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VIAGENS ÁFRICA » MARROCOS » ARZILA, EL-JADIDA E SAFILitoral Atlântico de Marrocos - Arzila, El-Jadida e Safi
SINAIS DE UMA HISTÓRIA COMUM, EM MARROCOSNão é raro, quando se viaja por Marrocos, ouvir atribuir aos portugueses a autoria de muito do que é antigo, incluindo-se neste rol quer o património físico - fortalezas ou as ruínas que delas restam -, quer as lendas que povoam algum imaginário. Esta percepção dos portugueses como elemento relacionado com o passado histórico da região pode até propiciar inesperadas interpretações sobre a origem de vestígios mais remotos, como foi o caso de uma explicação que ouvimos a propósito dos autores de certas gravuras pré-históricas... atribuídas aos portugueses! O episódio ocorreu durante uma viagem a caminho das dunas do Erg-Chebbi e os nossos interlocutores eram alguns habitantes da pequena cidade de Erfoud.
Outras lendas têm, contudo, fundamento histórico, como as que se referem às ruínas do castelo de Aguz, actualmente submersas por dunas de areia na foz do rio Tencifte. O que a imaginação local acrescentou, provavelmente com o sentido de acentuar a circunstância usurpadora da expansão portuguesa, foi que a fortaleza se edificou numa só noite e que as pedras utilizadas na sua construção foram trazidas de Portugal. A presença portuguesa no Magreb começou com a ocupação de Ceuta, em 1415, e manteve-se até 1769, ano da perda de Mazagão e de Safi. Depois de Ceuta, seguiu-se a conquista de Alcácer-Seguer, em 1457, e várias tentativas de ocupação de Tânger, uma das quais bastante infortunada, como se sabe. Durante alguns anos, a aventura africana parecia condenada a um insucesso precoce; todavia, em 1471, D. Afonso V toma a praça de Arzila e cinco dias depois entra em Tânger. A conquista de Arzila foi crucial para o domínio da costa atlântica do Magreb, condição indispensável para o estabelecimento de um protectorado sobre um território que incluía, entre outras, as povoações de Safi e Azamor e se estendia um pouco até ao interior, até Alcácer-Quibir. Da passagem dos portugueses pela região magrebina ficaram seguramente marcas culturais, mas o testemunho mais evidente pode identificar-se nas fortalezas edificadas ao longo da costa atlântica, algumas razoavelmente bem conservadas. O percurso que aqui se narra toma Arzila como ponto de partida e leva-nos até Safi, cidade situada a mais de quinhentos quilómetros a sul. ARZILA (ASILAH), CIDADE BRANCALocalizada à beira-mar, a sul de Tânger, Arzila é uma pequena cidade tranquila, rodeada por uma muralha construída durante o domínio português. O branco e o azul - do mar ou das portas pintadas - são cores predominantes num ambiente urbano onde apesar da estreiteza das ruas reina uma espantosa luminosidade.
Uma grande parte das casas do centro está restaurada e muitas delas acolhem lojas de artesanato ou galerias de arte. Arzila é também uma estância balnear muito popular tanto entre os marroquinos como entre os europeus e a este facto não é alheia uma atmosfera descontraída e hedonista - ao contrário do que acontece muitas vezes no interior de Marrocos, o contacto com as populações é bastante mais fácil. Esta distinção relaciona-se, obviamente, com o carácter cosmopolita e aberto da cidade, mas, a propósito, podemos evocar um curioso episódio da história conturbada de Arzila. Ao tempo do império romano, perante uma população de espírito rebelde, o poder de Roma terá decidido deportá-la, povoando a cidade com gente levada da Península Ibérica. Uma caminhada pelo lado exterior da muralha, ao longo dos rochedos que a separam do mar, permite avaliar a sua imponência e o bom estado de conservação. No interior, aconselha-se um passeio pela medina e uma incursão aos dois bastiões visitáveis, os quais proporcionam um panorama inesquecível sobre a cidade e a costa. Larache, meia centena de quilómetros a sul, não tem o fulgor cosmopolita de Arzila, mas oferece em contrapartida uma atmosfera mais genuinamente marroquina, com menos sinais de actividade comercial vocacionada para o turismo, no dédalo de ruelas da velha e pouco cuidada medina. Os sinais da presença portuguesa resumem-se às ruínas da antiga fortaleza, a duas ou três centenas de metros da Place de la Libération, centro nevrálgico da zona nova da cidade. Em direcção ao sul, passamos ao largo de duas das maiores cidades do reino de Marrocos, Rabat, a capital, e a cosmopolita Casablanca, ligadas por uma auto-estrada que se prolonga para norte, quase até Larache. Depois de Casablanca segue-se uma centena de quilómetros de boa estrada asfaltada até chegarmos a El-Jadida, a antiga Mazagão, onde se conserva um dos melhores exemplos da arquitectura militar portuguesa do século XVI. EL-JADIDA, RUAS EM PORTUGUÊSEl-Jadida, actualmente uma importante cidade portuária, foi fundada pelos portugueses em 1513 no lugar onde existiu outrora uma fortaleza almóada, acabando por se tornar o seu principal entreposto atlântico. Depois do abandono da cidade em 1769, na sequência de um cerco imposto pelo sultão Sidi Mohammed ibn Abdallah, as muralhas foram-se degradando até ao início do séc. XIX, quando Moulay abd ar-Raham ordenou a sua reconstrução. No interior, a medina recuperou movimento e vida mais tarde por mor da actividade dos comerciantes judeus.
