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VIAGENS MÉDIO ORIENTE » IRÃO » ILHA DE ORMUZIlha de Ormuz, Irão
“O” DE ORMUZAs lanchas que partem do cais de Bandar-é Abbas em direcção a Ormuz - aliás, Hormoz - levam apenas dez pessoas. Homens e mulheres apressam-se a tomar lugar com as compras feitas no mercado, regressando à pequena aldeia de Hormoz, a única nesta pequena ilha de quarenta e dois quilómetros quadrados, redonda e estéril como uma pérola. A viagem dura meia-hora e o vento causado pela velocidade alivia o calor húmido que paira no ar, apesar de estarmos em Novembro. Um pequeno porto com barcos de pesca muito artesanais antecede a aldeia, de casas baixas e ruelas de terra poeirenta, onde brincam crianças, galinhas e cabras. O “castelo português”, ghal'é-yé portoghaliha, fica lá ao fundo, rente à água azul do golfo, construído com as pedras rosadas da ilha e quase metido no mar.
Uma porta abre-se para o gigantesco pátio interior, que partilhamos com algum lixo e centenas de moscas. Alguns torreões foram reconstruídos, e um deles é agora um pequeno museu com artefactos locais. Virados para o exterior, os velhos canhões continuam em posição de combate e, no meio do pátio, uns degraus levam-nos até uma escura capela subterrânea, onde nos abrigamos do calor intenso e da luz ofuscante. De resto, é o silêncio e o mar. O que levou os portugueses a construírem uma fortaleza nesta ilha minúscula, em que não existe - nem existia na altura - um único poço de água potável, onde o terreno é árido e imprestável, o clima insuportável, os mares até há muito pouco tempo - e falamos do século XX - infestados de piratas, os países mais próximos cheios de “infiéis” que, quando muito, toleravam os cristãos? Tal como Goa e Malaca, Ormuz faz parte de um cordão de fortes estrategicamente colocados para controlar todo o comércio na Ásia. A posição da ilha na entrada do Golfo Pérsico e o facto de esta já ser um importante porto comercial da região, de movimento intenso e lucros garantidos, atraiu os europeus, que descreviam a cidade e o porto como opulentos e cheios de actividade; “posto que nesta ilha não há nenhuns mantimentos, a cidade é mais abastada deles que outra alguma que se saiba em o mundo”, escreveu, no século XVI, o Cavaleiro da Ordem de Cristo António Tenreiro, no seu “Itinerário” *. Uma placa informativa, em persa e inglês, afirma que a fortaleza foi construída em 1507 pelo “almirante português Albo Kurk” - assim mesmo -, e mantida por trinta anos. No entanto, por cá os dados são diferentes: depois da conquista por Afonso de Albuquerque, só em 1622, quando os nossos fiéis aliados ingleses se juntaram aos persas no ataque à ilha, é que acabou a ocupação portuguesa, ganhando os britânicos os favores do rei Shah Abbas. A fortaleza perdeu importância em favor do porto de Bandar- é Abbas, a que os portugueses chamavam porto Camarão. E enquanto o forte foi, lentamente, caindo em ruínas, a cidade transformou-se numa pobre aldeia de pescadores, na única ponta deste pequeno “O” ressequido e despovoado. ORMUZ DEPOIS DOS PORTUGUESESDepois de atingir o auge do poder e sofisticação durante a dinastia Aqueménida (550-330 a.C.), a Pérsia tornou-se um cruzamento de impérios, tendo sido invadida nomeadamente pelos gregos, com Alexandre o Grande, e séculos mais tarde pelos árabes e a doutrina do Islão, que rapidamente substituiu a religião local, o zoroastrianismo. Quando os portugueses se instalaram em Ormuz, no início do século XVI, o país também já tinha sido invadido por mongóis e turcos, derrotados por Shah Abbas - o mesmo que mais tarde expulsou os portugueses e que foi responsável pela instituição do xiismo como religião de estado.
