VOLTA AO MUNDO » 12. JIUZHAIGOU, SICHUAN, CHINA
Numa excursão chinesa ao Parque Natural de Jiuzhaigou
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Decido incorporar uma excursão de turistas chineses ao Parque Natural de Jiuzhaigou, situado na província de Sichuan. Encontro um cenário deslumbrante mas sou obrigado a abandonar o grupo, para bem da minha saúde mental. Guias turísticos de bandeira em riste não são, definitivamente, para mim. |
Por Filipe Morato Gomes |
Qual o itinerário da volta ao mundo? |
Conhecia de antemão histórias de forasteiros em longas jornadas de autocarros repletos de passageiros chineses, quase sempre descritos como fumadores compulsivos e exímios escarradores. Relatos asquerosos de experiências difíceis de suportar do ponto de vista ocidental.
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| Cenário alpino em Jiuzhaigou |
Sabia ainda, por observação directa noutras ocasiões, que os turistas chineses adoram seguir em grupos compactos dirigidos por uma bandeira colorida erguida pelo braço de um guia. Sem lugar à iniciativa individual ou a qualquer lampejo de vontade própria. Apenas copiando os movimentos do companheiro imediatamente anterior, as poses fotográficas em frente das chamadas atracções, todos os passos. Um grupo de turistas chineses em férias faz lembrar uma linha de montagem de uma qualquer indústria de transformação onde, no final, se obtém o mesmo grupo de turistas satisfeito por ter visto o que lhe quiseram mostrar. Nada de muito emocionante, portanto.
Mas decidi, mesmo assim, juntar-me a uma dessas excursões e rumar ao muito elogiado Parque Nacional de Jiuzhaigou. E ao entrar no autocarro, antevia-me como uma espécie de ovelha tresmalhada num rebanho de trinta turistas chineses e, felizmente, três novos companheiros israelitas. Seguimos viagem.
Para minha surpresa, os pretensos fumadores e escarradores comportaram-se de forma exemplar no interior da viatura. Mas descobri da pior maneira que as excursões chinesas contemplam inúmeras pausas para compras. E nunca de forma espontânea. São paragens em locais específicos onde todos os autocarros se detêm, numa espécie de romaria a grandes lojas que aguardam a chegada daqueles grupos ávidos de gastar dinheiro. Quinquilharia barata, velharias que mais não são do que artigos novos com aspecto de velho, colares, pulseiras e trapos, chás e ervas medicinais, de tudo um pouco se compra nestas paragens. Alguém a viver na China disse-me numa ocasião que as férias chinesas são tanto melhores quanto mais se gastar. Já não duvido.
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| Sorriso tibetano na provincia de Sichuan, China |
Ao segundo dia, antecedendo um sobe e desce permanente com infinitas curvas e contracurvas em alta montanha, nova surpresa. Paragem para comprar oxigénio. Pequenas garrafas contendo a preciosa molécula para auxiliar os menos aptos a suportarem a altitude. Achei desnecessário e não comprei. Tal como os israelitas e um par de chineses mais confiantes. É certo que em determinadas partes do percurso senti, ainda que ligeiramente, os efeitos da altitude. Uma leve pressão na cabeça, não propriamente dor ou náusea, antes um ténue sinal de que o corpo procura ajustar-se à mudança nas condições exteriores. Mas nada de anormal, quando se está quatro mil metros acima do nível do mar.
Desce-se para o Parque Natural de Jiuzhaigou - que a UNESCO elevou à categoria de Património Mundial - e os sintomas desaparecem. O parque fica situado numa prefeitura autónoma do noroeste da província de Sichuan, uma zona com notórias afinidades com a cultura tibetana. Algumas das mais relevantes comunidades tibetanas a viver fora do Tibete encontram-se precisamente nesta região. De Xiahé, mais a norte, na província de Gansú, até Langmusi e Songpan, já em Sichuan. A excelência das paisagens proporcionadas por um cenário alpino, com lagos cristalinos em várias tonalidades de azul a elevada altitude, floresta e quedas de água, é de uma beleza desarmante. Jiuzhaigou é um lugar invulgarmente tranquilo para o que tenho visto na China. Principalmente em lugares onde o olhar apenas conseguia encontrar os parceiros israelitas e ninguém mais. Sem guia, sem bandeira, sem ser uma ovelha num rebanho. Abandonámos o grupo. A única forma de apreciar a excelência deste lugar.
{ 19.Out.2004 - 12:35. Versão não editada do texto originalmente publicado no jornal Público }
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Qual a vossa opinião?
• Que tal viajar em grupos organizados, tipo rebanho? Experiências engraçadas, precisam-se... :-)
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Andar em rebanho... Detesto!!! Perde-se em autenticidade, no contacto com a Naturesa e com os habitantes locais... sentimo-nos inculivé meio perdidos... Aí mesmo no sul do Vietname, uma visita em grupo organizada ao Delta do Mekong é uma experiência não recomendada, apesar do baixo preço e da beleza do local.
Força viajante e obrigado pelos momentos de divagação que me permites...
