Em busca do famoso canto gutural, em Ulan Bator
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Regresso ao ambiente urbano e encaro de imediato as particularidades das grandes cidades asiáticas: trânsito caótico, poluição desmedida, barulho em excesso. Em contrapartida, ouço esses sons estrambólicos vindos das gargantas mongóis e presencio um casamento tradicional. Ulan Bator, capital da Mongólia. |
Por Filipe Morato Gomes |
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Depois de semanas percorrendo a Mongólia rural sinto que já não estou habituado a grandes cidades. Ainda para mais asiáticas. Ulan Bator é como que uma suave introdução ao mundo caótico das metrópoles deste populoso continente. Trânsito infernal, poluição que dificulta o simples acto de respirar, gente de máscaras na face. Estranho. Mas nada que se compare ao que encontrarei na China, antevejo.
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| Rua de Ulan Bator, capital da Mongólia |
Percorro as ruas da cidade à procura de algo específico. Tento perguntar. Tinha como incumbência, desde Portugal, conhecer a extraordinária arte do canto gutural, exclusividade mundial dos intérpretes mongóis. Um tio amante das peculiaridades sonoras existentes em qualquer canto do mundo falou-me desta arte. Encontro a resposta num café frequentado por forasteiros. Assisto a um espectáculo. Os sons conseguidos com essa extravagante técnica são impressionantes. Ninguém na plateia fica indiferente. Mesmo que a musicalidade no seu todo seja como que monótona e despida de alegria. Mas é algo único. E seguramente muito difícil. Aplausos. Abandono a pequena sala satisfeito pela experiência.
Cá fora, outra surpresa. O meu caminho cruza-se com o de um par de noivos em trajes tradicionais. Um casamento a decorrer. Passeiam-se pela Sukhbaatar, a praça principal de Ulan Bator. É um rectângulo de proporções desmesuradas que marca o centro da cidade. Aproximo-me. Observo o casal, atento ao trabalho habitual de fotógrafos e operadores de câmara. As madrinhas - suponho serem as madrinhas! - vestem belos fatos de cerimónia sobre os quais usam faixas a lembrar as vencedoras dos concursos de beleza feminina. Os noivos notam a minha presença. Não é difícil, sou a única pessoa de face ocidental nas proximidades. Peço permissão para fotografar. O casal parece feliz pelo interesse que demonstro. Posam imóveis como estátuas sorridentes. E continuam a posar. Sempre. Não consigo fotografias espontâneas. Desisto. “Thank you” - agradecem a sessão fotográfica. Desejo felicidades. E parto à descoberta da cidade.
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| Noivos em trajes tradicionais na Praça Sukhbaatar, Ulan Bator |
Descortino que Ulan Bator tem duas caras bem distintas, consoante as condições climatéricas. Ora cinzenta, tristonha, sem graça, quando um céu escuro, cores pálidas e alguma chuva fazem com que passear nas ruas seja um desconsolo. Ora radiosa, alegre, interessante mesmo sem deslumbrar, quando os raios solares aquecem as cores dos edifícios e as qualidades da cidade parecem ressurgir. Prefiro a segunda.
Com bom tempo, aprecio a arquitectura do Mosteiro Gandan Tegchilin, ponto de peregrinação obrigatório para quem visita a cidade. Deixo-me perder por ruas de menor dimensão, espaços urbanos onde gers tradicionais convivem com prédios modernos. E reaprendo a atravessar as ruas, esgueirando-me por entre carros que nunca param. O trânsito é desordenado, as regras como que inexistentes, a buzina o mais importante instrumento das viaturas. Mudar de passeio é uma aventura.
Decido abalar de novo para as montanhas, em direcção ao Parque Natural de Terelj, relativamente perto de Ulan Bator. Apenas por um par dias. Para relaxar. O barulho dos automóveis da grande cidade já não se faz ouvir. Relembro as melodias do canto gutural e tento entoar algo parecido. A tradição sobrepondo-se ao progresso descontrolado. Pelo menos na minha cabeça, sob esta lua matinal que teima em não desaparecer do horizonte, por cima dos gers, das vacas, das montanhas.
{ 29.Set.2004 - 14:52. Crónica de viagem originalmente publicada no jornal Público }
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Qual a vossa opinião?
• Conhecem outras sonoridades únicas e específicas de uma determinada região que valham a pena conhecer?
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Sim, a língua mirandesa...
Em Sendim fazem o festival intercéltico de música. Para além de outros eventos, este festival dá voz a quem canta em mirandês.
Nota da redacção: Sendim já teve em total funcionalidade uma estação de caminho-de-ferro na extinta Linha do Sabor, porventura a mais selvagem de todas, tal como o pequeno rio selvagem que lhe emprestou o nome.
Era também a única linha onde se falavam duas línguas.
Comentário à viagem enviado por Dario Silva em 30.SET.2004 - 00:36
Concordo plenamente com o Dario. O dialecto mirandês é algo digno de se contemplar, muito próprio, acolhedor e o orgulho das suas gentes.
A dita linha do Sabor, na qual eu viajei diversas vezes na minha infância (passava a cerca de 100m de minha casa) tem uma outra curiosidade: existiam zonas, em que no Verão, os passageiros saiam do comboio em andamento, colhiam fruta nas encostas e vales (uvas principalmente) e apanhavam novamente o comboio um pouco mais à frente sem grande esforço... :)
Quanto ao rio, penso que ainda continua a ser o mais selvagem da Europa, mas não tenho a certeza. Com a construção da barragem para lá projectada e que já gera polémica, não sei como ficará. :(
Abraços
Comentário à viagem enviado por Nelo Teixeira em 30.SET.2004 - 13:16
Sim, conheço... desculpa-me a banalidade e algum fanatismo, mas quem vem ao Porto, sobretudo à Ribeira, Miragaia, ou ainda, a Campanhã, não consegue resistir ao sotaque! Claro que não é tão evidente como o mirandês, mas vale a pena estar numa esplanada da Ribeira, num dia de calor, a ver os putos a mergulhar no rio (e a pedir a moeda ao turista que passa), e a ouvir expressões que só ditas no Porto fazem sentido :). Continuação de boas viagens e de boas surpresas!
Comentário à viagem enviado por Gabriela em 30.SET.2004 - 15:57
“In my native village in Johannesburg there is a song that we always sing when a young girl gets married it's called the click song by the English because they cannot say... clicks... Miriam Makeba”
É sem dúvida surpreendente...
Continuação de boas descobertas. Abraços.
Telmo
Comentário à viagem enviado por Telmo em 30.SET.2004 - 16:36
Olá Filipe,
Não tenho participado muito no teu blog, porque não tenho muitas experiências de viagens para relatar. Mesmo assim não quero deixar de te dizer que leio sempre as tuas crónicas com muito interesse.
Quanto a esta questão específica, há uma sonoridade que recordo pela negativa: uma sala de cinema nos EUA. Para além do filme, ouvem-se as conversas das pessoas, as pipocas a serem mastigadas, a coca-cola a ser avidamente sorvida e o constante entra e sai da sala. Indescritível...
Comentário à viagem enviado por Calita em 01.OUT.2004 - 14:59
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Nota: com a renovação do design de Alma de Viajante no final da viagem, foi desactivada a introdução automática de comentários à volta ao mundo, para evitar a publicação de spam nas crónicas de viagem. As mensagens podem ser enviadas por e-mail e serão colocadas neste travelogue, manualmente.
Obrigado a todos os que, ao longo dos tempos, enriqueceram esta volta ao mundo com as suas palavras.
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