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VIAGENS EUROPA » ESPANHA » ORDESAParque Nacional de Ordesa & Monte Perdido, Espanha
TRÊS ENTRADAS PARA O PARAÍSOQuem chega a Torla fica imediatamente impressionado com a enorme massa rochosa de Mondarruego, que se ergue por trás da aldeia, cujos estratos de um cinzento-aço e magníficos tons de laranja sobem abruptamente cerca de mil metros acima do vale. O rio Ara corre lá no fundo e a torre da igreja marca o início da povoação, autêntico miradouro e entrada privilegiada para uma das mais frequentadas áreas do Parque - a do vale de Ordesa.
Apesar de as camurças dos Pirenéus e as cabras montesas preferirem lugares mais afastados dos olhares humanos, a beleza da paisagem é mais que suficiente para atrair milhares de visitantes por ano. Esquilos, marmotas e variadíssimas aves, são os animas que se deixam ver com mais frequência, quando percorremos qualquer uma das margens do Arazas, um dos quatro rios que descem do maciço e do próprio glaciar do Monte Perdido, cavando os quatro principais vales protegidos pelo Parque - o impressionante relevo do vale de Ordesa é a melhor amostra da beleza natural da área. A paisagem é forte em contrastes, com as zonas mais baixas ocupadas por bosques, buxos e pilriteiros e os maciços mais altos de aspecto desértico formando circos, ravinas e gargantas muito estreitas. Saindo de Torla, antes de chegar ao vale de Ordesa descobre-se o estradão que percorre o vale de Bujuarelo, verdadeira garganta de pedra de cujas paredes saem pinheiros que ensombram as águas de um rio pedregoso. Uma atribulada história geológica associada a um clima rigoroso resultaram numa zona escarpada e de elevadas altitudes: dentro da área do Parque e na sua periferia, gargantas, desfiladeiros e vales profundos vão sendo cavados por torrentes que variam de caudal de acordo com as estações do ano. Vale a pena percorrer a estrada de Biescas até Balneário de Panticosa, ao longo do lago de Búbal e das gargantas do Escalar, por onde os cotovelos apertados da estrada dão imagens sempre diferentes sobre os estratos calcários e graníticos destas sombrias e fechadas gargantas; no cimo, abre-se um lago onde abundam as trutas - e os pescadores. Nesta zona periférica, é ainda de salientar a típica construção em pedra, bem própria dos Pirenéus - algumas das casas e a igreja de Torla, bem como a pequena aldeia de Linás de Brotos, são, talvez, os exemplos mais puros.
Descendo até à ponta sul do Parque, sempre pela sua zona periférica, Escalona é o acesso mais lógico ao desfiladeiro de Añisclo. Antes, porém, vale a pena passar por Aínsa, uma verdadeira pérola da arquitectura aragonesa, com a sua praça de arcadas e uma bonita igreja românica a marcarem o centro da parte antiga, perfeitamente restaurada. Empoleirada sobre um promontório e rodeada de muralhas do séc. XI, relembra-nos um passado medieval, quando os usos e costumes das aldeias comunitárias dos Pirenéus não mereciam proibições de caça ou de silvicultura - e o urso Ibérico ainda se passeava por Ordesa. Neste momento, o quebra-ossos, a cabra montesa pirenaica e o urso (recentemente reintroduzido) são objecto do programa especial “Life” que pretende, entre outras medidas, recuperar o habitat destes vertebrados - talvez os mais emblemáticos e ameaçados dos Pirenéus. A estrada que corre ao longo do desfiladeiro de Añisclo começa por surpreender pela frescura húmida da vegetação que se agarra às gargantas rochosas. Segue-se ao longo de um rio verde, até as paredes ficarem mais altas e se avermelharem, enquanto a água corre cada vez mais fundo - é no Añisclo que fica o local mais baixo do Parque, com apenas 750 metros. Este é, talvez, o local do Parque onde com mais facilidade se observa a rápida erosão da água, que leva à formação de vales de perfil quase vertical, gargantas e desfiladeiros. Mais a norte fica Tella, a aldeia mais alta da comarca, (1.340 metros), com um dólmen e três delicadas ermidas medievais, a provarem que a zona sempre foi habitada. Um desvio até à aldeia de Revilla permite mais um olhar sobre outra das maravilhas naturais do Parque: as Gargantas de Escuaín. Juntamente com as de Añisclo, são os dois vales de evidente origem fluvial protegidos pelo Parque, enquanto Pineta e Ordesa, com os seus circos redondos e vales mais largos, revelam uma origem glaciária.