No século XVIII foi a vez dos afegãos, seguidos de reis persas de várias regiões do país. A capital fixou-se em Teerão e, durante o século XIX, foi crescendo a influência inglesa, interessada no tabaco e no petróleo; durante a Iª Grande Guerra, partes do país foram mesmo ocupadas pelos britânicos. Em 1921, o Xá Reza Khan Pahlavi subiu ao poder e iniciou políticas progressivas nas áreas da literacia, dos direitos da mulher, da saúde e infra-estruturas rodoviárias. Seguiu-se-lhe o seu filho Mohamed Reza Pahlavi, que estabeleceu uma ditadura repressiva e uma ocidentalização forçada sobre uma população maioritariamente rural e conservadora. A política foi progressivamente sendo controlada pelos americanos, a inflação tornou-se galopante, a economia e a repressão do país criaram um nível de descontentamento popular que culminou com batalhas de rua, lei marcial e a fuga do Xá em 1979. Do exílio chegou um líder xiita da oposição, Ayatola Khomeini, que iniciou uma revolução religiosa e cultural que dura até hoje. Com uma brutalidade inesperada, instaurou a ditadura religiosa que resultou num caos interno próximo da guerra civil. Saddam Hussein quis aproveitar o ensejo para anexar algum território rico em petróleo, dando início a uma guerra feroz que durou oito anos e matou muitos milhares de ambos os lados. A ditadura tem vindo a ser aligeirada, graças, sobretudo, à moderação presidente Khatami, mas o poder continua nas mãos da assembleia de religiosos, o majlis. Estas têm sido as voltas da história, em menos de quatro séculos, depois da presença portuguesa em Ormuz. Hoje as mulheres trabalham, conduzem, vão a lugares públicos como restaurantes, cafés ou internet. Há igrejas cristãs e templos zoroastras em pleno funcionamento. E embora esteja longe do que consideramos uma sociedade democrática, o Irão está ainda mais longe da ideia de “nação perigosa” que a América de Bush tenta vender-nos. MODAS DO SUL DO IRÃOO Irão já não é um “país a preto e branco”, como no tempo do Ayatola Khomeini; apesar de discretas, as cores já se manifestam nos trajes das mulheres, assim como alguns estampados mais subtis.
Talvez os religiosos estejam a perceber que o luto pelo Profeta, ou pelo seu genro Ali, é um estado de espírito e não uma moda. Mas as mulheres de Bandar nunca foram muito nisso: apesar das proibições, as roupas mais escondidas não deixaram de ser o mais garridas possível, e a cada mulher que passa na rua os olhos correm-nos pelos vestidos abaixo e só param nas pernas, onde se concentra toda a vaidade: a mão travessa de calças que se vê revela cetins de cores fulminantes - fúcsia, amarelo-canário, roxo, verde-alface etc. - e, como se não bastasse, toda a zona do tornozelo é bordada a dourado e ornamentada com lantejoulas e brilhantes, numa orgia de cores e brilhos que, divididos pela roupa toda, ainda faziam uma toilete bastante vistosa. Mas o mais curioso é o adorno facial que só existe nesta zona, entre Minab e Bandar: uma mascarilha dura que só tapa a zona dos olhos, com uma espécie de vinco na zona do nariz, geralmente forrada a tecido vermelho e bordada. A moda não tem nada a ver com a religião, e diz-se que data da época em que os portugueses andavam por aqui, embora António Tenreiro que muito descreveu Ormuz e as suas gentes, nada dissesse sobre estas máscaras. Tenreiro gaba mesmo a beleza das mulheres, e diz que são “muito naturais portuguesas nas feições e ar dos rostos”, acrescentado que na rua se cobrem “com um pano grande, como lençol com buracos, por onde vêem” - a famosa burca dos fundamentalistas islâmicos. * Publicado pela Editorial Estampa
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