
Já passou um mês, 30 dias consecutivos na estrada, a viajar juntos, a dormir juntos, a comer, a brincar e a aprender, sempre juntos. Houve surpresas (já lhe caiu um dente de leite, e nós achávamos que tal só aconteceria lá para os seis anos), houve algumas angústias inesperadas (sobretudo quando ficou doente, e uma estomatite a impediu de comer durante mais de três dias), mas sobretudo tem havido partilha e felicidade, muita felicidade, pelas descobertas que vamos fazemos em conjunto.
Sabíamos que tinha tudo para ser fácil; era como se pudéssemos prolongar a sensação de “estar de férias”, durante muito tempo. Tínhamos feito muitas pesquisas, ainda assim apenas as suficientes e necessárias para haver margem para nos surpreendermos. Para aprendermos em conjunto; para partilharmos as descobertas. Viajar é isso; e é, assumidamente, aquilo que nós, pais, gostamos de fazer.
A estreante Pikitim ainda não sabia se gostava ou não de viajar, mas já sabia que gosta de estar com os pais – e muito. De repente, já passou um mês de estrada e esta pequena grande aventura já nos levou a três países diferentes. Já podemos fazer um balanço, ainda que curto. Se está a ser como esperávamos? Está a ser melhor.
Nos três países por que já passámos (Singapura, Tailândia e Malásia) encontrámos muitas diferenças entre si, e ainda diferenças assinaláveis em relação à cultura em que crescemos. A Pikitim vai anotando essa diversidade. Repara que uns comem com pauzinhos, outros com as mãos; pergunta porque há meninas que andam na praia todas tapadas, sempre com lenços na cabeça; nota que há senhoras que usam “vestidos lindos e uma pinta na testa”. E tudo encara com naturalidade. Aceitar a diversidade também é isso – questionar, sem pôr em causa.
O gosto por conhecer e por viajar também está, aparentemente, a ficar enraizado. Há um mês fora da sua “zona de conforto”, nunca a Pikitim pediu para voltar para casa – nem mesmo quanto esteve doente. Diz que andamos a fazer como o Tom Saywer, “a descobrir o mundo e a viver aventuras”, e até já antecipou que quando for mais crescida vai ter uma trabalheira a fazer e a carregar malas (algo que agora delega nos pais), desde já assumindo que viajar é algo que quer continuar a fazer.
A naturalidade com que encara as deslocações entre os vários destinos, e a curiosidade que demonstra sobre onde será e como vai ser a casa seguinte é algo que nos chega a surpreender. Chama sempre casa ao teto que nos abriga, e parece fazê-lo no duplo sentido. Mal chega a um novo sítio gosta de arranjar um espaço para arrumar as suas coisas – os livros, os cadernos, as Polly Pocket, a Barbie, o mp3. Habituada a um quarto repleto de brinquedos e a prateleiras cheias de livros, esta míngua de variedade ainda não a incomodou. Só por uma vez referiu que poderia ter trazido “as canetas de pintar na pele”, porque “seria divertido fazermos tatuagens uns aos outros e cabiam na mochila”. Das várias casas em que estivemos, apenas três tinham televisão. Nunca pediu para as ligar.

É quase incrível como a Pikitim deixou de pedir para comprar coisas, algo que fazia com insistência em Portugal. Talvez porque saiba que, para alguma coisa extra entrar na sua mochila, terá de lá tirar outra. A exceção ocorreu com umas havaianas de salto alto (sim, é verdade!). “Ó mãe, são mesmo o meu número! Porque não posso levá-las?”, insistiu com umas enfiadas nos pés.
Foi num mercado noturno em Langkawi, na Malásia, onde ela e a primeira amiguinha a sério que fez nesta viagem – a Margarida, de Peniche – se divertiram a experimentar calçado e a espreitar a roupa (são meninas, e vaidosas, está visto!) mas, sobretudo, se deliciaram a ver tanta comida diferente. Como o fruto “que cheira a chulé”, o durian, ou o arroz embrulhado em folhas de bananeira e molhos de muitas cores.
Em termos de socialização, o período em Langkawi foi talvez o ponto alto da viagem até ao momento. Porque não havia qualquer barreira de comunicação e as afinidades entre as amigas eram muitas. Têm quase a mesma idade e gostam das mesmas coisas: de bonecas, de desenhar, de brincar ao faz de conta. Até então, a Pikitim interagiu com muitos meninos – e chegava a ser engraçada a forma como, não sabendo a língua, se punha a fazer gestos; a verdade é que conseguiu quase sempre fazer-se entender. Mas nunca lhe foi tão fácil brincar com alguém como com a Margarida; e também por isso experimentou a tristeza da separação depois de quatro dias inteiros, sempre juntas.
Nos dias em que brincou com a Margarida, a mãe e o pai tiveram descanso e nunca mais foram “requisitados” para brincar com as Polly Pocket ou para jogar Geofamily – um jogo de cartas em que a Pikitim se especializou. Porque até então, essas “requisições” eram frequentes e intensas, o que obriga a que um dos pais esteja sempre disponível, mesmo que não apeteça ou tenha outros planos.
A questão da socialização é, para já, a única que não está a decorrer dentro das nossas expectativas de pais – o que não quer dizer que esteja a correr mal. Tínhamos quase a certeza de que a Pikitim haveria de querer falar muitas vezes com os primos e os amigos, para contar as aventuras e partilhar as descobertas. Mas nunca quer falar. Pior, se o Skype está ligado, e do outro lado estão os amiguinhos da escola, diz que “ainda não está preparada” e que “não quer falar”, e esconde-se atrás do monitor.

E se não quer falar com os que ficaram em Portugal, também não está ainda solta para tentar interagir com os que a abordam nos países por que passamos. “Então, Pikitim, o Sr. Oom deu-te um chocolate, e tu não lhe dizes obrigada? Nem em português?”, chegámos a repreendê-la, depois de um gesto simpático. Primeiro respondeu que “tinha vergonha”, depois replicou que não tinha sido mal-educada, porque lhe tinha dado “um sorriso”.
Outro aspeto que não era inesperado, mas que aconteceu muito cedo na viagem, foi o facto de a Pikitim ter ficado doente. Depois de uma semana de angústias intermitentes e três dias de desespero – ainda é a melhor palavra que encontro para a sensação de ver um filho sem conseguir comer -, o balanço foi feito pelo pediatra : “foi uma pequena intercorrência chata mas sem grande importância … no Porto também há estomatites víricas”.
Já passaram 30 dias, a viajar juntos, a dormir juntos (às vezes até na mesma cama!), a comer, a brincar e a aprender, sempre juntos. E quase não demos por ela. Venham mais 300.
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Sobre o Diário da Pikitim
Este post pertence a uma série que relata uma volta ao mundo em família, com 10 meses de duração. Um projeto para descomplicar e mostrar que é possível viajar com crianças pequenas, por todo o mundo. As crónicas da viagem foram originalmente publicadas na revista Fugas e no blog Diário da Pikitim.
Veja também o artigo intitulado Viajar com crianças: 7 coisas que os pais devem saber.