Inesperadas Melodias no Deserto de Gobi (VM #06)

Por Filipe Morato Gomes

Viagens: Deserto de Gobi, Mongólia

Algo inesperado me sobressalta no mercado de Dalanzadgad, em pleno Deserto de Gobi, algures numa Mongólia fascinante mas profunda. Recordações que me fazem cantarolar o refrão de uma canção. E sorrir.

Jamais me passaria pela cabeça acontecimento tão surreal em pleno Deserto de Gobi. No coração de uma Mongólia profunda e acessível apenas por estradas que não o são, caminhos tortuosos roubados à aridez pedregosa de planícies acastanhadas ou a leitos de rio esvaziados de água. Um lugar onde os quilómetros se medem em horas e o tempo passa ao ritmo lento de um camelo em movimento.

Cores do deserto ao entardecer, Mongólia
Cores do deserto ao entardecer, Mongólia

Partimos da capital Ulan Bator munidos de um fogão a gás, vários conjuntos de pratos e talheres e alguma comida, víveres indispensáveis para ultrapassar a monótona gastronomia mongol baseada quase exclusivamente em carne de carneiro. É inacreditável como toda uma população sobrevive comendo carneiro a todas as refeições, cozinhado é certo de várias formas mas de sabor invariavelmente semelhante, cheiro forte e penetrante, enjoativo. E é assim em todo o país. Exasperante.

Mas foi, aliás, ao sabor de um prato de carneiro que o grupo para esta expedição todo-o-terreno começou a tomar forma. Na companhia de duas simpáticas suíças, homónimas por casualidade, esboçou-se ali mesmo, entre duas garfadas da dita carne, aquilo em que esta expedição se transformou: uma longa viagem numa carrinha russa de tracção total por diferentes partes da Mongólia rural, do Deserto de Gobi aos grandes lagos no norte do país.

Conduz a carrinha Nêma, mongol de nascença, óptimo condutor e pessoa de confiança mas incapaz de pronunciar mais do que umas muito básicas palavras em inglês. Acompanham-nos ainda dois irmãos israelitas – Ofri e Eilon -, excelentes companheiros e viajantes experientes e ainda o canadiano Christian que, por inacreditável coincidência, se cruza de novo no meu caminho. Descubro que Ofri saiu de Israel há já quatro anos, mal terminado o prolongado e obrigatório serviço militar. Viaja por onde lhe apetece até o dinheiro terminar, escolhe um poiso temporário para reabastecimento financeiro trabalhando nalgum ofício rentável, volta à estrada, trabalha de novo, conhece o mundo. “Quando voltas para Israel?”, interrogo curioso. “Não tenho planos para regressar”, responde com desarmante naturalidade.

Mercado de Dalanzadgad, Mongólia
Mercado de Dalanzadgad, Mongólia

Parámos, então, na pequena mas comparativamente importante cidade de Dalanzadgad para compra de mantimentos fundamentais para os próximos dias da expedição. Pão, esparguete, tomates, pepinos, cebolas, água e o que mais se encontrar. E papel higiénico. No mercado local, apinhado de gente vinda provavelmente de bastante longe, um burburinho próprio dos negócios de rua é abruptamente abafado por sons oriundos não se percebe bem de onde. De um café, de um automóvel, sim, do interior de uma carrinha igual à nossa estacionada nas proximidades – identifico finalmente.

Reconheço, como que atordoado, a sonoridade ecoando nas paredes das casas, a voz, aquele misto de inglês e português estrangeirado que a todos inundou os tímpanos meses atrás. Não quero acreditar, é por demais surreal. Mas não é sonho. Estou no meio de um mercado de rua, na praça central de uma povoação algures no Deserto de Gobi, rodeado de pessoas de face diferente, costumes estranhos e trajar típico, longe de casa, muito longe, ouvindo o hino do Euro 2004 pela voz da luso-canadiana Nelly Furtado. Inacreditável. Mas não resisto a cantarolar o refrão, sorrindo, sorrindo abertamente tal qual um emigrante desempoeirando memórias antigas do seu querido país. Uma partida pregada pelo Deserto.

Um dos tradicionais <i>gers</i> mongóis onde pernoitei no Deserto de Gobi
Um dos tradicionais gers mongóis onde pernoitei no Deserto de Gobi

Sobre o Gobi – palavra que significa ela própria deserto -, descubro que não chega nunca a ser um mar de areia e dunas sem fim à vista. É um terreno cada vez mais árido à medida que a fronteira sul da Mongólia se aproxima, mais pedregoso e com menos vegetação. Mas fértil em vida animal. Povoações são raras. Pequenos grupos de pessoas, normalmente unidas por laços familiares, formam espaçadamente minúsculas comunidades compostas por três ou quatro circulares pedaços de tradição a que os mongóis chamam gers – a habitação mongol por excelência. Vivem incrivelmente isolados, sem vizinhos nas proximidades e aparentemente afastados do mundo que os rodeia. Aparentemente, pois não é raro vislumbrar um rasgo de civilização moderna e tecnologicamente desenvolvida nesses rústicos lares, em mais uma insólita imagem nestas paisagens longínquas. Antenas parabólicas. E já não me surpreenderia se também aqui novos e velhos cantarolassem aquela melodia que me sobressaltou no mercado de Dalanzadgad.

Livro Alma de ViajanteEsta é a capa do livro «Alma de Viajante», que contém as crónicas de uma viagem com 14 meses de duração - a maioria das quais publicada no suplemento Fugas do jornal Público. É uma obra de 208 páginas em papel couché, que conta com um design gráfico elegante e atrativo, e uma seleção de belíssimas fotografias tiradas durante a volta ao mundo. O livro está esgotado nas livrarias, mas eu ofereço-o em formato ebook, gratuitamente, a todos os subscritores da newsletter.

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Filipe Morato Gomes

Filipe Morato Gomes

Autor do blog de viagens Alma de Viajante e fundador da ABVP - Associação de Bloggers de Viagem Portugueses, já deu duas voltas ao mundo - uma das quais em família -, fez centenas de viagens independentes e tem, por tudo isso, muita experiência de viagem acumulada. Gosta de pessoas, vinho tinto e açaí.