VOLTA AO MUNDO » 13. CHENGDU (SICHUAN) E KUNMING (YUNAN), CHINA
Chá de jasmim em Chengdu, palhetadas em Kunming
|
|
Uma tarde numa das famosas casas de chá em Chengdu, China. E tocando com um grupo de velhotes reformados melodias improvisadas num parque de Kunming. Quantas vezes os mais simples momentos não são aqueles que perduram eternamente na memória de um viajante? |
Por Filipe Morato Gomes |
Qual o itinerário da volta ao mundo? |
 |
| Velho sentado na casa de chá do Templo Wenshu, Chengdu |
Sento-me, acompanhado por um par de nórdicas por demais vistosas e outros companheiros de ocasião, numa das famosas casas de chá de Chengdu, província de Sichuan. À nossa volta, dezenas de mesas repletas de gente com ar sereno, conversando e bebendo chá, sob a frescura de uma sombra proporcionada por enormes árvores de aparência centenária. Novos e velhos, maioritariamente chineses, partilhando xícaras de chá de jasmim sem fundo aparente, calma e prolongadamente, durante algum tempo, meia tarde, muito tempo, toda a tarde.
O tempo voa de forma imperceptível nestes espaços ao ar livre. O ambiente é por demais relaxante. E os bules de água a ferver, ininterruptamente disponíveis para reencher as chávenas meio vazias, proporcionam um cerimonial repetido vezes sem conta pelos empregados do estabelecimento. Um fio de água a ferver saltando do bule erguido no ar, caindo, num movimento calculado ao milímetro, bem no centro das pequenas xícaras circulares. Tal como quem enche um copo de sidra na vizinha Espanha, associo, ao presenciar a precisão do movimento. E não apetece fazer muito para além de conversar, observar e usufruir da tranquilidade deste espaço. É o que fazemos. Nem mais.
Assim anoitece, sem se dar por isso. Sorvo o último gole da enésima xícara de chá de jasmim e abalo ao encontro do pulsar da cidade de Chengdu. Um contraste total com o que acabo de vivenciar. Barulho, poluição, demasiada gente. Como na maioria das grandes cidades chinesas. Mas sinto que já me habituei à poluição atmosférica. Respirar é tarefa árdua, as máscaras pululam nas faces dos habitantes locais. Já não me espanto. Acho até normal. Não ver o sol de forma nítida, por cima deste nevoeiro enegrecido que paira constantemente sobre a minha cabeça, é algo que se aceita como inevitável depois de umas semanas na China.
 |
| Praça na cidade Kunming, capital da província de Yunan, China |
E surpreendo-me, inclusive, quando dias depois, ao chegar a Kunming, mais a sul, vejo um céu medianamente azul por cima dos prédios que marcam o horizonte daquela moderna capital da província de Yunan. Momentânea ilusão, pois a realidade cedo devolve as máscaras às faces dos habitantes. E o mesmo barulho incessante. Numa povoação mais bonita, é certo. É que Kunming é uma cidade bem cuidada, com ruas agradáveis, elegantes espaços verdes e razoável ordenamento urbano. Mas mesmo aqui, respirar sem inalar litros de gazes tóxicos é tarefa praticamente impossível. A não ser afastando-se da cidade. É o que faço.
Refugio-me num parque nos arredores. Lá chegado, descortino o som de diversos instrumentos por entre o chilrear da passarada. E vozes femininas, cantando. Música tradicional. Aproximo-me e sou instantaneamente recebido com enormes sorrisos. Um grupo de uma dezena de velhotes de ar simpático, tocando instrumentos de cordas de construção seguramente artesanal. Convidam-me a sentar. Ouço inebriado os sons que saltam dos instrumentos. E aproveito um intervalo entre músicas para interrogar, curioso:
- “Costumam juntar-se aqui muitas vezes?”
- “Todos as tardes”, respondem em uníssono.
- “Todas?” - exclamo surpreso, não imaginando o mesmo grupo de pessoas juntando-se para tocar as mesmas músicas, dia após dia.
- “Sim. Somos amigos, somos reformados, não temos nada melhor para fazer. E como moramos aqui, não pagamos a entrada no parque. Não conhecemos melhor lugar para nos encontrarmos e tocarmos as nossas músicas”, explicam. “Quer juntar-se a nós?”
 |
| Pequeno brilharete em alegre improviso, num parque dos arredores de Kunming |
E passam-me um instrumento para as mãos. Talvez o olhar me tenha denunciado. Apetece-me tocar, de facto. Na forma, parece-se com um bandolim, embora possua somente dois pares de cordas. Não esperam que saiba o que fazer com aquele arredondado pedaço de madeira e uma palheta artesanal. Mas faço um pequeno brilharete, tamanha a simplicidade da escala de notas do instrumento. A arte de tocar com uma palheta não é novidade para mim. Fitam-me, espantados. Parecem felizes por partilhar este momento comigo. Improviso uma qualquer melodia e o grupo acompanha-me com os seus próprios instrumentos. Eu estou verdadeiramente encantado. Perfeito intercâmbio. Sinto-me por um instante parte deste grupo de velhotes reformados. Unidos pela música, com mútuo respeito e admiração. É por momentos assim que vale a pena palmilhar este mundo...
