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VOLTA AO MUNDO » 41. DILI, TIMOR-LESTE

As fotos dos pais que os filhos nunca viram, em Timor-Leste

Chego a Dili, Timor-Leste, um dos momentos mais ansiados de toda esta viagem. Relembro o massacre de Santa Cruz, a vida dos guerrilheiros nas montanhas e de todos aqueles que lutaram pela independência do país. Um olhar para um passado recente de muita dor e sofrimento.

Por Filipe Morato Gomes

Qual o itinerário da volta ao mundo?



Estava há poucas horas em Timor-Leste quando, num impulso, fiz sinal a um táxi que passava numa rua de Dili. “Santa Cruz”, disse. Costuma ser um prazer conversar com taxistas mas, naquela ocasião, não pronunciei mais palavra alguma. Seguia para um lugar tristemente célebre e as imagens daquele 12 de Novembro, treze anos atrás, passavam a alta velocidade diante dos meus olhos semicerrados.

Cemitério de Santa Cruz, Dili, Timor-Leste
Cemitério de Santa Cruz, Dili, Timor-Leste

Via uma criança sentada no chão, com a face ensanguentada e o olhar inocente, sem compreender o que se passava. Um jovem levantando a camisa para mostrar o abdómen atingido por uma bala certeira. Gente a correr desesperadamente, saltando o muro, tentando salvar a própria vida. Ouvia o barulho dos tiros. Via gente a cair. E militares fardados, ao fundo, apontando as suas armas ao que quer que se mexesse. Quando o táxi parou em frente ao cemitério de Santa Cruz, as imagens feitas pesadelo terminaram abruptamente. O muro do cemitério estava do lado esquerdo. Do lado de lá, o local onde tudo aconteceu. Era tempo de rebobinar o filme das memórias e homenagear quem perdeu a vida pela mais nobre das causas: a liberdade.

Passei o portão de ferro, cabisbaixo, e avistei um velho de rosto marcado por uma vida de trabalho, o corpo franzino e enrugado, as mãos calejadas e um sorriso espontâneo. Era um velho bonito, o Sr. Filomeno, coveiro no cemitério de Santa Cruz. Pressentiu o que me levara àquele lugar e, como resposta a um “bom dia”, disparou: “senhor, não estão cá os que morreram no massacre. Foram levados em camiões pelos indonésios e enterrados em valas comuns”. Falava daquele mesmo dia, o dia em que um desfile pacífico acabou por ser transformado numa carnificina. “Crianças, mulheres, velhos... [os militares indonésios] dispararam contra todos os que se esconderam no cemitério”, dizia o Sr. Filomeno. Tinha sido usado o mais primitivo dos métodos para calar vozes discordantes mas, naquele dia, o jornalista britânico Max Stahl estava lá e filmou tudo. E o mundo não pode mais fingir desconhecer o que se passava na parte leste da ilha de Timor.

Saía de Santa Cruz quando um homem na casa dos cinquenta me cumprimentou. Tinha vivido e lutado, nas montanhas, durante sete anos. “Tempos difíceis...”, lancei para o ar, puxando conversa. “Sim, vivíamos como galos bravos. Dormíamos em qualquer lugar, usando um toldo para nos protegermos da chuva”, disse e, sem interrupções, continuou. “Detectávamos o inimigo [militares indonésios] pelo cheiro”, sorria. “Eles fumavam e, antes mesmo de os vermos, já sabíamos que estavam por perto. Ou então por causa do barulho que faziam com os tachos que traziam nas mochilas”, contava com nítida satisfação. “E eles não vos viam?”, perguntei, curioso. “Muitas vezes passavam a cinco ou seis metros e nem davam por nós. Outras vezes davam-se encontros cara a cara. E aí, senhor, era matar ou morrer”, afirmou, conferindo maior seriedade à expressão do rosto. O diálogo estava a chegar a um ponto demasiado sensível quando o homem deu por finda a conversa. “Não posso contar mais”. Mudámos de assunto, despedimo-nos e apanhei novo táxi de regresso ao centro de Dili.