Já muito próximo da França, a entrada por Bielsa dá acesso directo ao maciço calcário de Monte Perdido, ao longo do estreito e longo Vale de Pineta, cavado pelo rio Cinca. Tal como os outros rios da zona, este é permanentemente alimentado pelas cascatas finas que caem dos altos, onde a neve resiste ao Verão. No fim do vale, na direcção oposta a Bielsa, o circo de Pineta e o edifício escuro da Pousada marcam o início do Parque Nacional. Os mesmos bosques de pinheiros e faias enfeitam a paisagem, mas adivinha-se a alta-montanha no cascalho cinzento e seco, ainda com manchas de neve, dos três cabeços que formam a parte ocidental do circo. Ruídos de água e ecos de guinchos agudos (rapinas ou marmotas?) são a banda sonora permanente, mal nos afastamos do “Parador”. O reconhecimento da importância de toda esta área, a nível de fauna, flora e inegável beleza paisagística levou ao alargamento do Parque Nacional do Vale de Ordesa, que já existia desde 1918, passando a abranger também os vales de Escuaín, Pineta, e Añisclo, e ainda as “Tres Sorores” (Três Irmãs) - como são conhecidos localmente os picos de Monte Perdido, Cilindro e Soum de Rammond. Assim nasceu, em 1982, o Parque Nacional de Ordesa & Monte Perdido. PERCURSOS E PONTOS DE INTERESSE NOS PIRENÉUSNa zona central do Parque é proibido acampar, e mesmo o bivaque só é permitido em determinados locais e circunstâncias. Os desportos aéreos (pára-quedismo, asa-delta, etc.) só são permitidos nas áreas periféricas. Os folhetos disponíveis nos Postos de Turismo e Casas do Parque indicam um variado leque de trilhos, para além dos que aqui são descritos. Cada um dos quatro vales principais do Parque merece uma abordagem que depende do interesse de quem chega: para os amantes do canyonning, Añisclo e Escuaín são a melhor aposta; os percursos de Ordesa e Monte Perdido são especialmente adequados para os apreciadores da alta montanha. A excelência da paisagem aconselha a dedicar um dia a cada um. As horas indicadas dizem respeito à caminhada efectiva, com o mínimo de pausas. PRADARIA DE ORDESA - CIRCO DE SOASO - FALHA DE PELAY (CERCA DE 6H)Parte-se de Torla, em direcção ao cabeço de Mondarruego, até ao parque de estacionamento. Há quem opte por seguir a placa “Sendero de los Cazadores” e faça o trajecto ao contrário, subindo o desnível abrupto de cerca de 900 metros até à Falha de Pelay.
Mas a visão dos bosques ainda adormecidos, onde só se agitam os pássaros e a água do Arazas, não deixa de dar um excelente começo de dia para quem optar pelo estradão largo que segue do lado esquerdo do rio. Florestas escuras e espaços abertos vão alternando, à medida que subimos suavemente. Para trás ficam algumas cascatas espectaculares: a de Arripa, a de la Cueva, que forma um poço verde-esmeralda e a del Estrecho. Só mais acima a água se acalma e aparecem os degraus de pedra das Gradas de Soaso, simétricos e repetidos, como pequenos açudes. Olhando para trás, temos a dimensão do carreiro de formigas que percorremos, entre as paredes do desfiladeiro. Na frente, uma pradaria verde e quase plana, que termina no enorme circo cinzento de Soaso. A Cauda de Cavalo escorre numa reentrância do lado esquerdo e alimenta o palmo de água que divide vale. À direita, um modesto carreiro sobe a serra de las Cutas em direcção ao fabuloso miradouro de Pelay, uma parede a pique sobre a fantástica paisagem do vale de Ordesa. Agora à nossa frente e, aparentemente, ao nível do nosso nariz, os relevos da Fracuata e do Gallinero, tomam dimensões e formas de castelo medieval. O chão está coberto de vegetação alpina, achatada contra o solo para se defender do vento cortante. A descida é cansativa, sobre pedra solta, com raízes traiçoeiras a atravessarem o trilho. MONTE PERDIDO E LAGO DE MARBORÉ (CERCA DE 5H)De Bielsa, segue-se a estrada até ao Parador Nacional, onde começa o carreiro. Depois de se iniciar a marcha por entre árvores e prados aparece a pedra solta, e as montanhas de dentes serrilhados aproximam-se, à medida que se percorre um trilho íngreme desmultiplicado por inúmeros atalhos. O rio Cinca escorre de um penhasco sombrio, que mantém uma placa de neve permanente sobre a água.
