Com os Kuna Yala em San Blás, uma experiência cheia de contradições

Por Filipe Morato Gomes
San Blás. território dos Kuna Yala
Uma das centenas de pequenas ilhas que compõem o arquipélago de San Blás. território dos Kuna Yala – ©iStock.com

Apesar de ter adorado a minha estadia no arquipélago de San Blás, há um aspeto curioso que gostaria de partilhar consigo: a convivência com os Kuna Yala, minoria étnica que domina a região.

Cheguei à Ilha Naranjo Chico ao fim da manhã. Escolhi esta ilha e não outra porque dispenso os luxos e estava em busca de uma experiência, digamos, mais autêntica, onde esperava poder contactar de forma mais próxima com a comunidade Kuna da ilha.

Na verdade, em San Blás há ilhas para todos os gostos, mas a ideia de uma ilha festeira recheada de israelitas, com música aos berros, jovens embriagados e desrespeitosos para com as tradições locais onde até já os letreiros aparecem escritos em Hebreu (não estou a exagerar) não me atraiu. Escolhi, por isso, Naranjo Chico.

Ao lado das Cabanas Ina, onde me alojei, fica uma pequena aldeia habitada por pessoas Kuna Yala. São apenas uma dúzia de cabanas, porque a maioria da população vive efetivamente numa ilha densamente povoada a poucos minutos de distância de barco de Naranjo Chico.

Na busca desse contacto com os Kuna Yala, caminhei muito pela ilha. Cruzei a aldeia inúmeras vezes, perante a total indiferença das mulheres que teciam, cozinhavam, descansavam nas redes ou brincavam com os filhotes pequenos, e nem as crianças demonstravam a menor intenção de querer interagir com o forasteiro. Caminhava lentamente, cumprimentava as pessoas, acenava e sorria e… nada!

Era uma sensação muito estranha, sentir a indiferença total e até uma quase hostilidade dos “donos das terras” que eu, turista, estava a pisar.

Mulher da etnia Kuna Yala, San Blás
Mulher da etnia Kuna Yala, San Blás – © iStock.com (eu não consegui fotografar os Kuna)

Certa vez, fui um pouco mais longe na abordagem. Estavam quatro ou cinco miúdos sentados no chão, com folhas de papel e uns marcadores, a pintar. Sentei-me com eles e tentei interagir, mas rapidamente me senti uma companhia indesejada pelos olhares e gestos dos miúdos, ao ponto de ter sido ostensivamente convidado a sair dali por uma criança que não teria mais de seis anos.

Triste, muito triste, levantei-me e fui-me embora.

Bem sei que os Kuna Yala mantêm uma “distância de segurança” em relação ao meio exterior e, provavelmente, é isso que lhes permite, ainda hoje, manter o seu estilo de vida – e o seu território – quase intacto. Mas ser indesejado por miúdos de tenra idade confesso que ultrapassou o que eu estava preparado para aceitar.

No dia seguinte, peguei no meu caderno e fui desenhar. Sentei-me no areal a desenhar um mola, o tecido que as mulheres Kuna usam à cintura. O tecido estava pendurado numa corda junto às cabanas, em “exposição”, para o caso de algum dos cinco turistas que estavam na ilha se interessassem por comprar. E foi então que a magia aconteceu!

Algum tempo depois de começar o desenho, apareceu um dos miúdos da aldeia. Mostrei-lhe o sketch que estava fazer e passei-lhe o caderno para as mãos para que visse os outros desenhos. Pareceu-me surpreendido; e feliz.

Aos poucos, outros miúdos foram chegando e não tardou muito até ter à minha volta as mesmas crianças Kuna Yala do dia anterior. Estavam sorridentes, encavalitavam-se nos meus ombros, e ficaram a observar à medida que ia colorindo o desenho, apontando para uma árvore, uma cabana, outro mola, como que dizendo: “desenha isto”, “desenha aquilo”. Uma vez mais, o desenho a desempenhar um papel determinante na aproximação das pessoas – foi exatamente por isto que comecei a tentar as artes do urban sketching.

Este episódio não mudou a opinião com que fiquei dos Kuna Yala – um povo conscientemente fechado -, mas pelo menos acrescentou uns sorrisos à experiência de visitar San Blás. Que, já agora, com maior ou menos interação com os Kuna, é um destino absolutamente belo e fascinante.

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Filipe Morato Gomes

Filipe Morato Gomes

Autor do blog de viagens Alma de Viajante e fundador da ABVP - Associação de Bloggers de Viagem Portugueses, já deu duas voltas ao mundo - uma das quais em família -, fez centenas de viagens independentes e tem, por tudo isso, muita experiência de viagem acumulada. Gosta de pessoas, vinho tinto e açaí.