Uma jovem beldade timorense, em Abafala
Uma jovem beldade timorense, em Abafala

As ruas da cidade estavam limpas e embelezadas. O Presidente da Indonésia visitava Dili e o Presidente da República de Timor-Leste, o antigo comandante Xanana Gusmão, ameaçou demitir-se caso houvesse qualquer tipo de protestos. Passado a época da luta de guerrilha, o tempo agora é de estabelecer boas relações com o poderoso vizinho.

Dias depois, abandonei Dili em direcção aos outros distritos do país. Enquanto esperava a partida da biskota - mini autocarro que faz as ligações entre as diferentes povoações da ilha -, fui abordado por um jovem. Os timorenses são afáveis, curiosos e gostam de conversar com os malaes (brancos, estrangeiros). E a luta pela independência é um dos temas favoritos nessas conversas. Porque tudo é muito recente. Porque quase todos os timorenses estiveram envolvidos. Ou porque quase todos viram familiares perecer durante esse combate. O homem chamava-se Ramos e ia para Baucau visitar um irmão. Orgulhoso, contou que o seu pai tinha passado dezasseis anos a combater nas montanhas, como guerrilheiro das FALINTIL, sem nunca voltar à aldeia natal. “O meu pai era forte, mas foi apanhado no mato e deram-lhe um tiro”. Falava do pai com uma admiração desmedida, como se se referisse a um herói. “Mas durante toda a tua vida nunca o viste...”, arrisquei. “Vi, senhor. Em fotografias.”

Nota: Um grande abraço aos professores portugueses a leccionar em Timor-Leste, que me receberam de braços abertos em todos os locais por onde passei. Obrigado por ajudarem a tornar a minha estada aí tão agradável e divertida. Até sempre, companheiros!


{ 01.Mai.2005 - 10:13. Versão não editada do texto originalmente publicado no jornal Público }


Então seu pingão?
Ainda hoje bazaste daqui e já tenho saudades tuas. As gajas também já devem ter (claro, aquelas orvalhadas, sempre de antenas no ar para um gajo como tu).

Como estás a viver aí em Darwin? A reportagem ao Timor-Leste Contacto, como correu?

Curti largo conhecer-te. És um gajo altamente.

Um abraço amigo,

Jorge

Comentário à viagem enviado por Jorge Cerejeira em 01.MAI.2005 - 16:08

Oi Filipe, como vão as coisas aí pela Austrália? É só curtir, não? Aproveita bem. Desculpa não me ter ido despedir de ti ao aeroporto mas, na verdade, eu fui... só que tu saiste no voo da companhia australiana e eu pensei que sairias no voo da Merpati... então fui lá mas não te vi, mais tarde perguntei e disseram-me que saite no voo da manhã.
De qualquer forma, tenho a certeza que nos vamos encontrar em Braga quando regressares a Portugal. Espero que encontres boas aventuras durante a viagem.
Um grande abraço do amigo Joaquim “Polícia”

Comentário à viagem enviado por Joaquim Ribeiro em 02.MAI.2005 - 02:19

Sábado de manhã (início de tarde) dia 30 de Abril.

Depois de uma grande noite na praça do peixe em Aveiro (daquelas bem regadas com cerveja bem geladinha...), acordamos na óptima pensão Brasileira cheia de pulgas e outras coisas que tais e lá estamos todos com os olhos postos no Público que o Bidros fez questão de mandar comprar. O ritual da conversa matinal, sobre tudo e nada, foi direitinho para o nosso companheiro que lá chegou a um dos sítios que mais queria sentir e conhecer...

Fico contente por teres passado por lá e por teres alcançado mais um dos objectivos da tua aventura. Viva Timor Lorosae...

Um abraço.

Comentário à viagem enviado por Daniel (Cristo) em 02.MAI.2005 - 03:55

Olá, amigo
Então, com saudades do pessoal de Timor? Espero bem que sim.
Pois é, o Jorge fez das dele, acho que escreveu para o sítio errado. Espero que não leves a mal, foi uma brincadeirinha.
Um Beijão do pessoal da Casa nº 2 de Vila Verde - Díli Timor-Leste
Ana Cerejeira

Comentário à viagem enviado por Ana Cerejeira em 02.MAI.2005 - 10:18

Grande Filipe!

Gostei da crónica sobre Timor!

