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Viagens ao Delta do Mekong, Vietname
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VOLTA AO MUNDO » 20. SAIGÃO (HO CHI MINH) E DELTA DO MEKONG, VIETNAME

As marcas que o tempo não apaga, no Vietname

Chego a Saigão (Ho Chi Minh), no sul do Vietname, e nomes como o napalm ou o Agente Laranja tornam-se escandalosamente familiares. No Museu da Guerra. Mas também nas ruas. São as marcas de uma guerra absurda que o tempo demora a apagar.

Por Filipe Morato Gomes

Qual o itinerário da volta ao mundo?



Saigão. O nome da cidade, por si só, traz à memória cenas revistas vezes sem conta em filmes, documentários ou artigos de imprensa. Imagens típicas de uma guerra tão absurda como todas as guerras. Sequências intermináveis de bombas a caírem do céu, jovens estropiados, crianças aterrorizadas gritando e chorando e morrendo. Nomes como o napalm ou o Agente Laranja tornam-se escandalosamente familiares. Pelos piores motivos. E, estando fisicamente lá, no sul do Vietname, essas memórias ganham vida ao misturar-se com a realidade presente. Um encontro difícil de suportar.

Casas nas margens do Mekong, sul do Vietname
Casas nas margens do Mekong, sul do Vietname

Visitar o Museu da Guerra em Saigão, por exemplo, não é uma experiência agradável. Uma vasta colecção de fotografias da chamada Guerra do Vietname, no tempo em que os fotógrafos circulavam sem restrições nos teatros de operações, impressiona pela frieza com que conta aos visitantes a história de um conflito tão ilógico quanto sangrento. Mostra rostos com nome. Nomes com vida. Quase se sente o cheiro do napalm ao percorrer as salas do museu. A revolta invade o corpo do mais insensível dos visitantes ao ver os efeitos nas populações do nefasto Agente Laranja, usado pelas tropas americanas. Ou ao conhecer com detalhe atrocidades como o infame massacre de My Lai onde, em poucas horas, soldados americanos destruíram aldeias inteiras e executaram barbaramente centenas de civis desarmados, incluindo velhos, mulheres e crianças de tenra idade. Mas o mais triste de tudo é que não é preciso visitar o museu para sentir as consequências dessa guerra nas gentes vietnamitas.

As marcas estão, aliás, em todo o lado. Visíveis da mais cruel forma possível. Homens mutilados vagueando pelas ruas suplicando a ajuda misericordiosa dos transeuntes. Descendentes de pais afectados pelo infame Agente Laranja, agente destruidor de tudo o que o Homem conseguiu para o seu próprio corpo após milhões de anos de evolução, sobrevivem sem esperança. Caras queimadas pelo napalm numa qualquer esquina da cidade. Gente com deformações inacreditáveis em todas as partes do corpo. Autênticos monstros à luz das leis da Natureza. Pessoas a quem foi roubada a felicidade do resto da vida no instante de um estrondo.

Nunca esquecerei a imagem daquele senhor caminhando sem pernas, apenas uns pés minúsculos e deformados colados na bacia, os braços inexistentes, o olhar triste implorando ajuda. A guerra não é uma coisa bonita - costuma dizer-se -, mas ver os seus efeitos diante dos olhos é algo que não os consegue deixar enxutos.

Mercado flutuante de Cai Rang, delta do Mekong
Mercado flutuante de Cai Rang, delta do Mekong

Depois disto tinha que ver como os vietcongs enfrentaram o poderoso inimigo americano e as tropas do sul do país então dividido. Decidi ir até aos túneis de Cu Chi, a duas horas de viagem de Saigão. Entrar naqueles túneis foi uma experiência marcante. Rastejei como um verdadeiro vietcong através de centenas de metros de túneis incrivelmente estreitos e baixos. O ar abafado, apesar dos sistemas de refrigeração engenhosamente inventados, dificultava a respiração. Outros visitantes desistiram a meio e abandonaram os túneis numa das inúmeras saídas outrora camufladas na selva. Claustrofobia, talvez. No fim, suávamos em bica - os quatro resistentes - mas estávamos satisfeitos com a experiência.

Dias depois, saí de Saigão e percorri de barco o Delta do Mekong em direcção a Chau Doc, na fronteira com o Camboja. É a forma mais lenta de fazer a viagem mas, ao mesmo tempo, uma das que melhores recordações deixam num viajante. Um pouco de normalidade depois da dura realidade do passado. E assim pude observar que a vida corria natural e tranquila no impressionante mercado flutuante de Cai Rang, o mais concorrido da região. E, a bordo de um barco a remos conduzido por uma simpática e enérgica velhota, deixei-me absorver pelo charme labiríntico de pequenos canais de água barrenta. E tomei contacto com o ritmo de vida de uma aldeia flutuante em que os seus habitantes ganham a vida criando peixe em viveiros no meio do rio. Tempo de sorrir, depois da intensidade bélica das experiências anteriores.

