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VIAGENS ÁFRICA » MOÇAMBIQUE » INHAMBANEPraia do Tofo, Inhambane, Moçambique
SOBRE INHAMBANEInhambane é por estes dias a parcela de Moçambique a que se atribui maior potencial para o desenvolvimento do turismo. Todo o litoral, de Quissico até à província de Sofala, é uma longa sequência de praias de areia fina, dunas, extensos palmares, lagoas e um mar azulíssimo e imaculado. Não foi por acaso, afinal, que a universidade pública moçambicana decidiu abrir na capital da província, há quatro anos, uma Escola Superior de Hotelaria e Turismo.
Os investimentos no sector do turismo - na grande maioria sul-africanos - têm-se traduzido numa forte pressão sobre as formações dunares da costa, facto que tem desencadeado algumas mediáticas polémicas. Em certas zonas, a oferta hoteleira tem crescido muito rapidamente e nem sempre marcada por preocupações de qualidade ou de convivência sã com o meio natural. Apesar da crescente afluência de veraneantes, há, todavia, recantos menos acessíveis, mais afastados dos eixos de comunicação, servidos por picadas arenosas, cuja frequência só se nota verdadeiramente aos fins-de-semana ou no pico da temporada alta. Mas mesmo assim, os mais de quinhentos quilómetros de litoral conservam um elevado número de pequenas e belas praias por descobrir, desde que o viajante disponha de um todo-o-terreno. Por outras palavras, as praias de Inhambane não se esgotam no muito badalado arquipélago de Bazaruto e também não são propriamente um segredo. No meio-termo entre as mais frequentadas e as mais arredadas das movimentações domingueiras, figura um dos locais “históricos” de veraneio de Inhambane, a pouco mais de dez minutos da capital da província: a praia do Tofo. Talvez daqui a alguns anos, não muitos, certamente, o sossego do Tofo - e, eventualmente, de outras praias da região - não seja mais do que uma memória. Concretizado o projecto de uma estrada que deverá ligar directamente a província de Mpumalanga, na África do Sul, ao litoral moçambicano, algures entre Xai-Xai e Inhambane, o aumento da afluência de turistas sul-africanos acabará por induzir transformações profundas na paisagem e nas actividades económicas da província. PRAIA DO TOFO - À SOMBRA DAS CASUARINASA fama do Tofo vem de longe e renovou-se com a rodagem, em cenários próximos, da novela portuguesa «A Jóia de África». Já nos tempos coloniais a pequena baía era frequentada pelos colonos que habitavam a capital da província. Inhambane possui uma localização excepcional, junto de uma magnífica baía, mas não tem à mão uma praia merecedora do nome. O Tofo - assim como outros areais vizinhos - tornou-se uma referência para a cidade, para a região e, até, para a capital do país. Ainda hoje, há gente que em Maputo troca ocasionalmente as praias mais próximas da Macaneta, do Bilene ou da Ponta do Ouro por um fim-de-semana retemperador nas águas e areias do Tofo.
No que se pode tomar como o “centro”, onde termina a estrada que liga a Inhambane, está concentrada a principal oferta de alojamento e restauração, embora ao longo das dunas, a um ou dois quilómetros, se localizem algumas opções a ter em conta - como os chalés do Bamboozi ou o Dino's Bar, um must local no que toca a animação nocturna. No pequeno largo onde os “chapas” despejam e recolhem passageiros, há um pequeno mercado onde se vão abastecer os veraneantes instalados nos bungalows em regime de self-catering. É uma experiência curiosa, escutar os pregões, em inglês, das vendedoras de legumes, as contas soletradas no idioma dominante nos países da SADC, de que Moçambique faz parte. “One kilo, twenty five thousand meticals”. Ou o equivalente em rands, uma vez que os clientes, loiros e de alvíssima pele, chegam maioritariamente da vizinha África do Sul. Quase todos os alojamentos disponíveis no Tofo são, aliás, sul-africanos. Nas excepções contam-se o velho Hotel Tofo Mar, renovado, o complexo do Clube Ferroviário, a carecer de ar fresco, e o Nordino's Lodge, constituído por uma série de bungalows alinhados à sombra de grandes casuarinas. O último é uma das melhores opções em termos de qualidade-preço, ainda que as instalações não sejam um luxo. Mas têm uma situação invejável, a maternal protecção das casuarinas contra o rei sol, o areal aos pés e uma boa vista para a baía. TAMBORES À BEIRA-MARO que fazer no Tofo? Nada, por exemplo, se tal é possível, coisa sábia de se fazer num tempo em que as indústrias do lazer inventam ardilosamente um sem fim de actividades para catar mais receitas. E ler, evidentemente. Ler à sombra das casuarinas, com um panorâmico mar azul a preencher quase todo o horizonte e uma brisa refrescante a afagar as páginas do livro, o mesmo vento que embala os ramos das casuarinas.
