Cleveland por quem lá vive: João Pedro Lopes

Viver em Cleveland, Ohio
Cleveland, no Estado norte-americano de Ohio

Hoje, na série de portugueses pelo mundo, vamos até Cleveland, no Estado norte-americano de Ohio, pela mão do João Pedro Lopes. O João tem 29 anos, é médico e investigador e está a viver em Cleveland há sensivelmente três anos. Alimenta também o blog Oranginalidade. Convidei-o a partilhar connosco as suas sugestões e dicas com o melhor da “sua” Cleveland.

É um olhar muito interessante sobre Cleveland – o de quem vive por dentro o dia-a-dia da cidade, estando simultaneamente fora da sua “zona de conforto”, deslocado, como acontece a todos os viajantes. Este é o 23º post de uma série inspirada no programa de televisão “Portugueses pelo Mundo”.

Em Cleveland com o João Pedro Lopes (entrevista)

Define Cleveland numa palavra.

Regeneração.

Cleveland é uma cidade boa para viver? Fala-nos das expectativas que tinhas antes de chegar, e se a realidade que encontraste bateu certo com a ideia preconcebida que trazias.

Como várias cidades da “Rust Belt”, Cleveland viveu um período áureo no início/meio do século XX, à custa das indústrias do ferro e do aço, às quais se juntou ainda a indústria automóvel. O fim desse período, com o aproximar do final do século XX, roubou a quase todas estas cidades o glamour e o movimento em que se tinham habituado a viver, sendo substituídos por uma saída da população e do investimento para outras cidades, sobretudo para as cidades maiores da costa leste dos Estados Unidos da América.

Isto tudo justifica que partes da cidade de Cleveland estejam hoje em dia com um ar ainda muito abandonado, apesar da tentativa de regeneração que tem sido levada a cabo nos últimos 5-10 anos. Uma área de investimento que não foi afetada foi a área científica, tendo Cleveland sido constantemente um dos maiores polos de investigação e de ofertas na área da saúde de todos os Estados Unidos.

A minha expectativa era, portanto, de encontrar uma cidade a recuperar com um polo científico muito fértil, e foi precisamente o que encontrei. Cleveland é uma cidade boa para viver, pois o custo de vida é mais baixo do que nalgumas das outras grandes cidades norte-americanas, sendo que ao mesmo tempo mantém uma oferta muito diversificada a nível cultural, gastronómico, desportivo e lúdico.

E o que mais te marcou em Cleveland?

O que mais me marcou em Cleveland foi a mistura dos focos de decadência com uma vontade inexorável de melhorar e recuperar, bem como o orgulho que as pessoas oriundas de Cleveland têm pela cidade.

Como caracterizas as pessoas de Cleveland?

As pessoas de Cleveland são extremamente simpáticas e afáveis. Muitas vivem abaixo do limiar de pobreza, pelos motivos que referi acima, mas mantêm uma impressionante capacidade de sorrir e de oferecer simpatia.

Como terminarias esta frase: “Não podem sair de Cleveland sem…”

… visitar o Cleveland Museum of Art, comer um hambúrguer no B Spot e ir a um jogo de um dos três desportos americanos – futebol americano, basquetebol e basebol -, tendo Cleveland oferta para tudo.

Vamos complicar a conversa e tentar fazer um roteiro de 3 dias em Cleveland. Indica-nos as coisas que, na tua opinião, sejam “obrigatórias” ver ou fazer.

Em 3 dias consideraria obrigatório visitar o Cleveland Museum of Art (é gratuito e tem uma coleção fantástica para um museu situado no Midwest, com várias obras dos mais famosos artistas mundiais), visitar o Rock and Roll Hall of Fame (obrigatório para todos os amantes de música), tentar ir a um jogo dos Cleveland Browns, dos Cleveland Cavaliers ou dos Cleveland Guardians, consoante a época do ano.

Fora da cidade há locais maravilhosos muito perto de Cleveland. Há uma rede de parques naturais chamados Cleveland Metroparks, com centenas de quilómetros de rios, caminhos pedonais, trilhos de bicicleta, aprazíveis em qualquer altura do ano, mas com um encanto especial no outono – altura da mudança de cor das folhas, prévia à sua queda.

Gastronomicamente, é impossível ir a todo o lado em 3 dias, mas há lugares obrigatórios, como o B Spot, do chef Michael Symon, que ganhou por cinco anos consecutivos o prémio de melhor hambúrguer dos EUA.

Para os amantes de algo mais radical, em Sandusky, a cerca de quarenta e cinco minutos de carro de Cleveland, está situado o parque de diversões de Cedar Point, com várias montanhas russas com recordes mundiais de velocidade, altura, queda e tudo mais. Quer-me parecer que vão ter de ficar mais de 3 dias!

Tens algumas dicas para se poupar dinheiro em Cleveland?

Uma das principais dicas nesse aspeto é procurarem fugir dos estacionamentos oficiais, que são muito caros. Basta sair ligeiramente do centro da cidade ou de junto das principais atrações para encontrar locais onde a certas horas e certos dias é possível estacionar sem ter de pagar. Outro conselho é investigar as happy hours de muitos bares e restaurantes, onde vão conseguir descontos bastante consideráveis.

