Praias de Gaia
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Com uma costa fluvial e marítima tão bela como extensa, Gaia oferece ao visitante cerca de vinte quilómetros de caminho pedestre apoiado por pequenos cafés e restaurantes de praia. Chama-se Linha Azul e permite a qualquer instante uma interrupção para um mergulho ou um café - é só escolher a praia. Relato de uma caminhada pelo litoral de Vila Nova de Gaia. |
Por Ana Isabel Mineiro | 29.Jan.2010 |
GAIA PELA PRAIA - DO DOURO ATÉ AO MAR
O percurso começa na ponte D. Luís, onde o cenário é o casario da Ribeira portuense com o rio aos pés. Do lado de cá, o Cais de Gaia tem cafés novos e antigos onde se pode tomar o pequeno-almoço. Frescura do rio, luz suave sobre o presépio de casas do outro lado, gaivotas madrugadoras que aproveitam o sossego para chegar perto da estrada. Os barcos rabelos, que agora só percorrem o rio durante as festas de S. João, encontram-se fundeados ao longo do cais. Na sombra ainda estão as caves de vinho do Porto e as ruelas antigas e íngremes que, à imagem das mais conhecidas, do lado do Porto, de tão estreitas e fechadas vêem o sol apenas algumas horas por dia.
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| De bicicleta pela Linha Azul |
O percurso da Linha Azul começa no fim deste aglomerado de casas, cafés, restaurantes e caves. Na nossa frente abre-se o rio, que parece mais largo, e a Ponte da Arrábida levanta-se muitos metros acima, ligando a mancha verde que se prolonga dos jardins do Palácio de Cristal aos centros comerciais do lado de Gaia. A estrada é estreita e acompanha todas as (muitas) curvas do Douro, mas quem caminha - e quem pesca - tem direito a um passadiço de madeira paralelo, de cada vez que a estrada é demasiado apertada para todos. Caminhamos assim sobre terra e água ao longo do rio, que se estende como uma segunda estrada lisa e verde, preenchido pelos reflexos das casas pálidas de Miragaia e o cinzento pesado do edifício da Alfândega. As gaivotas empoleiram-se nos varandins do caminho, no rio passam ocasionais barcos desportivos a remo, dirigidos pelos gritos do treinadores e acompanhados pelo grasnar das gaivotas, únicos ruídos que quebram o silêncio da água.
Passamos por baixo da ponte e entramos no reino dos pescadores: distribuem-se sobre as rochas na maré baixa, pelos muros junto ao rio e, claro, na Afurada, porto de pesca. Num quadriculado quase perfeito, as ruas partilham as casas entre o cais e a colina. Aqui o caminho dispersa-se e fazemos uma pausa para apreciar esta povoação tão castiça, a dois passos da grande cidade. A rua é de todos: é favor não tropeçar nos chinelos que muitos descalçam antes de entrar em casa. Há portas por fechar e vizinhas que conversam enquanto assam sardinhas no passeio, em fogareiros de carvão, para que o cheiro não lhes empeste o lar. À saída da localidade, também são vozes de mulher que saem do lavadouro. As roupas, postas a secar em grandes cordas esticadas por varapaus, são bandeiras de pobreza que se aliam aos barcos de pesca ali próximos.
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| Bar de praia no litoral de Gaia |
A seguir vem a parte pior do caminho, quando desaparece a “secção de peões” do percurso e temos de caminhar pela berma da estrada até à minha praia favorita: o Cabedelo. Enquanto não soube o nome da praia chamei-lhe “a praia das gaivotas”, por estas serem muitas vezes as únicas frequentadoras. É apenas uma língua de areia entre o rio e o mar, mas nunca sofre de excesso de gente. O areal faz uma ligeira rampa em direcção à linha da água, ideal para nos reclinarmos, e há até uns penedos redondos que quebram a monotonia, dando-lhe o charme de uma praia selvagem. Mas ao fundo avista-se a linha de prédios da Foz do Porto, e em breve a nova marina vai alterar a paisagem - para melhor ou pior, ainda não se sabe.
