VoosCruzeirosHotéisAluguer de carrosSeguro viagens   eDreams. Voos ao melhor preço.
Alma de Viajante - Jornalismo de viagens
email:
Viagens: Salar de Uyuni, Bolívia
Cruzeiros

VOLTA AO MUNDO » 52. SALAR DE UYUNI, BOLÍVIA

A caminho de uma Bolívia a ferro e fogo

Sem a certeza de poder prosseguir viagem após Uyuni - em virtude de manifestações e bloqueios de estrada -, atravesso a fronteira do Chile com a Bolívia. Passo por lagoas incrivelmente belas e pelo maior planalto de sal do planeta, antes de pernoitar num hotel construído exclusivamente com sal. À chegada a Uyuni, perante os meus olhos, a linha de caminho-de-ferro é dinamitada e as dúvidas sobre se seria sensato continuar adensam-se.

Por Filipe Morato Gomes

Qual o itinerário da volta ao mundo?



Flamingos na Lagoa Hedionda, Bolívia
Flamingos na Lagoa Hedionda, Bolívia

Ainda no Chile, a internet era o meio privilegiado para acompanhar de perto a tensa situação na Bolívia. O periódico La Razón titulava: “La Paz está sem água, combustível e há racionamento de alimentos”. “Manifestantes asseguram que os bloqueios de estradas são para continuar”. “Camionista assassinado em Sucre - a primeira vítima do conflito”. Os operadores turísticos confirmavam a conjuntura. Algumas embaixadas estrangeiras aconselhavam os seus concidadãos a abandonar o país. Não sabia bem o que fazer. A Bolívia era um destino no topo da lista de prioridades deste que iniciei esta viagem. Tentei convencer-me. O sudoeste do país é demasiado remoto para ter verdadeiras estradas - logo, não poderia haver bloqueios - pensei. O pior que poderia acontecer era não ser possível prosseguir viagem, depois de Uyuni, e ter que regressar ao Chile. Decidi arriscar.

Na fronteira, à entrada da Bolívia, um casal norte-americano que saía do país confirmava os piores receios. “Não é perigoso, mas as estradas estão todas bloqueadas e há viajantes retidos em várias cidades”, afiançaram, para depois concluir: “De Uyuni para a frente não é possível prosseguir, mas talvez possas furar os bloqueios, desembolsando duzentos ou trezentos dólares”. Quando imergi nas fabulosas paisagens dos planaltos bolivianos, estava já resignado. O resto da Bolívia teria que esperar. Iria apenas até Uyuni.

Entrei num jeep juntamente com outros cinco viajantes. Seguíamos num sentido sul-norte, sempre próximo da linha divisória com o Chile, e as paragens eram frequentes para permitir a exploração de algumas das mais emblemáticas atracções da região. A Lagoa Branca, imediatamente após a fronteira. A Lagoa Verde. A Lagoa Colorida, que apresentava uma palete multicolor onde predominavam tons avermelhados, fruto da existência de algas microscópicas que serviam de alimento a um grupo de flamingos. Mais adiante, um batalhão dessas graciosas e rosadas criaturas alimentava-se na denominada Lagoa Hedionda. Encontrava-se quase gelada mas era uma das mais bonitas lagoas que já havia visto, apesar do nome desencorajador.

Habitante da ilha Incahuasi, Salar de Uyuni, Bolívia
Habitante da ilha Incahuasi, Salar de Uyuni

Penetrámos pelo território boliviano a caminho da maior superfície de sal de todo o planeta. Na verdade, o Salar de Uyuni é o principal motivo que traz tantos viajantes a estas paragens e compreende-se os motivos. Uma terreno incrivelmente plano e branco, a perder de vista, com algumas elevações montanhosas em redor, proporcionava uma imagem única e espectacular. Tudo era imaculadamente branco. Adiante, a Ilha de Incahuasi, rodeada de sal e povoada de cactos enormes, oferecia uma interessante alteração visual. Noutro local, um trabalhador amontoava sal com uma pá, em elevações piramidais, para secagem e posterior purificação. “Na Bolívia, não há dinheiro para máquinas”, assegurava o guia, face à óbvia ausência de maquinaria pesada nas imediações.

Percorrer de jeep parte dos doze mil quilómetros quadrados desse monstro salgado espantou todos aqueles com quem partilhava a viatura mas, à noite, nova surpresa. Por muito que se saiba sobre um hotel construído exclusivamente com blocos de sal, nada como vivenciar a experiência. Ao segundo dia, pernoitámos numa dessas excentricidades bolivianas: o Hotel Marith, localizado na povoação de Atulcha.

Durante o percurso, avistámos ainda um vulcão activo, de seu nome Olhague; parámos por breves instantes no lugarejo de San Juan del Rosário, onde uma velhota separava quinua - o cereal mais utilizado na culinária dos altiplanos; e assistimos à fúria explosiva dos Geysers Sol de la Mañana, a 5.000 metros de altitude, onde um intenso cheiro sulfuroso, lamas borbulhantes e um barulho assustador impunham respeito.

