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Viagens Bruxelas, Bélgica
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Bruxelas

Para lá da Gran Place e do Grand Sablon, há imensos roteiros turísticos possíveis para conhecer uma Bruxelas alternativa - da arte nova à banda desenhada -, verdadeiro labirinto policromático de povos e culturas. Se o viajante se permitir, a capital da Bélgica vai com certeza surpreendê-lo. Relato de uma viagem a Bruxelas e suas janelas abertas para a diversidade do mundo.

Por Humberto Lopes | 11.Nov.2008



BRUXELAS, A CIDADE NO SEU LABIRINTO

Há uns anos atrás, o jornal Le Soir publicava uma notícia curiosa e até um tanto excêntrica se pensarmos nas realidades que marcam a vida nas nossas cidades: os habitantes de um pequeno bairro de Bruxelas - Rempart des Moines - tomaram a decisão de estudar e meter mãos à obra na remodelação da Rue du Vieux Marché aux Grains. Liquidação do estacionamento selvagem, condicionamento da circulação automóvel, implantação uma dúzia de plátanos, redimensionamento da praça contígua, de tudo isto se tornou possível, não sem uma série de diligências contra as burocracias institucionalizadas.

Visitar Bruxelas: Grand Place, uma das mais belas praças europeias
A Grand Place, uma das mais belas praças europeias

A iniciativa dos munícipes terá frutificado e noutras zonas da cidade projectaram-se igualmente intervenções sob mesmo espírito, o da participação dos cidadãos na solução dos problemas que afectam a sua vida quotidiana. Esse foi, significativamente, um dos aspectos considerados centrais quando Bruxelas foi capital europeia da cultura em 2000. Falou-se então nessa cultura, na importância da “participação dos habitantes na vida da cidade, assim como do estimulação do sentido cívico e da acção colectiva”, num quadro em que a vida citadina, na pólis, assenta não apenas na interacção dos cidadãos com estruturas físicas, urbanísticas, mas igualmente em redes culturais e no exercício de sociabilidades diversas.

Bruxelas não é apenas a Grand Place, o Grand Sablon, a Galeria St. Hubert, a gastronómica Rue des Bouchers e mais uns quantos lugares que os turistas percorrem mecanicamente em romarias previamente agendadas. O Manneken Pis pode continuar a simular excentricidades ou irreverências para gáudio de turistas concêntricos, mas a ubíqua alma de Bruxelas vive algures noutros territórios e em muitas vivências que se entrecruzam no labirinto de uma cidade multicultural - essa Bruxelas popular, a cidade dos quartiers e dos bairros ciosos da sua identidade. A Bruxelas verde dos parques e jardins, a Bruxelas da art nouveau, a Bruxelas da água dos canais, etc., etc., imagens que não são apenas imagens - são elementos constituintes de uma geografia urbana menos exposta.

Bruxelas - circuito dos painéis de BD
Percorrendo o circuito dos painéis de BD, Bruxelas

Muitos dos signos da belgitude marcam presença, no entanto, à volta da ribalta da Grande Place, desde os famosos bombons até à BD, cujo museu está situado a pouco mais de dez minutos de caminhada, na Rue des Sables. Bruxelas é também nomeada, com toda a justiça, como a capital da BD, matéria ampla para um percurso temático que pode começar precisamente no Centre Belge de la Bande Dessinée (CBBD), que conserva um grande número de pranchas e edições originais, e continuar ao ar livre seguindo a pista dos painéis pintados nas paredes que mostram alguns dos mais populares heróis das histórias aos quadradinhos belgas. O itinerário deu os primeiros passos em 1991, por iniciativa de Michel Van Roye e do CBBD, tendo os painéis sido executados pela Associação Art Mural. Uma excepção à lista de murais pintados, que pode ser obtida no CBBD, é uma estátua do Agente 15, de Hergé, em queda aparatosa na Sainctelette, perto da Basílica de Koekelberg. A casa natal de Hergé, no nº 33 da Rue Philippe Baucq, em Etterbeek, é outro pólo de atracção para os amantes da BD, que encontrarão nas proximidades, no Chaussée de Wavre (número 179) uma das melhores livrarias especializadas no género, a La Bande des Six Nez. A BDMania (Chaussée de Waterloo 169) e a Atomic Comics (Place Lambert 14) são igualmente dois bons endereços. Esta peregrinação sob o signo da BD não pode falhar também alguns bares e restaurantes temáticos como o Yellow Kid Café (Rue de la Regence 13), o Comic Strip (Rue des Eperonniers 61), que além da biblioteca e sala de leitura ofcerece ainda aos seus frequentadores sessões regulares de cinema de animação, e o Le Flora (Chaussé d'Ixelles), decorado integralmente com temas do imaginário da BD.