A visita à cidadela portuguesa pode começar por uma volta pelo caminho de ronda das muralhas, de onde se alcança uma boa perspectiva sobre a medina, o mar e as docas. Aí surgem já pormenores arquitectónicos com assinatura portuguesa, como portas encimadas por arcos de cantaria. Na medina, onde a animação social se alimenta do comércio e de alguns restaurantes e cafés, os vestígios da presença portuguesa são variados, desde a Igreja da Assunção, logo à entrada da porta principal, à sobrevivência dos nomes lusos das ruas (Rua do Arco ou Rua do Governador). Não será estranho, pois, escutar os habitantes referirem-se a estes sinais colocando ênfase no que eles significam de história partilhada. Afinal, não obstante o perfil dos desígnios seiscentistas portugueses, o relacionamento entre os dois povos não se fez apenas por via das armas, tendo-se registado, até a nível oficial, muitos acordos de regulamentação da actividade comercial, com as inerentes implicações em termos de sociabilidade e de troca cultural. Imprescindível é, obviamente, uma visita à cisterna portuguesa, ainda em utilização, na Rua Mohammed Ahchemi Bahbai. É um belo exemplo de arquitectura do género - uma antiga sala de armas - escolhido por Orson Welles para a rodagem de uma das cenas de Othello. Quinze quilómetros a norte, está Azamor, na margem do rio Oum er-Rbia. As muralhas da fortaleza lusitana do séc. XVI continuam de pedra e cal e a medina conserva marcas da prosperidade perdida do tempo dos comerciantes judeus que a abandonaram quando da criação do Estado de Israel. À beira rio pode observar-se uma das actividades artesanais da população, o tratamento de peles. A FORTALEZA DE SAFIA última etapa deste percurso é Safi, embora a belíssima Essaouira (a antiga Mogador), um pouco mais a sul, não desmereça a atenção do viajante. As muralhas que cercam a medina de Essaouira têm, todavia, pouco de portuguesas. Foi um arquitecto francês que assinou a sua reconstrução em finais do séc. XVIII.
É bem possível que o facto de Safi ser uma cidade industrial afaste muitos viajantes. Mas a medina, com os seus vivos mercados de rua, merece pelo menos um dia de giravoltas. É certo que a célebre cerâmica polícroma de Safi já sofreu uma modelação determinada pelo gosto dos mercados de massas, mas ainda assim vale a pena visitar o bairro dos ceramistas e, sobretudo, o Museu Nacional da Cerâmica, instalado na estrutura fortificada conhecida localmente por Kechla (alcáçova), num dos extremos da cidadela. Ao correr dos passos pela medina há que estar atento também ao súbito desenho de um portal manuelino, sem esquecer a capela-mor da catedral portuguesa (nunca concluída), que durante muitos anos se disfarçou de banho feminino. A enorme fortaleza de Safi, o Castelo do Mar, foi construída durante o reinado de D. Manuel. O soberano contratou para o efeito os melhores especialistas da época, que introduziram ali o que era então uma novidade na arquitectura militar, os baluartes redondos acasamatados. D. Manuel não poupou dinheiro nem esforços para erguer esta poderosa fortaleza, cujas muralhas se elevam a sete metros de altura, têm cinco de espessura e correm ao longo de três quilómetros. Mas de pouco serviria tamanha e tão forte guarnição. A aventura magrebina haveria, mais tarde ou mais cedo, de enfrentar o fracasso. Por razões várias, mas sobretudo porque as populações dos territórios ocupados possuíam uma civilização e uma cultura notáveis, em relação às quais, aliás, os povos da Península Ibérica eram - e ainda são - devedores. E também porque a humilhação da ocupação da terra árabe por forças estrangeiras (uma lição ainda não compreendida no século XXI.) foi renovando constantemente o fôlego da resistência até à aliança local que esmagou os portugueses em Alcácer-Quibir, na batalha conhecida na história marroquina como a batalha dos três reis.
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