o orgulho da reserva), várias espécies de antílopes, impalas, girafas, palancas e elefantes. Crocodilos, pequenos mamíferos, aves de rapina e outra passarada podem ser vistos também com relativa facilidade durante os safaris em jipe aberto organizados pela administração do parque. É imprescindível fazer reserva antecipada tanto para os alojamentos como para os safaris. Para os que preferem caminhadas, é possível também preparar safaris a pé, realizados sobretudo ao amanhecer ou ao fim do dia, quando é mais fácil observar os animais junto de fontes de água.
A fauna e o ecossistema do Hlane Royal Park, a maior reserva de vida selvagem da Suazilândia (30 000 ha), são semelhantes às do Mkhaya Game Reserve, e a paisagem é das mais emblemáticas do Lowveld. O símbolo do parque é um leão, embora na verdade não haja actualmente leões em liberdade no território. A reintrodução do bicho real está ainda numa primeira fase, com alguns exemplares em semi-cativeiro, mas os visitantes da reserva têm sobejas razões a justificar o safari. São facilmente avistáveis grupos de zebras, impalas, elefantes, nhalos, kudus e rinocerontes. A reintrodução de veados contribuiu muito para a diversificação da vida selvagem do parque. Hienas, chacais, abutres, águias (e outras aves de rapina) contam-se entre as espécies da cadeia ecológica bem representadas na população da reserva. O Hlane Royal Park também disponibiliza alojamento, com ou sem facilidades de self-catering, tal como acontece, aliás, na reserva de Mkhaya. A informação está longe de ser supérflua e é mais do que simples nota de utilidade prática. O que está em causa neste tipo de fruição da reserva é, afinal, a experiência assaz singular proporcionada pelo Ndlovu Camp, experiência que inclui a possibilidade de cozinhar ao ar livre, em fogueiras ou barbecues, escutando de noite os sons únicos da savana, os bramidos dos elefantes, das hienas, dos mabecos, ou as sinfonias cacofónicas das rãs e das barulhentas cigarras africanas. SAUDADES DO ÍNDICOA velha casa da família Reilly, localizada num dos flancos do vale de Ezulwini (que significa paraíso, na língua suazi), pode eleger-se como um privilegiado ponto de partida para conhecer uma boa parte da Suazilândia, nomeadamente as três reservas de vida selvagem que fazem parte dos Big Game Parks. Mas não só: Mbabane, a capital, está a dois passos, as principais vias de comunicação do país vêm convergir no eixo que liga as duas cidades mais importantes da Suazilândia, e algumas das principais atracções turísticas estão concentradas no vale.
Em suma, para além das incursões pelas reservas naturais citadas e da visita à aldeia de Mantenga, há outras actividades disponíveis para os viajantes. Para os aficcionados de paisagens montanhosas, a reserva natural de Malolotja, no Highveld, oferece cerca de 200 km de trilhos com variados graus de dificuldade. A altitude varia no espaço da reserva entre os 650 e os 1860 m (no pico Ngwenya, o ponto mais alto da Suazilândia), há florestas de altitude, espécies botânicas raras e uma abundância faunística que inclui águias (entre as quase trezentas espécies ornitológicas recenseadas há algumas raridades), zebras, impalas, gondongas e gnus. As cascatas fazem parte da paisagem da reserva e aí encontramos precisamente as mais altas da Suazilândia, as Malolotja Falls, com quase uma centena de metros de altura. Quanto a compras, canto de sereia em que muitos viajantes enfastiados gostam de se deixar embalar, o vale de Ezulwini oferece múltiplos atractivos, desde as velas decorativas das Swazi Candles, com os seus motivos faunísticos africanos, até aos batiques da Baobab Batik (onde se pode assistir a uma explicação sobre as técnicas de fabrico artesanal), ou ao artesanato da cooperativa Gone Rural, uma espécie de instituição de comércio justo que comercializa o trabalho (de excelente qualidade) de algumas centenas de artesãs. O trabalho em cestaria é bastante inventivo e de grande perfeição - há certas peças, notáveis, que misturam técnicas de cerâmica. Bastante aconselhável, também, é o mercado de Manzini (quinta-feira é o melhor dia), onde podem ser apreciadas e adquiridas peças de artesanato do reino da Suazilândia e de outros lugares da África Austral, das vizinhas repúblicas da África do Sul e de Moçambique. Com um pouco de sorte - ou perspicácia -, descobrem-se umas simpáticas vendedoras lá das terras de Maputo, a falar português ou xangana, e a roer saudades das margens do Índico. São também esses momentos, de regateio, de cumplicidade, de troca inesperada de afecto, que valem a viagem. Que valem, por vezes, uma viagem.
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