A cabeça de uma manifestação de mineiros, cidade de Uyuni, sul da Bolívia
A cabeça de uma manifestação de mineiros, cidade de Uyuni, sul da Bolívia

À chegada a Uyuni, depois de três dias sem acesso a informações noticiosas, indaguei sobre a situação dos bloqueios nas estradas bolivianas. “Ontem o congresso reuniu em Sucre e os manifestantes decidiram dar uma trégua de três semanas ao novo Presidente”, afirmou a gerente de uma pousada. Rejubilei. Podia prosseguir para o interior do país. A estação de caminho-de-ferro ficava do outro lado da rua. Saí da pousada com uma pernoita reservada e a decisão de seguir para Potosí no dia seguinte.

Na rua, pessoas corriam desvairadas e homens de farda verde ordenavam aos transeuntes que saíssem dali. Agitavam os braços virados para mim e outros viajantes, exaltados, para que corrêssemos numa direcção específica. Segundos depois, um estrondo brutal. Assim começava uma manifestação. Os de verde eram mineiros e tinham acabado de dinamitar a linha de caminho-de-ferro. Afinal, os problemas não tinham ainda terminado.


{ 09.Jul.2005 - 17:30. Versão não editada do texto originalmente publicado no jornal Público }


A aventura esta a adensar-se... parece que estou a ler um livro ou a ver um filme!

O que nós queremos é que o heroi chegue bem a Portugal. Be careful my friend. Sempre alerta. Boa viagem.

Um grande abraço!

Comentário à viagem enviado por Daniel (Cristo) em 09.JUL.2005 - 18:38

A visão que descreves da planície de sal deve ser efectivamente algo de muito belo. Como tantas outras coisas do quotidiano de qualquer povo que habita este planeta, o sal tem um significado simples mas profundo, ou seja, só é bom na medida certa!

Comentário à viagem enviado por Morato em 13.JUL.2005 - 21:24

Aguarda-se com ansiedade os próximos capítulos! Só é pena o atraso na publicação das crónicas, ainda por cima podendo-se saber a localização actual do Filipe...
A viagem está quase a fazer um ano, não está prevista alguma forma de celebração interactiva com os leitores, para além dum balanço alargado no site?

Comentário à viagem enviado por Paulo Gonçalves em 14.JUL.2005 - 16:35

Como sabem, o atraso na publicação das crónicas - que variou, ao longo desta viagem, entre uma e quatro semanas - deve-se ao respeito pelo compromisso assumido com o Público e a uma margem de segurança temporal que, em determinadas alturas, foi indispensável manter. Creio que compreendem.

Sobre a celebração, não me tinha ocorrido comemorar a data de forma especial, mas estou aberto às vossas sugestões. Contactem-me via e-mail, nos próximos dias, e veremos se será possível organizar alguma coisa interessante.

Grande abraço.

Comentário à viagem enviado por Filipe Morato Gomes em 14.JUL.2005 - 23:31

Que tal criar um blog Especial, só aberto a escrita nesse dia, divulgado previamente, em que o nosso viajante estivesse online durante um determinado tempo a contar as suas maravilhosas aventuras?

Outra possibilidade seria criar um canal no #IRC com o mesmo objectivo.

Não sei se isto será possível para ti Filipe, foram apenas umas ideias que me surgiram....

Grande Abraço, continuação de boa aventura!

PS. Se me sair o EuroMilhões, ainda vou ter contigo.... :)

Comentário à viagem enviado por Nelo Teixeira em 15.JUL.2005 - 13:11

Gostei da ideia da garrafa para brindar ao primeiro aniversario. O “logo” fica ainda mais apelativo, ehehe... E atrevo-me a informar que a garrafa está de pernas para o ar, não só por razões de estética: é que a garrafa está vazia... Foi um belo Malbec bebido em Buenos Aires!
Continuação de boa viagem!e não te esqueças de comemorar bem o aniversário. Estamos longe, mas estamos todos contigo.

Comentário à viagem enviado por Luísa em 16.JUL.2005 - 01:51


Nota: com a renovação do design de Alma de Viajante, em 2006, foi desactivada a introdução automática de comentários à volta ao mundo, para evitar a publicação de spam nas crónicas de viagem. As mensagens podem ser enviadas por e-mail e serão colocadas neste travelogue, manualmente.

Obrigado a todos os que, ao longo dos tempos, enriqueceram esta volta ao mundo com as suas palavras.


OUTRAS CRÓNICAS DA VIAGEM VOLTA AO MUNDO

» Volta ao Mundo
» Crónica anterior: Deserto de Atacama, Chile
» Crónica seguinte: Potosí, Bolívia



Recomendar Recomendar Alma de Viajante - jornalismo de viagens Definir como homepage Informações sobre novos destinos e fotos de viagem Subscrever newsletter