O caminho recomeça em cima com um passeio largo, frequentado por corredores, patinadores e ciclistas. Ainda uma bela vista sobre o Porto e agora também sobre o alto mar, com praias estreitinhas e pedregosas a desfilarem até ao início do grande areal de Canide. A seguir, costas voltadas ao Norte, descemos para a areia sobre um passadiço feito de traves de linha-férrea recuperadas. Ideia genial, diga-se, quando a areia está quente demais, e também porque um pé descalço não aguenta toda a quilometragem do percurso.
DO SENHOR DA PEDRA A ESPINHO
Quando chegamos a Miramar já conhecemos a parte mais agitada da costa de Gaia. É até aqui que se encontra a maior concentração de cafés e restaurantes, e também de curvas e pequenas subidas sobre as dunas, que um caminho bem delimitado nos impede de pisar selvaticamente, como acontecia antes. Na estação própria, floresce a discreta vegetação da areia, os caniços ensombram algumas passagens de ribeiros que desaguam no mar, as esplanadas estendem as suas cadeiras até ao caminho e abrem-se, como flores, dezenas de guarda-sóis coloridos. A estrada de tabuinhas faz curvas e contra-curvas, acompanhando as linhas redondas das dunas e o areal é imenso, largo e comprido, sem os recantos discretos das praias mais perto do Douro.
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| Uma das muitas praias de Vila Nova de Gaia |
Ao longe avista-se um ponto branco metido no mar, que a cada curva se vai transformando na imagem de uma pequena capela sobre um grupo de rochedos batidos pelas ondas. O nome é adequado ao sítio e a fama já vem de longe: diz-se que o Senhor da Pedra já era um altar de celebrações religiosas antes da cristianização. Como templo cristão já vai nos quatro séculos e continua a ser lugar de muitas romarias pessoais, sobretudo por parte dos pescadores, e de uma grande romaria colectiva em Maio. As ruas interiores de Miramar, com muitas casas antigas recuperadas e bordejadas por árvores que formam túneis verdes e frescos, são talvez as mais bonitas da costa.
Daqui até Espinho, a praia é própria para pensadores solitários, namorados ou todos os que desejam apenas fazer exercício ao ar livre. Terminaram as esplanadas a cada cinquenta metros e podemos ver a linha contínua e quase recta até à cidade. Ideal para correr, ou para encontrar um cantinho discreto no enorme areal branco, e ficar a ver o mar. Passamos pela Aguda e depois pela Granja, duas vilas piscatórias em cima do mar, de praias pequenas e algumas ruas onde ainda sobrevivem casas típicas da zona, pequenas e mimosas. Caminhamos ao longo do golfe já com os olhos na primeira esplanada de Espinho, junto à ponte. Mas não dizemos adeus ao mar: o comboio que nos leva de regresso a Gaia faz parte do caminho ao longo da costa, bem perto da ondas.
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| Ponte da Arrábida, unindo Porto e Gaia |
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| Vista sobre a praia de Miramar e a capela do Sr. da Pedra |
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GUIA DE VIAGENS
COMO CHEGAR A VILA NOVA DE GAIA
Vila Nova de Gaia é a margem Sul do Douro, junto ao Porto. A Ponte D. Luís, que marca o início do percurso e neste momento se encontra encerrada, tem acesso a partir da Avenida da República; basta seguir as placas que indicam “Cais de Gaia”. No fim do percurso, uma vez chegados a Espinho, resta-nos apanhar um comboio de regresso e sair no apeadeiro de General Torres, que fica muito próximo do Cais (se o cansaço for muito, a partir da praia de Miramar também é possível alcançar o apeadeiro local, muito próximo da praia, e regressar).
QUANDO CAMINHAR
Para caminhar, no Verão recomenda-se começar de manhã cedo, parar à hora de maior calor e recomeçar depois das três e meia. Ou, porque não, dividir o percurso por duas manhãs. Ainda de Verão, não é de aconselhar que se faça o percurso ao contrário (a partir de Espinho) uma vez que teríamos que caminhar de frente para a nortada que varre esta costa quase diariamente, sobretudo a partir da tarde.
HOTÉIS EM GAIA
RESTAURANTES NO LITORAL DE GAIA
A oferta é de tal maneira grande e variada, do início ao fim do percurso, que é difícil fazer uma escolha. Quase todos os cafés de praia oferecem sandes e refeições ligeiras. Apenas como exemplo, podemos citar, na Praia de Lavadores, O Castiço, que tem uma excelente salada da casa, ou o Mar à Vista, mais clássico.
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