Terminal A. Voos ao melhor preço.
Jornalismo de viagens - volta ao mundo com Alma de Viajante Imagens de viagens
?
email:
 Reserva de HotéisAluguer de carrosReserva de voosSeguro viagens
Viagens: Mongólia
Viagens e turismo - PUB
Viagens e turismo - PUB

VOLTA AO MUNDO » 08. SHINE IDER, MONGÓLIA

Um dia com uma família mongol

No coração de uma Mongólia rural, uma inesperada mudança de planos levou-me ao encontro na mais amigável família mongol com quem já tive oportunidade de privar. Acolhido como em nenhum outro lugar por gente pobre e de enorme coração, nunca esquecerei o dia em que povos completamente distintos partilharam gargalhadas, muitos sorrisos e actividades domésticas sem uma única palavra em comum. Mongólia, fascinante Mongólia!

Por Filipe Morato Gomes

Qual o itinerário da volta ao mundo?



O acaso é um excelente amigo do viajante. Quantas vezes as mais intensas experiências nascem de acontecimentos fortuitos, casualidades, imprevistos. Como agora. Por algum motivo que nunca chegarei a saber, não pernoitámos onde era suposto acontecer. Prosseguimos viagem durante um adicional par de horas. Fatigante.

Gers em Shine Ider
Gers em Shine Ider

Mas, chegados ao cimo de uma colina com vista para um pequeno vale, avistámos três ou quatro conjuntos de gers com chaminés fumegantes. Por incentivo do condutor, apontámos ao acaso para um deles. E aí ficámos. No lar de uma família completamente desacostumada à presença de estranhos. Ocidentais muito menos. Gente verdadeira, desinteressada, hospitaleira. Pura. Uma espécie de retrocesso no tempo, na região de Shine Ider, a várias horas de distância de alguma povoação digna de registo.

Fomos recebidos com rasgados sorrisos no rosto. Genuína satisfação. Pelo dinheiro que tanta falta lhes fará. Mas não só. Noutros lugares, a satisfação terminaria aqui. "Money! Money!" - ouvi a despropósito várias vezes Mongólia adentro, gente simples reclamando o pagamento antecipado das dormidas com receio da desonestidade forasteira. Mas com esta família é muito mais do que esse contentamento materialista - sinto, sem margem para qualquer espécie de dúvida.

A vergonha inicial das crianças da família mongol
A vergonha inicial das crianças da família mongol. Nota: Esta foto é a contracapa do livro “Alma de Viajante”

O ger que nos foi destinado é o lar de um dos casais da geração intermédia. E dos seus três filhos. Mudam-se por uma noite para outro local para que nos possamos instalar. É o mais genuíno ger em que já entrei. O cheiro que de dentro emana penetra sem contemplações narinas acima. E por lá fica. Pequenos cubos de uma espécie de queijo feito com leite de iaque secam pendurados na estrutura de madeira das paredes. E pedaços de carne. E uma bacia de madeira com leite de égua coalhado, acre. A mistura de odores é implacável. Os sabores, esses, já nem preciso testar. São abomináveis. Não importa. Que interessa tudo isso quando somos recebidos de coração aberto, como ilustres visitantes que honram com a sua presença quem os recebe?

Tentámos desajeitadamente ajudar na ordenha dos iaques - tarefa exclusivamente feminina na organização familiar mongol. Com pouco sucesso e muitas risadas dos locais. Cortámos lenha para o fogareiro situado no centro do ger, utilizado para cozinhar e aquecer o lar. Assistimos à preparação das armas para uma sessão de caça, numa busca de carnes diferentes que permita esporadicamente variar a dieta alimentar. Montámos a cavalo. Conhecemo-nos com mútuo prazer. Divertimo-nos em conjunto.

E eu acabo involuntariamente por me tornar o centro das atenções por via de uma câmara fotográfica digital. Era ver miúdos e graúdos entusiasmados com o objecto, posando ou passando como que despercebidamente em frente da objectiva e, ao mais pequeno som de um clique, em correria generalizada em direcção à máquina para visualização do resultado. E gargalhada colectiva. Emoção, alegria. Uma e outra vez. E outra. Até à exaustão. Tantas as oportunidades, tantas as solicitações sob as cores quentes de uma luz de final de tarde que fiquei cansado de fotografar. Não me recordo de outra vez em tal me tenha ocorrido.