Comentário à viagem enviado por José Costa em 19.OUT.2004 - 14:28
Visitas em grupos organizados poderão ser por vezes úteis, exemplo de tal são as visitas a locais ricos em história.
Os guias poderão dar-nos a conhecer os detalhes, e associar os eventos aos locais exactos onde estes se verificaram.
Provavelmente o melhor dos exemplos será o coliseu de Roma.
Embora não seja adepto da cultura de rebanho, por vezes o choque cultural pode gerar situações curiosas.
Há cerca de um ano visitei alguns locais do Sudeste Asiático, entre os quais Hong Kong. Na respectiva reserva de hotel (efectuada ainda em Singapura) encontrava-se incluída uma visita guiada gratuíta aos locais de maior interesse turistico em Hong Kong... isto, claro, sob o ponto de vista de um grupo de turistas de etnia chinesa. No entanto, visto que o meu orçamento para a viagem era limitado, não hesitei.
Ora após recolha no hotel, a visita gratuita iniciou-se com uma paragem num restaurante onde nos brindaram com um pequeno-almoço Dim Sum à queima roupa e sem opção de recusa.
A ingestão daqueles “alimentos” encharcados em óleo aos primeiros raios de luz do dia, deixou no meu sensível estômago português perfeitamente agoniado para o resto da jornada. Valeu o convívio e o prazer de conhecer pessoas e estórias de locais tão diferentes.
É óbvio que a respeito da respectiva factura do pequeno-almoço, gratuito só mesmo o papel onde esta foi registada.
Posteriorimente, continuamos a viagem de autocarro montanha acima, sempre alegremente narrada num impenetrável MANDARIM pelo dinâmico e jovial guia. Visitámos então miradouros, navegámos por entre a caótica baía de Hong Kong que mais se assemelha a uma “aldeia” flutuante, percorremos templos budistas, “ervanárias” de medicina tradicional chinesa e... uma joalharia onde todos fomos alvo de marcação cerrada individual por parte do batalhão de empregados. Era divertido por vezes simular que tomávamos uma direcção esperando pela instintiva reacção da nossa escolta e logo de imediato tomávamos o caminho oposto em redor das vitrines desorientando a pobre senhora que nos seguia :) Eventualmente, um dos mesmos empregados, verificando ser eu o unico não asiático questiou-me a respeito da minha origem, para logo reagir à minha resposta com recurso a algumas frases decoradas... em espanhol. Também curioso era o facto de as paredes se encontrarem decoradas com fotos de visitantes ilustres como Sylvester Stallone ou Jackie Chan (cuja respectiva moradia com vista sobre a baia também avistámos durante a viagem).
No final desta exótica visita, o sempre dinâmico guia veio cobrar a sua gorjeta pelo serviço prestado num impecável mandarim (ou pelo menos pareceu) anunciando o valor standard especificado para a sua merecida gorjeta, de modo a que este fosse entendido em quaisquer dialecto. Ainda assim consegui evitar a estocada final que seria o almoço no mesmo restaurante onde se iniciou a viagem.
Ficam as lições, as estórias e o sorriso que se esboça sempre que nos recordamos deste género de experiências.
Comentário à viagem enviado por Daniel em 19.OUT.2004 - 23:56
Olha o José Costa, meu tremendo companheiro de viagem a Barcelos (Brasil) em 2000!!!
Ainda hoje, no Arco de Baúlhe, eu e o Pedro recordámos a mais louca viagem das nossas vidas (nós que somos pacatos e caseirinhos...)
Viagens em grupos organizados? Nã... eu só levo o mapa para poder regressar a casa, nada mais.
DS.
Comentário à viagem enviado por Dario Silva em 21.OUT.2004 - 02:22
Filipe, viajar em grupo é terrível, a não ser que se conheça todo mundo antes. Estou curiosa para saber da temperatura daí. E torço muito pra que tudo corra bem. As fotos estão maravilhosas. :o)
Comentário à viagem enviado por Mécia em 23.OUT.2004 - 07:56
Se não tivesses participado dessa excursão, não terias tido assunto para esta crónica. :P Em tudo há experiências a registar. Neste caso, descobriste como os chineses fazem férias em grande(!) e exerceste a tua opção de fugir quando achaste que chegara a altura. Eu só aceito as excursões quando há, de facto, interesse cultural na coisa, ou quando não tenho tempo ou transporte para explorar determinada terra. Apanha-se boleia e aprendem-se umas coisinhas, além de se conhecerem pessoas novas, né? Caso contrário, prefiro sempre explorar por conta própria. É geralmente mais barato e mais divertido... :)
Olha, Filipe, desejo-te tudo de bom e muitas mais histórias. Viaja bem e viaja muito, em mais que um sentido. Tá tudo a torcer por ti. :)
Comentário à viagem enviado por Sílvia em 27.OUT.2004 - 12:09
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Nota: com a renovação do design de Alma de Viajante, em 2006, foi desactivada a introdução automática de comentários à volta ao mundo, para evitar a publicação de spam nas crónicas de viagem. As mensagens podem ser enviadas por e-mail e serão colocadas neste travelogue, manualmente.
Obrigado a todos os que, ao longo dos tempos, enriqueceram esta volta ao mundo com as suas palavras.
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