Os mergulhos nas águas tépidas do Índico são, é verdade, o principal móbil de quem se dá ao trabalho de fazer centenas - ou milhares - de quilómetros para chegar ao Tofo, mas para os mais desassossegados há um punhado razoável das tais actividades: observação de golfinhos ao largo, mergulho, snorkelling, caminhadas a pé ou passeios de cavalo pela praia ou por sombreados caminhos entre coqueiros e cajueiros, atravessando aldeias arrumadinhas, com pequenas machambas, terreiros limpos e gente afável. Para sul, contornada a breve curva da baía e dobrado um tímido promontório, surge um extenso areal ataviado com dunas altas. Lá ao fundo, está o Tofinho, uma enseada que em certos dias se enche de ondas ao gosto dos surfistas. Para o lado oposto, para norte, a caminhada há de ter seu início o mais cedo que se puder. Ao amanhecer, de preferência. Até se chegar ao primeiro cabo, que parece um braço de dunas a meter-se no mar, é preciso bem uma hora, e depois ainda quase outro tanto para se avistar o largo areal da Barra. Pelo caminho, a batida trilogia do sol, mar e areia pode ser quebrada por surpresas: uns saguins que espreitam lá do dorso das dunas, rapazitos que desembarcam não se sabe de onde (das aldeias submersas nos palmares ocultos pelas dunas) para vender pulseiras e colares feitos com conchas e búzios, inventados com engenho depois da escola, ou bolinhos de sura, uma especialidade local feita com seiva de palmeira fermentada. Ou podemos dar com uma comitiva popular ocupada em trâmites religiosos, a consumar, de pés imersos na espuma das ondas, um ritual, talvez um baptizado, ou coisa equivalente, talvez uma iniciação. É uma visão fugaz, como a de tantas coisas boas que teimam a memória: rodopiam rapazes e raparigas com as cabeças sob as mãos do nhamussoro (feiticeiro) até ficarem tontos e quase se estatelarem na areia. Enquanto isso, alguém toca tambores. Não haverá, decididamente, muitas estâncias balneares assim, onde a vida acontece sem ser de encomenda.
ORLA DE INHAMBANE - OUTRAS PRAIAS, OUTRAS ANDANÇASNa orla de Inhambane, tanto a norte como a sul da capital da província, há um bom número de alternativas ou complementos de uma estância no Tofo. Pouco mais de uma dezena de quilómetros para norte, por uma estrada de terra vermelha que serpenteia entre palmares, está a Barra, uma praia com boa oferta de alojamento. Nas imediações está o recente Flamingo Bay Water Lodge, um conjunto de casinhas em materiais locais assente sobre um sistema de palafitas. Continuando para norte, chegamos a Morrungulo e meia centena de quilómetros depois, a Pomene (uma reserva natural), que conserva um litoral edénico, o típico cenário tropical enfeitado de palmeiras, e já depois de Vilankulos à ampla praia de Inhassoro. Para sul, não falta, igualmente, escolha. A Baía dos Cocos é a primeira, depois vêm Guinjata, enseada encravada entre falésias, e os cenários de rodagem de «A Jóia de África». Lá para as bandas de Quissico, a terra das timbilas, encontramos duas pérolas, Zavala e Ponta Závora. Esta é uma zona, também, de lagoas. No roteiro dos passeios há que inscrever-se, ainda, uma visita a Inhambane, cidade que conserva um núcleo urbano do tempo colonial, uma espécie de museu que testemunha exemplarmente uma época. As edificações mesclam elementos lusos, orientais e das tradições arquitectónicas swahili.
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