{ 24.Out.2004 - 12:36. Versão não editada do texto originalmente publicado no jornal Público }
:::
|
Qual a vossa opinião?
• Coisas simples, pequenos nada, efémeros momentos que ficaram, por alguma razão, gravados na vossa memória?
|
 |
Tens a certeza que o chá era de jasmim?? É que pela maneira que estavas a tocar o instrumento musical, aquele chá devia ter mais qualquer coisa :)
Coisas simples... ainda ontem a caminho de Esposende, um tractor carregado de mosto quente acabado de sair do alambique, atravessou-se à minha frente, ao ultrapassa-lo senti o cheiro do mosto quente, que me fez recuar mais de 20 anos, quando ao lado do meu avô me sentava no alambique a ver fazer a aguardente.
Comentário à viagem enviado por João Seabra em 24.OUT.2004 - 17:28
Há dois momentos de “intercâmbios”, como lhe chamaste, dos quais me lembro e gostava de partilhar....
O primeiro em frente ao Notre Dame (no meu 2º interrail-99), depois de uma investida frustrada, na zona de Saint-Michel, para beber um copo num bar qualquer (tudo fechado...) e depois de perdido o último metro... Deparamo-nos com um grupo de árabes a tocar e a cantar (eram argelinos e marroquinos), pedimos para nos sentarmos ao lado... e depois de algumas músicas passaram-me a viola tocava uma música em português e logo me diziam “conheço uma parecida!...” e lá começavam a cantar e bater palmas... Apareceu um holandês que ofereceu bons charutos a toda a gente e mais um luso-descendente filho do consul acompanhado por umas belas meninas... Foi uma noite fantástica e são coisas destas que nos abrem horizontes e que mostram que somos mesmo todos iguais... e que as diferenças nestas ocasiões parecem tão ténues como coisas imaginárias e muitas das vezes inventadas ou pervertidas pelos interesses e as mesquinhices da nossa raça humana.
Outra situação (musical)... Lembras-te em Salvador... um dos, ou o único clube de chorinhos resistente... Quando tocamos o pedacinho do céu, até as lágrimas vieram aos olhos daquela gente velha, que via a juventude interessar-se mais pelo Axé e o Reagge de pouca qualidade, do que por um dos estilos musicais mais fantásticos que conheço... Foi delicioso e ainda fizemos umas jam sessions nos bastidores...
Quanto ao resto o fenómeno que acontece, lá da música que se perde em deterimento de outras mais vulgares, é, com pena minha, aquilo que acontece um pouco no mundo inteiro. Próprio dos dias apressados de hoje...
Comentário à viagem enviado por Daniel (Cristo) em 24.OUT.2004 - 17:42
Tantos. Acho que a minha memória se compraz mais em guardar as coisas simples. Uma tarde, em uma cidade do interior, eu era ainda adolescente, fui à chácara do amigo de um primo, um japonês chamado Eiji, que me deu chá de jasmim também e um desenho que ele havia feito. Ainda tenho o desenho e sempre me pergunto onde andará o Eiji. Adorei essa sua tarde no parque.
Comentário à viagem enviado por Mécia em 25.OUT.2004 - 01:20
Pois é, Cristo, excelente exemplo. Lembro-me perfeitamente. Velhotes a chorarem de emoção ao ouvirem uns quantos jovens irmãos portugueses a interpretarem algo que lhes dizia tanto, a eles, velhos amantes do chorinho brasileiro.
No Brasil, quantas vezes não tocamos no fundo da alma de desconhecidos com coisas tão simples como... uma música?
Grande abraço a todos os que viajam comigo neste espaço. Somos cada vez mais.
Comentário à viagem enviado por Filipe Morato Gomes em 25.OUT.2004 - 09:59
Olá viajante.
Realmente as nossa vidas estão recheadas de pequenos momentos inolvidáveis mas, dos quais nos esquecemos amiúde. Paradoxos.
Ah, lembrei-me de algo também relacionado com música: conheci o Manuel João (impagável vocalista dos “ena pá 2000” e outros) por volta de 82 na Fuzeta. Eu com uma guitarra e ele com um bandolim(?), cruzámos notas durante umas noites. Passados uns 10 ou mais anos, fui ver “ena pá” numa tenda de circo em Braga, onde ele actuava já bastante borracho. No fim fui ao backstage, cheguei-me a ele e disse: olé Manel, lembras-te de mim? Ele olhou-me com ar perdido, durante uns segundos largos e de repente começa a trautear uma melodia minha que há tantos anos atrás tocáramos. Antes que eu reagisse, alguém o arrastou para continuarem a bebedeira. Fiquei deveras sensibilizado. C'est tout.