Falemos de comida. Que especialidades gastronómicas temos mesmo de provar?

Seguindo o princípio de em Roma sê romano, a oferta no Midwest, e em Cleveland, é vasta em excelentes ofertas de hot dogs, hambúrgueres, pizzas ou comidas étnicas de todos os locais do mundo. É obrigatório experimentar um hambúrguer no B Spot, pelos motivos que expliquei acima. Também recomendo ir ao Happy Dog, um restaurante onde podem escolher até cerca de 50 toppings para juntar no vosso cachorro (se aceitarem o desafio!).

Num dos melhores restaurantes da cidade, o Lola (entretanto encerrado), também do chef Michael Symon, situado no downtown de Cleveland, existem algumas iguarias que representam combinações inesperadas, como por exemplo o gelado de bacon. Parece estranho e gerador de enfartes do miocárdio, eu sei, mas depois é estranhamente delicioso.

Imagina que queremos experimentar comidas locais. Gostamos de tascas, botecos, lugares tradicionais com boa comida e se possível barato. Onde vamos jantar?

Dentro da cidade não é tão fácil esse conceito. Mas tendo carro, a cerca de meia hora, numa aldeia de tamanho mínimo chamada Grand River, junto a Painesville, existe um restaurante familiar chamado Sammy’s Family Restaurant, que corresponde precisamente a essa ideia.

Não o vão encontrar em nenhum guia ou roteiro, trust me, mas é um restaurante familiar, apenas utilizado por pessoas dessa aldeia, com comida americana caseira deliciosa e a um preço muito mais baixo do que na maior parte dos restaurantes de Cleveland (a restauração é em geral bastante cara nos Estados Unidos, sobretudo considerando o acrescento de gorjeta no final).

Como é a movida em Cleveland? O que sugeres a quem queira sair à noite?

É uma movida diferente da europeia, sobretudo em termos de horários. Quem quiser sair em Cleveland tenha em conta que o habitual é jantar por volta das 18:30-19:00, porque os bares e clubs fecham todos obrigatoriamente às 2.30 (ia eu habituado a, por vezes, acabar de jantar a essa hora em Portugal).

Recomendo sobretudo a zona de bares junto ao West Side Market, sendo que também há sempre animação no downtown de Cleveland, com vários bares e clubs na West 6th, na West 9th e na East 4th.

Escolhe um café e um museu.

Como café vou recomendar o The Loop, em Tremont, que é café e loja de vinis ao mesmo tempo. Para museu, recomendo o Cleveland Museum of Art, conhecido também pelas siglas CMA.

Uma das decisões críticas para quem viaja é escolher onde ficar. Em que bairro nos aconselhas a procurar hotel em Cleveland?

As zonas mais turísticas são todas relativamente seguras (o normal de qualquer cidade americana), sendo recomendável não sair muito desses eixos caso evidenciem sinais exteriores de riqueza.

As zonas do Downtown e Uptown estão ligadas por um autocarro designado de Health Line, que é seguro e funcional. As zonas de Tremont e do West Side Market também são seguras, mas não têm acesso tão fácil por transportes públicos. O ideal para quem visita é ficar num hotel no Downtown ou no Uptown.

Procurar hotéis em Cleveland

Tens alguma sugestão para quem quiser fazer compras em Cleveland?

O “milagre” das compras está nos outlets. Perto de Cleveland, em Aurora, OH, há um outlet de tamanho médio (cerca de uma hora de caminho). Se quiserem mesmo muita escolha, a hora e meia de caminho, passando a fronteira da Pensilvânia há um outlet ainda maior, em Grove City, PA, com a vantagem adicional de na Pensilvânia não haver qualquer tipo de imposto sobre as compras de roupa (o mesmo se passa no Ohio com a comida, apenas as bebidas alcoólicas pagam imposto).

Antes de te despedires, partilha o teu”segredo”de Cleveland; pode ser uma loja, um barzinho, um restaurante, um parque, uma galeria de arte, algo que seja mesmo “a tua cara”.

Um dos meus segredos é a sugestão de restaurante barato que vos deixei mais acima, mas o principal segredo é mesmo a possibilidade de contacto com a Natureza. Passo frequentemente umas horas do meu fim de semana a percorrer os parques naturais à volta de Cleveland, de bicicleta, num percurso de 100 a 120 km em plena comunhão com a Natureza e esquecimento de qualquer stress ou preocupação.

Obrigado, João, e até um dia numa próxima viagem a Cleveland.

Guia prático

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Filipe Morato Gomes

Filipe Morato Gomes

Autor do blog de viagens Alma de Viajante e fundador da ABVP - Associação de Bloggers de Viagem Portugueses, já deu duas voltas ao mundo - uma das quais em família -, fez centenas de viagens independentes e tem, por tudo isso, muita experiência de viagem acumulada. Gosta de pessoas, vinho tinto e açaí.