Deixo agora para trás um país maravilhoso e um povo incrivelmente optimista que tenta olhar em frente e ultrapassar as marcas de um passado nem sempre fácil. Mas dirijo-me para outro que vive ainda sob o fantasma de um dos mais ignóbeis regimes de que há memória na história da humanidade: o de Pol Pot e os seus Khmer Vermelhos. Sei o que me espera em Phnom Penh. Mordo os lábios, carimbo o passaporte e atravesso a fronteira.


{ 06.Dez.2004 - 02:43. Versão não editada do texto originalmente publicado no jornal Público }

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Boas “charlie” Filipe.

Não há palavras que justifiquem a estupidez macabra dos homens, quando se trata de oprimir um semelhante. Seguramente tem que ser um povo pacífico, com carisma e força, para conseguir viver com as revoltantes marcas do passado.

Pelo que julgo saber, o Camboja também foi palco de bárbaros bombardeamentos, por suspeita de albergar tropas da resistência. Ainda hoje minas e bombas por deflagrar, são um perigo para a população rural e os Estados Unidos nem sequer reconhecem oficialmente os bombardeamentos, muito menos as consequências, salvo alguns ex-militares que tomaram parte enquanto executantes mandados e estão hoje em dia apostados em fazer algo que possa minorar os danos.

Haja tolerância e paz.
Grande abraço,
Pedro

Comentário à viagem enviado por Pedro Simões em 06.DEZ.2004 - 12:02

Oi Filipe! Já melhor da gripe. A guerra do Vietname, embora do outro lado do mundo, me acompanhou durante a adolescência. Sempre quis saber como estariam hoje Saigão e Hanói. Essas sequelas físicas que você relata, me pegam pelo lado mais fraco. Super abraço!

Comentário à viagem enviado por Mécia em 06.DEZ.2004 - 14:43

Quero ir, quero ir!
Beijinhos grandes para os dois (não incomodo mais...).

Comentário à viagem enviado por Inês em 10.DEZ.2004 - 00:48

Bom!

Comentário à viagem enviado por Francisco em 07.MAR.2005 - 18:24

Gosto da forma como escreve. A sensação que se tem perante as consequências humanas da guerra do Vietname é tal como a descreve. Tenho vindo aqui amíude, mas só hoje, não sei porquê, vi este texto.
Boa viagem.

Comentário à viagem enviado por Luísa em 15.MAR.2005 - 08:41

Será que sabemos o que é a infelicidade, a guerra, as tormentas porque muitos passam todos os dias que se olham ao espelho, se o tiverem, o que é acordar num país onde tudo faz recordar o absurdo, a dor e a tristeza, ou melhor num país onde a dor é o sentimento que corre todos os dias pelas águas que outrora foram “possuidas” por quem não sabe o que isso é? Não sabemos porque não passamos por uma guerra, onde os argumentos, as justificações e as razões lógicas nunca existiram... Isto sim, foi a guerra do Vietname, que jamais será esquecida por aqueles que por ela passaram... Obrigada

Comentário à viagem enviado por Tânia Barbosa em 12.ABR.2005 - 20:57

Amigo Filipe,
Não tenho tido a felicidade de acompanhar todos os teus passos, mas quando aqui venho sou transportado para dimensões que julgava não ser possível. De facto, ao ler as tuas crónicas tenho a sensação que te estou a acompanhar, pois a forma como escreves cria nos leitores a ilusão de estar, também, no local. A introdução de fotografias faz aumentar, ainda mais, a nossa sensação de presença e dá-nos a conhecer locais paradisíacos e tão longínquos que quotidianamente nem nos lembramos que existem. A tua aproximação e abordagem sócio-cultural associadas aos locais que visitas é também um enorme testemunho do carácter cultural de elevado e inegável valor de que se reveste esta tua odisseia. Tal como muitos outros, continuo a caminhar ao teu lado nesta aventura. Um grande abraço e votos de muita saúde e muito ânimo para o resto da jornada.
Bixus - Azeituna.

Comentário à viagem enviado por Paulo Jorge em 14.ABR.2005 - 11:05

Estive a elaborar um trabalho sobre este tema, a guerra do vietname, e esta crónica tornou-se bastante interessante. Os meus parabéns pelo trabalho, está fantástico.

Comentário à viagem enviado por Cátia Martins em 02.MAR.2006 - 11:42


Nota: com a renovação do design de Alma de Viajante, em 2006, foi desactivada a introdução automática de comentários à volta ao mundo, para evitar a publicação de spam nas crónicas de viagem. As mensagens podem ser enviadas por e-mail e serão colocadas neste travelogue, manualmente.

Obrigado a todos os que, ao longo dos tempos, enriqueceram esta volta ao mundo com as suas palavras.


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