P.S. Tenho seguido com muito interesse a tua viagem. Que a estrela dos viajantes te continue a proteger. Grande abraço,
Comentário à viagem enviado por Pedro Simões em 25.OUT.2004 - 12:32
Amigo Seabra... será que te limitavas a “ver” o teu avô a fazer aguardente? Não terás por acaso imitado o Obelix, caindo no recipiente??? Muitas coisas estariam assim, completamente explicadas :)
Filipe, quando leio as tuas crónicas e imagino as infinitas experiências enriquecedoras que estás a viver, pergunto-me a mim mesmo se terei temas suficientemente interessantes para partilhar contigo quando regressares... Como se costuma agora dizer, vais estar “muito à frente”... muito à frente mesmo.
Grande abraço, continuação de boa viagem pelas terras de Ho Chi Minh.
Comentário à viagem enviado por Sérgio Costa (Obo) em 26.OUT.2004 - 15:09
Há 100 dias que andas no mundo... Só porque se trata de um número tão redondo quanto simbólico, apetece dizer que é muita a saudade de quem cá ficou. Mas é uma saudade daquelas serenas e tranquilas, porque está condimentada com a certeza de que estás não só a cumprir um sonho, mas a acumular riquezas e experiências...
Há todas aquelas vivências que nos tens contado, nas tuas crónicas e através da tua lente, mas há todas as outras que não cabem num texto nem numa retina fotográfica. Mas que enchem o coração e engrandecem o espírito... Confesso que é dessas que eu estou à espera, na hora do regresso. E é essas que eu quero partilhar para o resto da vida...
Beijos e continuação de bom sonho.
Comentário à viagem enviado por LP em 28.OUT.2004 - 17:11
Amigo, cheguei ontem da Bahia, onde por mais uma vez vivi a felicidade que o simples pode nos dar, lembra-te de quando esteve no Brasil e foi a Porto Seguro, lugar onde gostaria de tê-lo conhecido pessoalmente? Lá sempre me surpreendo com a simplicidade do lugar e das pessoas, mas dessa vez fui a um lugar mais afastado - Caraívas -, Felipe me senti no momento e no lugar onde a mão de Deus estava ainda mais presente, a travessia do rio feita em canoa no fim da tarde, com o sol se pondo e a lua cheia já se mostrando, com o som de pássaros e da água escorrendo rumo ao mar, misturada com um silêncio ensurdecedor que tocava a alma, numa paissagem que aos poucos, na curva do rio ia mostrando o vilarejo de Caraivas, a visão era de que eu estava num dos rios de Veneza, mas com o cheiro, com a luz, a alegria a humildade e felicidade do mais simples povo bahiano. Foi um momento mágico, dentro da maior simplicidade existente, mas único que só você, que conhece tão bem o BELO que existe no simples, pode me compreender. Luz em sua viagem. Luana
Comentário à viagem enviado por Luana em 30.OUT.2004 - 15:38
Um simples passeio pela praia, um banho de mar à noite, um sorriso de lua...
Não duvides que os maiores tesouros da nossa vida podem estar escondidos na subtileza de um instante. Mas é preciso sensibilidade para capturar a magia e o encanto de cada momento vivido... você tem esse dom.
Prossiga em paz, espírito livre...
Comentário à viagem enviado por Gi em 02.NOV.2004 - 06:11
Pois... eu percebo as tuas perguntas mas, a verdade, é que sinto sempre que o que posso dizer não se compara, em nada, à experiência que vives. Mesmo assim, um dos momentos mais caricatos. Berlim, 30 de Dezembro de 2003, 14 graus negativos, em busca de uma cerveja num barco no canal. De repente, e desesperada a tentar fazer-me entender, um berlinense pergunta “Portugal??”. Respondemos que sim. E ele, do nada, começa a entoar Amália Rodrigues: “Eu sei, meu amor...”. Pois, um alemão e sempre, Amália.
Boas viagens e continua assim. O site está cada vez melhor e as crónicas também.
Comentário à viagem enviado por Gabriela em 10.NOV.2004 - 12:26
|
|
|
Nota: com a renovação do design de Alma de Viajante, em 2006, foi desactivada a introdução automática de comentários à volta ao mundo, para evitar a publicação de spam nas crónicas de viagem. As mensagens podem ser enviadas por e-mail e serão colocadas neste travelogue, manualmente.
Obrigado a todos os que, ao longo dos tempos, enriqueceram esta volta ao mundo com as suas palavras.
|
:::
» Regressar ao topo da página
|