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Viagens Ormuz, Irão
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VIAGENS MÉDIO ORIENTE » IRÃO » ILHA DE ORMUZ

Ilha de Ormuz, Irão

A ilha de Ormuz, no Irão, é um círculo quase perfeito, encaixado nas águas azuis do Golfo Pérsico. Numa ponta da ilha - a única - ficam as ruínas do forte português, monumento surpreendente pela localização num lugar tão inóspito e sem importância. Que voltas deu a história desde então? Relato de uma viagem a Ormuz, sul do Irão.

Por Ana Isabel Mineiro

Onde fica Ormuz [Google Earth]?



“O” DE ORMUZ

As lanchas que partem do cais de Bandar-é Abbas em direcção a Ormuz - aliás, Hormoz - levam apenas dez pessoas. Homens e mulheres apressam-se a tomar lugar com as compras feitas no mercado, regressando à pequena aldeia de Hormoz, a única nesta pequena ilha de quarenta e dois quilómetros quadrados, redonda e estéril como uma pérola. A viagem dura meia-hora e o vento causado pela velocidade alivia o calor húmido que paira no ar, apesar de estarmos em Novembro. Um pequeno porto com barcos de pesca muito artesanais antecede a aldeia, de casas baixas e ruelas de terra poeirenta, onde brincam crianças, galinhas e cabras. O “castelo português”, ghal'é-yé portoghaliha, fica lá ao fundo, rente à água azul do golfo, construído com as pedras rosadas da ilha e quase metido no mar.

Vista a partir da fortaleza - viagens Ormuz, Irão
Vista a partir da fortaleza, ilha de Ormuz, Irão

Uma porta abre-se para o gigantesco pátio interior, que partilhamos com algum lixo e centenas de moscas. Alguns torreões foram reconstruídos, e um deles é agora um pequeno museu com artefactos locais. Virados para o exterior, os velhos canhões continuam em posição de combate e, no meio do pátio, uns degraus levam-nos até uma escura capela subterrânea, onde nos abrigamos do calor intenso e da luz ofuscante. De resto, é o silêncio e o mar. O que levou os portugueses a construírem uma fortaleza nesta ilha minúscula, em que não existe - nem existia na altura - um único poço de água potável, onde o terreno é árido e imprestável, o clima insuportável, os mares até há muito pouco tempo - e falamos do século XX - infestados de piratas, os países mais próximos cheios de “infiéis” que, quando muito, toleravam os cristãos? Tal como Goa e Malaca, Ormuz faz parte de um cordão de fortes estrategicamente colocados para controlar todo o comércio na Ásia. A posição da ilha na entrada do Golfo Pérsico e o facto de esta já ser um importante porto comercial da região, de movimento intenso e lucros garantidos, atraiu os europeus, que descreviam a cidade e o porto como opulentos e cheios de actividade; “posto que nesta ilha não há nenhuns mantimentos, a cidade é mais abastada deles que outra alguma que se saiba em o mundo”, escreveu, no século XVI, o Cavaleiro da Ordem de Cristo António Tenreiro, no seu “Itinerário” *.

Uma placa informativa, em persa e inglês, afirma que a fortaleza foi construída em 1507 pelo “almirante português Albo Kurk” - assim mesmo -, e mantida por trinta anos. No entanto, por cá os dados são diferentes: depois da conquista por Afonso de Albuquerque, só em 1622, quando os nossos fiéis aliados ingleses se juntaram aos persas no ataque à ilha, é que acabou a ocupação portuguesa, ganhando os britânicos os favores do rei Shah Abbas. A fortaleza perdeu importância em favor do porto de Bandar- é Abbas, a que os portugueses chamavam porto Camarão. E enquanto o forte foi, lentamente, caindo em ruínas, a cidade transformou-se numa pobre aldeia de pescadores, na única ponta deste pequeno “O” ressequido e despovoado.



ORMUZ DEPOIS DOS PORTUGUESES

Depois de atingir o auge do poder e sofisticação durante a dinastia Aqueménida (550-330 a.C.), a Pérsia tornou-se um cruzamento de impérios, tendo sido invadida nomeadamente pelos gregos, com Alexandre o Grande, e séculos mais tarde pelos árabes e a doutrina do Islão, que rapidamente substituiu a religião local, o zoroastrianismo. Quando os portugueses se instalaram em Ormuz, no início do século XVI, o país também já tinha sido invadido por mongóis e turcos, derrotados por Shah Abbas - o mesmo que mais tarde expulsou os portugueses e que foi responsável pela instituição do xiismo como religião de estado.

