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VOLTA AO MUNDO » 65. SANTA FÉ, VENEZUELA (CARAÍBAS)Das Caraíbas para Portugal
Estava na Venezuela quando entrei numa agência de viagens para indagar sobre os preços de um voo especial. O de regresso. Ainda me recordo do que escrevi na primeira crónica desta série. “A liberdade de decidir, a cada momento, onde acordar no dia seguinte, é um dos mais reconfortantes luxos que terei ao meu dispor nos tempos mais próximos” - antevia, nessa altura. Assim foi durante toda a viagem.
Catorze meses depois, com o mesmo espírito de liberdade que sempre me acompanhou nas encruzilhadas do mundo, optei por voltar a acordar no mais familiar de todos os lugares. Aquele a que, após calcorrear parte do nosso planeta, continuarei a chamar casa. Quando saí da agência de viagens, tinha um voo marcado para Portugal para daí a uma semana. Havia que aproveitar os últimos dias e o apelo da costa caraíba fez-me entrar num por puesto - meio de transporte comum na Venezuela, que não é mais do que um táxi ou miniautocarro que só arranca quando a lotação estiver completa - com destino à pequena povoação piscatória de Santa Fé. Fica situada entre Puerto La Cruz e Cumaná, as duas principais portas de acesso à hiperdesenvolvida ilha Margarita, nas Caraíbas venezuelanas. Apesar da proximidade dos luxos do mais turístico destino de todo o país, Santa Fé era uma localidade simples. Agradável sem ser bonita, prazenteira sem ser exuberante e, pensava eu, pacata. “Depois de escurecer, não vás lá para o fundo” - disse-me, pouco depois de chegar, um velho pescador encostado ao seu barco e apontando para a zona oeste da praia. “É perigoso. Naquele lado há muita droga e malandragem” - afiançou. Nunca em catorze meses de viagem tive problemas com assaltos, mas agir com bom-senso e confiar nos conselhos dos habitantes locais são duas regras de ouro que me habituei a adoptar. E assim, mesmo sabendo que a segurança é muitas vezes aparente e a insegurança outras tantas vezes psicológica, quedei-me na zona “segura” da povoação.
Curiosamente, nem essas precauções aparentavam ser garantia do que quer que fosse num país onde a violência faz parte do quotidiano de quem lá vive ou por lá passa. Que o digam dois jovens franceses que iniciavam, quatro dias antes, uma viagem de três meses pela América do Sul. “Chegaram de Caracas e vieram directamente para Santa Fé para escaparem à insegurança da capital” - contou-me outro francês que conhecia os seus azarados compatriotas. “Ao saírem do autocarro, aqui em Santa Fé, uns tipos ameaçaram-nos com machados e levaram-lhes todas as mochilas. Agora estão sem roupa, sem dinheiro, sem passaporte, levaram-lhes tudo” - prosseguiu, para logo concluir: “Aguardam apenas que a embaixada lhes emita novo passaporte para regressarem a França”. Muito azar para quem acabara de iniciar uma viagem, pensei. Seria, no entanto, injusto classificar Santa Fé como um lugarejo perigoso. A maior parte das pessoas que para lá se dirigem fazem-no, aliás, com o simples propósito de relaxar. Ou para visitar o Parque Nacional Mochima. Um passeio de barco pelas ilhotas que compõem o parque revelou-se uma excelente forma de conhecer praias interessantes, embora sem a beleza tropical de paragens como o idílico arquipélago Los Roques, próximo de Caracas. Faltava a areia branca, os recifes e as águas azul-turquesa transparentes para poderem figurar num típico postal ilustrado caraíba. Mas eram lugares agradáveis, limpos e estavam povoados de golfinhos no mar e casais apaixonados em terra, porventura influenciados pelo ambiente romântico de um final de tarde nas águas tépidas das Caraíbas. Foi nesse passeio que conheci Ramón e a sua namorada. Ramón aparentava ter cinquenta e muitos anos anos. Era funcionário da embaixada espanhola em Caracas e comunista fervoroso. Estava de férias em Santa Fé. Quando soube que eu era português, disparou: “Estive em Portugal logo após a revolução. Nessa época, eu era um membro muito activo do partido comunista espanhol e tínhamos uma forte ligação com o PCP” - contou. “Logo após o 25 de Abril, estive inclusive com o Cunhal” - afiançou, com uma ponta de orgulho a transparecer na sua voz. Falou ainda de outras experiências revolucionárias, na Nicarágua, enquanto navegávamos por entre as ilhas do Parque Nacional Mochima. “Mas agora estou mais calmo” - encerrou o assunto, quando já me preparava para falar do retorno a Portugal. “Ramón, é precisamente para lá que vou amanhã” - informei. “Boa viagem. A luta continua!” - declarou. Despedimo-nos.
Fui cedo para o aeroporto. Estava calado, imerso em pensamentos confusos. Como iria reagir ao regresso a casa? - perguntei a mim mesmo. Entrei a bordo da primeira das aeronaves que me haveriam de trazer de volta a solo lusitano, consciente de que estava a colocar um ponto final no cumprimento do sonho que me fez partir. Horas depois, à chegada ao Aeroporto Francisco Sá Carneiro, no Porto, a “viagem de sentido único” aterrava no ponto de partida. O globo estava circunscrito. Na manhã seguinte, haveria de acordar em casa. Estava imensamente feliz. Por ter empreendido esta odisseia. Por tudo o que vivi nestes meses de aventura. Por estar de regresso.
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