Espero que tudo corra bem no resto dessa odisseia, que como já sabes partilho bastante e acompanho! Por aqui continuamos ainda com manifestação e com o excelente mar que tivemos o prazer de partilhar :)

Esta semana devemos voltar lá baixo (mergulhar) para um nocturno no Díli Rock... como é noite e durante semana espero ir com menos sono ;)

Um abraço
Pedro Carvalho “Anadia”

Comentário à viagem enviado por Maubere Lusitano em 02.MAI.2005 - 13:20

Maluco, isto aqui está bombástico!!! Está uma granda confusão... por causa daquele episódio da manifestação. De resto está tudo bem, ainda não me prenderam nem torturaram mais. ;) Fica bem, e boa sorte aí em na Austrália. Que conheças gajas boas, mas sem pelos nos sovacos. Um grande abraço e BOAS VIAGENS!!!

Comentário à viagem enviado por Sérgio Tavares em 02.MAI.2005 - 16:54

Olé Gralha,

Estou a ver pelos comentários que aproveitaste estar em Timor para partir a loiça toda :)
Acho que cheguei a ver notícias na TV Portuguesa sobre a tua passagem por lá :P
Já aprendeste a mergulhar, a comer escorpiões, a usar roupas estranhas, participaste em cerimónias religiosas, fizeste de repórter fotográfico... o que é que tu queres mais?? Vê lá não experimentes de tudo ;D

Um abraço e continuação de uma boa caminhada,
Seabra

Comentário à viagem enviado por Seabra em 04.MAI.2005 - 02:28

Oi Filipe! Espero que, após as tuas aventuras e desventuras no país do sol nascente, nos possamos encontrar no nosso país verdinho plantado à beira mar.

Olha, gostei da tua crónica e achei que estava bem escrito.

Espero que vás dando notícias!!

Cumprimentos da casa nº 5 Vila Verde- Díli Timor Leste.

Comentário à viagem enviado por Ana Maria Pereira em 04.MAI.2005 - 02:31

Grande Jorge,

Aposto que essa mensagem não era para ser para aqui, mas deixa lá. Assim toda a gente ficou a conhecer as tuas expressões favoritas: orvalhadas, pingonas... ;)
Até breve, amigalhaço.

Comentário à viagem enviado por Filipe Morato Gomes em 04.MAI.2005 - 09:20

Olá Filipe!
Aqui o pessoal da barraca 13, já sente a tua falta...
A tua passagem por aqui, foi curta, mas marcante... ninguém se esquece dessa tua alma de viajante...
Adorei conhecer-te e tenho a certeza que nos vamos encontrar muitas mais vezes...
Beijinhos...

Comentário à viagem enviado por Andreia Pisco em 05.MAI.2005 - 04:58

Olá Filipe, grande aventura que estás a passar!
Atrevo-me a dizer que, tal como tu, também adoro viajar! Estive recentemente em Cuba, e essa viagem despertou em mim uma vontade enorme de conhecer novas culturas! É sem dúvida um país fascinante. O próximo destino que tenho em mente é Tailândia! Por isso mesmo convido-te a deixares um comentário sobre Tailândia no meu blog: www.cocotaxi.blogspot.com
Espero que aproveites ao máximo a tua viagem! Fica bem, Liliana Vidal

Comentário à viagem enviado por Liliana em 07.MAI.2005 - 19:12

Olá amigos timorenses, eu tenho muitas saudades de voltar para o meu país querido, mas não sei quando, espero que vocês me mandem os vossos email para mim, beijo para todos vocês, Mizé.

Comentário à viagem enviado por Maria Fernandes em 23.MAR.2006 - 15:28

Olá, gostaria tanto de vos conhecer! Beijo.

Comentário à viagem enviado por Serena em 23.MAR.2006 - 15:31


Nota: com a renovação do design de Alma de Viajante, em 2006, foi desactivada a introdução automática de comentários à volta ao mundo, para evitar a publicação de spam nas crónicas de viagem. As mensagens podem ser enviadas por e-mail e serão colocadas neste travelogue, manualmente.

Obrigado a todos os que, ao longo dos tempos, enriqueceram esta volta ao mundo com as suas palavras.


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