Fortaleza de Ormuz
Fortaleza portuguesa em Ormuz

No século XVIII foi a vez dos afegãos, seguidos de reis persas de várias regiões do país. A capital fixou-se em Teerão e, durante o século XIX, foi crescendo a influência inglesa, interessada no tabaco e no petróleo; durante a Iª Grande Guerra, partes do país foram mesmo ocupadas pelos britânicos. Em 1921, o Xá Reza Khan Pahlavi subiu ao poder e iniciou políticas progressivas nas áreas da literacia, dos direitos da mulher, da saúde e infra-estruturas rodoviárias. Seguiu-se-lhe o seu filho Mohamed Reza Pahlavi, que estabeleceu uma ditadura repressiva e uma ocidentalização forçada sobre uma população maioritariamente rural e conservadora. A política foi progressivamente sendo controlada pelos americanos, a inflação tornou-se galopante, a economia e a repressão do país criaram um nível de descontentamento popular que culminou com batalhas de rua, lei marcial e a fuga do Xá em 1979.

Do exílio chegou um líder xiita da oposição, Ayatola Khomeini, que iniciou uma revolução religiosa e cultural que dura até hoje. Com uma brutalidade inesperada, instaurou a ditadura religiosa que resultou num caos interno próximo da guerra civil. Saddam Hussein quis aproveitar o ensejo para anexar algum território rico em petróleo, dando início a uma guerra feroz que durou oito anos e matou muitos milhares de ambos os lados. A ditadura tem vindo a ser aligeirada, graças, sobretudo, à moderação presidente Khatami, mas o poder continua nas mãos da assembleia de religiosos, o majlis.

Estas têm sido as voltas da história, em menos de quatro séculos, depois da presença portuguesa em Ormuz. Hoje as mulheres trabalham, conduzem, vão a lugares públicos como restaurantes, cafés ou internet. Há igrejas cristãs e templos zoroastras em pleno funcionamento. E embora esteja longe do que consideramos uma sociedade democrática, o Irão está ainda mais longe da ideia de “nação perigosa” que a América de Bush tenta vender-nos.



MODAS DO SUL DO IRÃO

O Irão já não é um “país a preto e branco”, como no tempo do Ayatola Khomeini; apesar de discretas, as cores já se manifestam nos trajes das mulheres, assim como alguns estampados mais subtis.

Viagens Ormuz, sul do Irão
Ilha de Ormuz, sul do Irão

Talvez os religiosos estejam a perceber que o luto pelo Profeta, ou pelo seu genro Ali, é um estado de espírito e não uma moda. Mas as mulheres de Bandar nunca foram muito nisso: apesar das proibições, as roupas mais escondidas não deixaram de ser o mais garridas possível, e a cada mulher que passa na rua os olhos correm-nos pelos vestidos abaixo e só param nas pernas, onde se concentra toda a vaidade: a mão travessa de calças que se vê revela cetins de cores fulminantes - fúcsia, amarelo-canário, roxo, verde-alface etc. - e, como se não bastasse, toda a zona do tornozelo é bordada a dourado e ornamentada com lantejoulas e brilhantes, numa orgia de cores e brilhos que, divididos pela roupa toda, ainda faziam uma toilete bastante vistosa.

Mas o mais curioso é o adorno facial que só existe nesta zona, entre Minab e Bandar: uma mascarilha dura que só tapa a zona dos olhos, com uma espécie de vinco na zona do nariz, geralmente forrada a tecido vermelho e bordada. A moda não tem nada a ver com a religião, e diz-se que data da época em que os portugueses andavam por aqui, embora António Tenreiro que muito descreveu Ormuz e as suas gentes, nada dissesse sobre estas máscaras. Tenreiro gaba mesmo a beleza das mulheres, e diz que são “muito naturais portuguesas nas feições e ar dos rostos”, acrescentado que na rua se cobrem “com um pano grande, como lençol com buracos, por onde vêem” - a famosa burca dos fundamentalistas islâmicos.

* Publicado pela Editorial Estampa


Fortaleza na ilha de Ormuz, Irão
Fortaleza portuguesa em Ormuz
Viagens Ormuz, Irão
Ilha de Ormuz, Irão


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Viagens Ormuz, Irão
Crianças iranianas na ilha de Ormuz

Não há voos directos de Portugal para Teerão, sendo necessário voar via uma cidade europeia. A Turkish Airlines é uma das companhias aéreas que oferece tarifas mais atractivas de Portugal para o Irão, voando de Lisboa para Teerão via Istambul.


HOTÉIS EM ORMUZ

Em Ormuz não há hotéis pelo que é preciso ficar em Bandar, onde os hotéis baratos são mesmo muito maus; aconselhamos um dos mais caros, por exemplo o Atilar Suits Hotel N.1, na rua Imam Khomeini.


INFORMAÇÕES

Em princípio terá de fazer uma viagem organizada para ter direito ao visto - a menos que o peça num dos países vizinho, como a Turquia. Mas todas as informações devem ser pedidas no Consulado do Irão, em Lisboa. O cais de embarque para Ormuz fica em frente ao bazar. Existe um posto de turismo na mesma avenida costeira, mas quando lá fui só falavam persa e árabe. Muito pouca gente fala inglês, mas a simpatia dos iranianos, sempre prontos a ajudar, facilita muito a comunicação.




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