Prazeres simples no cenário tropical de Mui Ne, Vietname
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Alojo-me num bungalow algures no extenso areal de Mui Ne, Vietname, e deixo-me enfeitiçar pela beleza típica de um paraíso tropical. Um lugar onde o tempo passa bem devagar e de onde não apetece sair. |
Por Filipe Morato Gomes |
Qual o itinerário da volta ao mundo? |
Mui Ne ainda não faz parte do roteiro de grande parte dos viajantes que percorrem o Vietname de norte a sul. Muitos preferem a agitação de Nha Trang, quatro horas de viagem para norte, uma típica cidade de veraneio, com inúmeras e diversificadas ofertas no que concerne a alojamento, restaurantes, bares, vida nocturna e a sua dose de gatunos e prostitutas. E seguem depois para Saigão (Ho Chi Mink), mais a sul, directamente. Eu parei em Nha Trang apenas o tempo suficiente para tomar contacto com a localidade e dar os primeiros mergulhos em mar aberto desde que sai de Portugal. Poucos dias depois, estava instalado num autocarro rumo à pacata localidade de Mui Ne. Enquanto o turismo de massas não lá chega.
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| Vista da praia de Mui Ne, litoral centro do Vietname |
Antevejo que, dentro em breve, Mui Ne estará transformada num mega resort turístico onde grupos numerosos de reformados turistas franceses passarão dias de repouso absoluto, entre um copo de tinto Bordeaux e uma baforada de cachimbo, à beira-mar. Ainda não é o caso, felizmente. Mas pouco faltará. Muitos hotéis de maior dimensão e melhor qualidade estão já instalados na área. Um mau prenúncio para quem prefere um tipo de turismo mais básico, contacto com a natureza, sossego e ausência de néon nas ruas.
Enquanto a transformação não se torna definitiva, Mui Ne é apenas uma bela língua de areia que se estende por cerca de vinte quilómetros, repleta de pousadas básicas mas acolhedoras, bungalows em cima da praia e um punhado dos tais hotéis mais luxuosos, não destinados aos viajantes independentes. E ainda mantém o charme daqueles paraísos tropicais onde o tempo passa bem devagar e de onde não apetece sair. Lugares onde os mais intensos prazeres são coisas tão simples como ler um livro sob a sombra refrescante de um coqueiro. Ou sair da cama directamente para um mergulho no mar, vinte metros adiante. Ou, mais cedo ainda, apreciar o nascer do sol sentado na areia, enquanto dezenas de barcos regressam da faina diária e pescadores locais puxam as redes para terra firme. Ou, à noite, deliciar-se com um apetitoso peixe grelhado tendo como candeeiro a lua e como música ambiente o som intermitente da ondulação.
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| Turista repousando na pousada Hiep Hoa, Mui Ne, Vietname |
Experimentei tudo isso, é certo, mas não se pense que nada se pode fazer para além de relaxar e desfrutar desses pequenos nada. Para os viajantes mais activos, aliás, Mui Ne é um excelente local para passar uns dias exercitando arduamente os músculos do corpo. Especialmente para os amantes de desportos aquáticos dependentes da qualidade do vento, como o kite-surf e o windsurf. Os ventos são fortes durante quase todo o dia, proporcionando óptimas condições para a prática desses desportos. O simples facto de se observar os praticantes de kite-surf levantarem voo com as suas pranchas, fazendo piruetas inacreditáveis alguns metros acima da água é, por si só, um espectáculo único. Experimentá-lo, por outro lado, tem o seu preço. Uma hora de aprendizagem com um instrutor qualificado custa 75 dólares, o que, para o comum dos viajantes independentes, equivale ao orçamento disponível para vários dias de viagem no Vietname.
Tal como alguns estrangeiros que se apaixonaram por esta pequena localidade e não mais a deixaram, também eu sinto que poderia ficar em Mui Ne por muito mais tempo. Mas experiências mais intensas me aguardam no extremo sul do Vietname. Depois do perfume do mar, preparo-me para a terrível herança que a guerra deixou neste belo país.
{ 27.Nov.2004 - 14:50. Versão não editada do texto originalmente publicado no jornal Público }
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Qual a vossa opinião?
• Guias como os Lonely Planet potenciam a descaracterização de um lugar mas ao mesmo tempo contribuem para a sua divulgação e consequente desenvolvimento. Equilíbrio impossível?
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É possível equilíbrio se houver sensatez, se não há divulgação como podemos conhecer tais maravilhosos sítios?
Comentário à viagem enviado por Octávio em 30.NOV.2004 - 11:08
Nesta matéria, a internet LIVRE assume cada vez mais um papel principal. É tão bom ser editorialmente liberto de quaisquer compromissos.
Viva a internet das pessoas!
Comentário à viagem enviado por Dario Silva em 30.NOV.2004 - 18:03
Desde que exista razoabilidade, poderá efectivamente existir equilibrio. Pessoalmente, não sou adepto de guias como o Lonely Planet embora a eles recorra ocasionalmente. E futuramente talvez mais ainda, já que finalmente decidi também ir pelo mundo fora, à semelhança do nosso cronista. É de facto, preciso coragem... espero que na altura não me falhe... tudo de bom para todos e continuação de boa viagem.
HS
Comentário à viagem enviado por Henrique em 09.DEZ.2004 - 16:17
Já eu sou uma completa viciada nos guias Lonely Planet. É certo que acabam por uniformizar um bocado a viagem: na Índia não conheci nenhum viajante que não tivesse o seu Lonely Planet e foi seguramente por isso que, mesmo sem nada combinado, encontrei as mesmas pessoas em cidades diferentes.
Sim, acho que o Lonely Planet pode descaracterizar os lugares - penso em Jodhpur e em Udaipur, onde cada pensão afixa à porta o seu cartaz “as recommended by LP”, penso no ar abandonado das pensões que não vêm recomendadas na “bíblia” - mas acho que esses lugares acabariam por descaracterizar-se mesmo sem LP. Não foi certamente o LP que fez Benidorm - a descaracterização é fruto sobretudo da atitude dos poderes que gerem os lugares, e da forma como os locais encaram o turismo...
Por outro lado, é preciso ver que certos sítios permanecem praticamente virgens apesar de virem mencionados no LP. Na Índia pudemos encontrar um lugar assim, onde éramos os únicos turistas num raio de 100 kms - e vinha no LP.
Finalmente: é sempre possível procurar no mapa um sítio sem direito às suas quinze linhas de fama. Quem é que nos impede de ir para lá nas próximas férias?
Comentário à viagem enviado por Inês em 10.DEZ.2004 - 00:46
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Nota: com a renovação do design de Alma de Viajante, em 2006, foi desactivada a introdução automática de comentários à volta ao mundo, para evitar a publicação de spam nas crónicas de viagem. As mensagens podem ser enviadas por e-mail e serão colocadas neste travelogue, manualmente.
Obrigado a todos os que, ao longo dos tempos, enriqueceram esta volta ao mundo com as suas palavras.
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