Alguns dos adolescentes da família em Shine Ider, Mongólia
Alguns dos adolescentes da família em Shine Ider, Mongólia

Tudo praticamente sem palavras, em silêncio. Com gestos expressivos, mímica. E sorrisos. Ninguém conhece qualquer língua estrangeira. Cruzei-me uma única vez com um mongol inglês falante, guia e tradutor que acompanhava um casal de viajantes franceses. Surpreende-me, ao falar sobre as condições de vida nas estepes do seu país: "A vida aqui é muito fácil. Não falta nada. Têm ovelhas, iaques, cavalos, água. Têm tudo o que precisam." - diz, com um trejeito nos lábios, como que a reforçar que aquilo que afirma é mais do que evidente, óbvio. Desarmado, não sei como retorquir. Muito menos agora, depois de viver por um dia com esta pobre mas feliz família.


{ 26.Set.2004 - 03:30. Versão não editada do texto originalmente publicado no jornal Público }

:::


Qual a vossa opinião?
• Exemplos de interacções genuinamente desinteressadas com gentes locais? Onde?

Há uma situação que me lembro tão bem quanto tu, tenho a certeza!

Foi em Contagem, uma cidade da qual pouca gente ouviu falar... Nós estivemos lá! Em Minas Gerais, no interior do Brasil. E as pessoas receberam-nos em suas casas com o muito ou o pouco que tinham (e aqui nem se falou em dinheiro...). Deram-nos de comer, deram-nos de beber e mostraram que o povo no interior daquele estado, pouco habituado a gente de fora, é bem diferente do das grandes cidades e das zonas turísticas em que o dinheiro e a sobrevivência a qualquer custo impera!

Este ano, no Egipto, fui a uma aldeia de beduínos (gente que vive sem nada no meio do deserto, bem longe dos pequenos luxos de uma cidade), aqui tudo organizado... mesmo assim as pessoas eram boas connosco e ficavam contentes por nos ter ali, via-se isso no sorriso de toda a gente. Especialmente das crianças, em que um carinho lhes fazia nascer um sorriso do tamanho do mundo!

Já deves andar a tentar entrar no Tibete... Força!

Um grande abraço

Comentário à viagem enviado por Daniel (Cristo) em 27.SET.2004 - 12:35

Cabo verde, cidade da Praia: demos por nós no meio de um concerto familiar, na cave escura de um qualquer bar. A interacção não foi muita porque a malta que lá estava nem se apercebeu bem da nossa existência... estavam concentrados na pureza da música que iam criando há medida que o tempo avançava. Aquele não era um espaço para “turistas”.Foi um momento espe(a)cial...
Grande abraço, granda flash

Comentário à viagem enviado por Pietz em 27.SET.2004 - 13:31

Tencionava, de facto, seguir para Lhasa (Tibete) e continuar em direcção a Kathmandu (Nepal). Mas os planos mudam. E ter a liberdade de poder decidir o dia de amanhã é algo fabuloso. Estou agora no sul da China, a caminho do Vietname. Depois o Camboja. A seguir, logo se vê...

Grande abraço a todos que frequentam este espaço.

Comentário à viagem enviado por Filipe Morato Gomes em 28.SET.2004 - 10:00

Tssstssstsss... logo agora que eu ia reunir coragem para te cravar um postalito do Tibete (através dum “Platskartny”) é q mudas de destino??? =)
Boa sorte prá viagem - tens consciência da quantidade de invejosos deixaste por cá?
Beijinhos, continua a fascinar-nos!

Comentário à viagem enviado por MagdA em 28.SET.2004 - 14:12

Olá Filipe,

Fico feliz por estar a correr tudo bem, continuo-te a “acompanhar”.

Vou usar este meio para te dar uma notícia que não tem nada a ver e que não sei se já sabes: já nasceu o Pedro Afonso e está tudo bem!

Um Abraço Amigo

Comentário à viagem enviado por Nelo Teixeira em 29.SET.2004 - 13:50


Nota: com a renovação do design de Alma de Viajante, em 2006, foi desactivada a introdução automática de comentários à volta ao mundo, para evitar a publicação de spam nas crónicas de viagem. As mensagens podem ser enviadas por e-mail e serão colocadas neste travelogue, manualmente.

Obrigado a todos os que, ao longo dos tempos, enriqueceram esta volta ao mundo com as suas palavras.


OUTRAS CRÓNICAS DA VIAGEM VOLTA AO MUNDO

» Volta ao Mundo
» Crónica anterior: Mongólia Central
» Crónica seguinte: Ulan Bator, Mongólia


:::


» Regressar ao topo da página




Adicionar Alma de Viajante - jornalismo de viagens aos favoritos Adicionar aos favoritos Definir Alma de Viajante - jornalismo de viagens como homepage Definir como homepage Recomendar página a um amigo Recomendar a um amigo AddThis Social Bookmark Button tracker