VIDAS PARALELAS EM BRUXELAS

Os trezentos mil estrangeiros (cerca de um quarto da população) que vivem na cidade repartem-se um pouco por toda a parte. Ouvir falar português na zona de Chaussé d'Ixelles é uma banalidade. À volta da Place Flagey não faltam restaurantes, cafés e associações e mercearias lusitanas, e até uma igreja onde ao domingo a missa é celebrada na língua de Camões. Já a família dos italianos aparece mais dispersa, mas a Rue Franklin, perto do Rond-Point Schuman, representa sem dúvida uma das coordenadas onde estão bem representados. Quanto à cultura magrebina, o mapa de Bruxelas afina por essa tonalidade aí por Saint-Josse e Schaerbeek, não esquecendo a zona do Midi e mesmo Marolles, a dois passos do Boulevard Anspach e da Grand Place. Quanto a culturas africanas, Junho é uma boa ocasião para visitar Bruxelas, quando o Chez Tourset Taxi, uma antiga gare de mercadorias acolhe um festival de música justamente designado por Couleur Café. Nas Halles de Schaerbeek, um belo edifício industrial em ferro e vidro do séc. XIX restaurado, são frequentes também, ao longo do ano, espectáculos dedicados às culturas não-europeias representadas no multifacetado corpo social de Bruxelas.

Viagem Bruxelas
Bruxelas

Na verdade, não é necessário afastarmo-nos muito da Grand Place para um contacto com o caleidoscópio multicultural de Bruxelas. Na zona central da cidade, muitos signos de culturas não-europeias (enunciação que começa a deixar de faz sentido, na verdade) convivem numa espécie de antecipação futurista com as mais paradigmáticas expressões da belgitude. Na Rue des Bouchers pode imperar o prato típico de Bruxelas, as moules (mexilhões com batatas fritas), mas nas ruelas da zona não faltam restaurantes que nos permitem desenhar um mapa-mundo com as mais variadas gastronomias, grega, chinesa, marroquina, libanesa, indiana, turca, italiana, vietnamita, etc. Na Rue Grande Ville, por exemplo, espera-nos uma antiga oficina (com alguns dos velhos equipamentos suspensos sobre as cabeças dos comensais!) transformada em restaurante especializado na gastronomia do leste europeu, russa, polaca, húngara - chama-se Les Ateliers de Grande Ville e fica no número 31. Outra razão para não recusar a visita é a orquestra que acompanha habitualmente as paparocas nocturnas.

Menos badalado nos roteiros turísticos, mas memória de uma Bruxelas novecentista é o Teatro de Toone, o único sobrevivente entre as mais de quarenta salas do género que no século XIX terão existido na capital belga. Há sete gerações propriedade da mesma família de artistas, o teatro fica no beco Schuddeveld, junto à Rue des Bouchers, e é um bom testemunho da cultura popular de Bruxelas. Além de um espaço de convívio, tem um museu que reúne cerca de mil e duzentas marionetas e conta no seu currículo com a milhares de representações, incluindo duas das mais conhecidas peças de Sahkespeare, Othelo e Macbeth.

Brueghel, Magritte, Victor Horta, nomes que há muito os roteiros turísticos e culturais de Bruxelas repetem religiosamente, ao lado das referências às mais de trezentas e cinquenta marcas de cerveja belgas, às brasseries históricas como La Mort Subite, A la Bécasse, La Fleur en Papier Doré e A l'Imaisge de Nostre Dame, aos espaços verdes dos belos parques do Bois de la Cambre, de Tervuren, de Josaphat ou da Fôret des Soignes, ou aos circuitos de Arte Nova. Mas estas são só algumas cores do labirinto policromático de Bruxelas. Na capital da Bélgica, o viajante pode sempre contar com uma miríade de janelas abertas para a grande diversidade do mundo.


Atomium, símbolo da Exposição Universal de 1958 em Bruxelas
O Atomium, símbolo da Exposição Universal de 1958 em Bruxelas
Viagem a Bruxelas, Bélgica
Parque do Centenário, Bruxelas


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