Algumas ovelhas aproveitam o escasso pasto e flores coloridas saem das pedras. A maior de todas é a íris, que sobressai em altura entre os cachos de campainhas lilases e carlinas amarelas. Marmotas correm de um lado para o outro, largando gritos de aviso que ecoam nas paredes, cada vez mais próximas, do Balcón de Pineta. No alto, atravessa-se este último corredor de pedra, antes do cume: a nossos pés estende-se todo o vale de Pineta e até as rapinas planam mais baixo que nós. Atenção: em caso de neve, gelo, ou vento muito forte, este é o pior lugar para nos distrairmos com a paisagem - a estreita varanda que serve de passagem tem um desnível de 1000 metros sobre o abismo. Uma cruz de ferro serve de ponto de orientação: começando pela esquerda, os cabeços de Soum de Rammond, Monte Perdido, Cilindro e, por fim, Marboré; à direita, o caminho para o lago, sobre rochas e neve. O glaciar de Monte Perdido, com uma espessura de gelo azul escavada em grutas, parece atrair nuvens escuras que lhe confirmam o nome, de tal maneira o escondem. O lago de Marboré, redondo, rodeado de neve e enfeitado por icebergues em miniatura, é uma deliciosa recompensa pela ascensão. Do outro lado, um estreito carreiro pode levar a França ou, em sentido contrário, entrar no glaciar, junto ao sopé do Cilindro - uma visão da face norte do maciço realmente impressionante, e indispensável para conhecer esta “estrela” do Parque. DESFILADEIRO DE AÑISCLOPerto de Escalona, uma placa assinala a estrada que segue as gargantas calcárias do Añisclo durante uma dúzia de quilómetros, até à ponte San Urbez. Em alguns lugares, o rio é apenas um canal de pedra cinzenta e lisa; noutros, uma verdadeira e tempestuosa torrente de montanha, com fundo de pedras redondas. Alguns penhascos vermelhos e aguçados, levantam-se nas margens, cobertos de jovens pinheiros e silvas carregadas de amoras. Estreita e curvilínea, a estrada vai-nos levando até à entrada do Parque, por túneis e pontes que serpenteiam à volta do fio de água cor de esmeralda, incrustado na pedra. No fim, encontramos os dois cursos de água que dão origem ao autor da obra de arte que é o desfiladeiro de Añisclo - o rio Bellos. Daí, um estradão largo sai do parque de estacionamento e acompanha o rio, enquanto carreiros mais estreitos nos conduzem em direcção à água cristalina e gelada, passando por um antigo moinho e uma ponte de madeira - um excelente local para observar a evolução do desfiladeiro: “praia” de pedra, cortes profundos na rocha, escadas, poços e uma vegetação eternamente verde e húmida.
CARACTERIZAÇÃO DO PARQUE NACIONAL DE ORDESA, NOS PIRENÉUSEsta zona dos Pirenéus compreende os picos mais elevados de toda a cordilheira: Aneto (3.404 metros), Posets (3.371 metros) e Monte Perdido, que detém o recorde de altitude dentro da área do Parque (3.355 metros), para além de ser o maciço calcário mais alto da Europa. A flora é um autêntico mostruário das mais de 1.500 espécies pirenaicas, com faias, abetos e pinheiros-silvestres a dominar a zona de bosques, e gencianas, íris e sempre-vivas (entre outras) a atapetar as zonas intermédias, antes da rocha se impor definitivamente. Da fauna, que conta com 8 espécies de répteis, 5 de anfíbios, 32 de mamíferos e 65 tipos de aves, destacam-se as ameaçadas rapinas quebra-ossos (nidificam cerca de 40 pares do lado espanhol), e a cabra montesa dos Pirenéus (capra pyrenaica pyrenaica) - uma das três subespécies sobreviventes da cabra montesa ibérica - com cerca de 15 exemplares confinados a um pequeno e quase inacessível enclave do Parque. Trutas, lontras e tritões habitam as águas gélidas que descem dos glaciares, e a marmota é facilmente visível nas zonas mais desarborizadas.
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