Diários de viagem Eurásia Tailândia

33. Benvindo à Terra dos Sorrisos

Sentámo-nos no avião com a Tailândia nos pés! Só o simples facto de deixarmos o continente indiano, dava outra energia à nossa viagem. À frente, tínhamos um país conhecido pela sua simpatia, pelas suas praias e um dos destinos mais procurados pelos cicloturistas. Tínhamos também pela frente uma Banguecoque que não pára e um calor e humidade infernais. Os primeiros quarenta quilómetros foram de loucos, mas quem pedala por gosto...

O avião descolou! Por breves momentos sentimos um silêncio ensurdecedor. “Estamos fora da Índia!”, dissemos, logo cortado por um “Seat, please. Please, came back to your place”, vindo de trás de nós e dirigido a um indiano que se tinha levantado ainda o avião não tinha posto bem os “pés” fora da terra. E repetia "Please, came back to your place”, enquanto o indiano se ria e dizia não aguentar mais, que tinha de ir à casa de banho. À insistência da hospedeira, colaborou, contrariado.

À chegada, as casas alinhadas lá em baixo repetiam-se! Os veículos circulavam do lado correcto! Existiam jardins que nos pareceram verdes de mais! Alguns lagos sem lixo nas margens! Tailândia, pensei, acho que vou adorar este país! No entanto, ainda não era para já. À saída, um indiano colocou um pacote inteiro de pan na boca, falando com os amigos sem mexer o queixo e eu imaginei-o a mascar aquela “coisa” nojenta, a ficar com os dentes todos vermelhos e a cuspir aquela mistura num qualquer passeio da capital. Logo corri dali para fora com os sacos às costas e prometi para mim próprio não mais pensar na Índia.

Adeus, Índia

Adeus, Índia!

O aeroporto é internacional e mesmo que ainda não tivesse visto o nome, era fácil constatar pelas centenas de turistas à minha frente nas muitas e compridas filas da emigração. Tinha mudado de país, diziam-me uns carateres inelegíveis nas placas amarelas à minha frente, as minissaias das alemãs e das ingleses chegadas como quem vai para a Quarteira, os calções dos rapagões à procura de sexo, drogas e rock'n'rol e os sorrisos dos tailandeses, embora ainda poucos, que ajudavam os estrangeiros a encontrar-se naquele labirinto! “Aposto que vão todos de autocarro, táxi ou comboio, agora. Será que se soubessem que estávamos de bicicleta e que ainda temos de pedalar até ao centro da cidade, nos deixariam passar à frente?”, fiquei com o “se” na cabeça, só para mim e preferi pensar que, prioridade para as bicicletas, só existe na Holanda. Duas horas depois, já de noite, partíamos para uma cidade de dez milhões de habitantes, sem saber “ler nem escrever”. No aeroporto ninguém nos soube dizer a que estrada rumar, os taxistas desconheciam a minha morada e uma simpática menina num qualquer balcão disse-me num inglês tropeçado: “By bicycle? Impossible, Sir!”.

Tínhamos quarenta quilómetros pela frente, até uma cidade da qual desconhecíamos a dimensão, a vida noturna, o trânsito. O calor era insuportável, a humidade impossível e as luzes nas nossas bicicletas, inexistentes! Pelo caminho, percorremos uma via rápida, uma estrada secundária e alguns becos sem direito a mapa. Pelo caminho a fome fez-nos parar e saboreámos a primeira sopa de noddles e legumes! “Vamos adorar!”, dissemos vezes sem conta.

Com os pés no céu, a caminho de Banguecoque

Com os pés no céu, a caminho de Banguecoque

Enquanto nos repetíamos com adjetivos deliciosos, o dono do restaurante puxava do seu IPad e, com o auxílio duma menina que nos interpelou na rua, traçavam-nos a rota até à Embaixada de Portugal, onde haveríamos de chegar umas horas depois. Pagámos o preço certo, despedimo-nos com um Kòrp Kun Krap atabalhoado e, em troca, recebemos os sorrisos mais sinceros que tivemos nos últimos meses! “Vamos adorar!”, repetimos, e saímos suados e airosos estrada fora! Banguecoque chegou e o aparato era enorme de mais para os nossos olhos!

A cidade não pára – primeira impressão tirada. Vamos ver-nos gregos para chegar à Embaixada – segunda conclusão. Ambas estavam mais do que corretas! Pela pequena grelha no portão verde encaixado no imenso muro branco da Embaixada de Portugal, tentávamos explicar ao guarda que sim, sabíamos que era muito tarde, que sim, sabíamos que a embaixada abria só de manhã e que sim, também sabíamos que o embaixador deveria estar a dormir, mas que nós só queríamos pousar as bicicletas como o combinado e vermo-nos partir num táxi para o hotel mais próximo. Mostrámos passaportes, insistimos quando ele nos repetia que a embaixada abria de manhã e percebemos que este, de inglês, tinha poucos conhecimentos. Quando nos disse para esperar e apareceu o condutor da “casa”, tudo ficou resolvido em cinco minutos e partimos de mochila às costas para o mexe-mexe constante de Banguecoque.

Prato de noddles com vetegais

Prato de noddles com vetegais

“Mas o que é isto?”, dizíamos admirados um ao outro quando entrámos em Khao San Road, a “embaixada” da noite na capital. A última vez que me lembro de ver tal sequência de alcoolizados, adolescentes "seminuas", música colorida nas alturas e cafés, bares e lojas de roupa p'ró menino e p'rá menina foi numa praia do Algarve, da qual não me lembro do nome, mas desfigurada como tantas outras. Procurámos um hotel barato para descansar o corpo pesado, petiscámos uma massa, bebericámos um divinal sumo de melão (ah, nisto eles são bons!) e fizemos duas piscinas naquela mesma rua, para ver se a comida descia mais depressa e a cama nos apanhasse em breves minutos. Deitámo-nos com a sensação de nunca-mais-vou-acordar e adormeci com a Tanya a repetir-se, não sei se a sonhar, se a delirar: “Com a música nestas alturas, não vou conseguir dormir...”.

No dia seguinte, bem cedo, corremos para a estação e comprámos bilhetes para o sul! Ko Jum, uma ilha paradisíaca seria o nosso próximo destino no país. Além das praias, da boa comida e do descanso, estavam marcados dois encontros que muito ansiávamos. Metemo-nos no comboio e, enquanto o sol se punha e o vento quente entrava pela janela aberta, pensávamos: “Vamos adorar!”


O projecto Eurásia é uma viagem de bicicleta entre Portugal e Macau, com passagem pela Europa, Médio Oriente e Ásia central e duração mínima prevista de dezoito meses. Ao longo de todo o percurso serão publicadas crónicas em Alma de Viajante, com periodicidade média quinzenal. O site oficial dos ciclistas-viajantes Rafael Polónia e Tanya Ruivo encontra-se em www.2numundo.com.