Está a pensar visitar a a tabanca Elalab, na Guiné-Bissau? Pois bem, recentemente tive oportunidade de viajar até à região de Varela, bem perto da fronteira com o Senegal, e posso garantir que Elalab foi um dos destinos que mais me impressionou em todo o país.
Trata-se de uma típica tabanca guineense, uma aldeia muito simples com casas construídas com materiais extraídos da terra e habitados por uma população afável e trabalhadora. É para mim um prazer partilhar a minha visita à tabanca Elalab, na esperança de que possa motivar outros viajantes a conhecerem a comunidade e usufruírem do projeto de ecoturismo construído na aldeia por uma dupla de arquitetos portugueses. Já lá iremos.
Por agora, eis o relato da minha experiência em Elalab, incluindo a viagem de moto de Varela para Susana e depois de barco até Elalab – e o tempo passado na tabanca. Vamos a isso.
Visitar a tabanca Elalab
A viagem de Varela até Elalab
Eram 9:30 da manhã quando, à porta da pousada Casa Aberta KasumayaKu, subi numa mota que me levaria da aldeia de Varela até aos arrabaldes de Susana. O horário tinha sido previamente acordado em função das marés – tinha estar no braço de rio perto de Susana às 10:00, para embarcar de imediato rumo à tabanca Elalab.
E assim, chegado ao ponto combinado junto ao manguezal, esperei uns minutos e logo apareceu um barco de madeira conduzido por Fernando, um pescador da comunidade de Elalab. A tabanca Elalab é remota e encontra-se rodeada por braços de água, imensos arrozais e extensos manguezais, pelo que a viagem de barco foi, em si mesma, um deleite visual, com o rio a serpentear a paisagem pintada de verde em ambas as margens.
Estava tão absorto com a paisagem que não sei ao certo quanto tempo demorou a viagem de barco para Elalab; mas creio que talvez meia hora. O sol estava abrasador, mas nem isso tornou a viagem menos agradável. Primeiro, navegando por estreitos braços de rio rodeados de manguezais; depois, pelo leito do Rio Defename, em cuja margem fica a tabanca Elalab.
Fui absorvendo todo aquele ambiente ancestral e, quando por fim lá chegámos, já Lucas estava à minha espera junto ao rio. Seria ele o meu simpático cicerone nas próximas horas, responsável por me mostrar a tabanca e explicar o funcionamento da comunidade.
Elalab, a minha experiência
Lucas levou-me então a conhecer a tabanca Elalab, que se viria a revelar uma aldeia muito maior do que eu imaginara. Deixando o barco para trás, passámos junto à casa de Sicadjeo, o habitante mais velho de Elalab, que fez questão que o fotografasse com o seu neto ao colo. “Deve ter mais de 100 anos!”, garantiu Lucas.
Não sabendo eu falar crioulo, Lucas ia tentando mediar as conversas, à medida que me cruzava com mais habitantes de Elalab. As pessoas eram todas muito afáveis, e nem por um momento senti qualquer ambiente hostil. Pelo contrário, senti-me sempre muito bem-vindo na tabanca Elalab. E isso é meio caminho andado para uma experiência memorável…
Passámos então junto à escola, e Lucas fez questão de me apresentar ao diretor e aos outros três professores que davam aulas às crianças de Elalab. Queria incomodar o mínimo possível, mas um dos professores convidou-me a entrar e não poderia recusar a oportunidade.
Era uma aula de matemática. O sumário, escrito a giz no quadro de lousa, dizia: “Continuação da aula anterior. Escreve os números de 0 a 20”. A curiosidade das crianças era imensa, com alguns sorrisos e os olhos arregalados na minha direção. Rapidamente senti que a minha presença estava a desestabilizar a aula, pelo que me retirei respeitosamente.
Continuámos a percorrer a aldeia e, pouco depois da escola, passámos na igreja. Perguntei a Lucas se era possível visitar a igreja por dentro, pedido a que ele acedeu sem pestanejar. Entrámos. Era uma igreja simples mas surpreendentemente bem cuidada, com bancos de madeira, uma única cruz com uma imagem de Cristo, ao fundo, e tambores junto às janelas. “Há música durante a missa?”, inquiri. “Claro”, respondeu Lucas, enquanto demonstrava a sua destreza nos tambores.
Não muito longe da igreja, Lucas levou-me para uma sombra e apontou para um baobab (embondeiro) de grande porte, adiante. Indicou que se tratava de uma árvore sagrada para a aldeia, debaixo da qual os aldeões se reunem para tomar decisões importantes para a comunidade, incluindo questões de justiça.
Havia vacas, galinhas e cabras. Muitas crianças e jovens mulheres. A tabanca parecia fervilhar de vida – uma enorme surpresa para quem imaginava uma aldeia com meia dúzia de cubatas. E eu estava verdadeiramente feliz por ali estar.
Já bem perto das últimas casas da tabanca, nova revelação. Fiquei a saber que uma aglomeração de cabanas lá ao fundo era, na verdade, o local onde “os homens vivem durante três meses” por altura da circuncisão masculina, evento que ocorre “uma vez a cada trinta anos” – a última das quais foi em 2001, confidenciou-me. Vi ao longe, já que não me era permitido aproximar.
Ainda parámos junto a um cajueiro para provar o fruto diretamente da árvore, fui ver “tapetes” de arroz a secar ao sol e, com a ajuda de Lucas, tentei comunicar com os moradores da tabanca – sempre curiosos com a minha presença.
Por fim, fui conhecer o projeto de ecoturismo criado por dois arquitetos portugueses com materiais locais, que tem tudo para contribuir para um futuro mais próspero para os habitantes da tabanca Elalab [ver abaixo]. E por ali fiquei, protegido do sol e à espera do almoço.
Depois de uma refeição muito simples, composta por produtos locais (arroz, peixe e alguns legumes) e que degustei numa das cabanas para o turismo, fui-me deixando estar até serem horas de regressar a Varela. Estava muito calor para empreender a viagem de regresso, mas Mário – um dos líderes da comunidade – indicou que era melhor ir embora mais cedo por causa das marés. Por essa razão, acabei por ficar menos tempo em Elalab do que gostaria. Mas já tinha valido a pena!
Enquanto me afastava da tabanca Elalab no barco de Fernando, só me ocorria pensar que é exatamente para momentos destes que eu viajo. Visitar Elalab foi, com toda a certeza, um dos dias mais marcantes do meu roteiro na Guiné-Bissau.
Ecoturismo na tabanca Elalab
Entre 2014 e 2016, uma dupla de arquitetos portugueses do colectivoMEL pôs de pé um projeto de ecoturismo para albergar turistas no meio da tabanca. São três casas circulares com capacidade para oito pessoas, construídas com materiais e técnicas tradicionais e que permitem uma experiência imersiva no seio da comunidade de Elalab.
Ficar lá hospedado é uma excelente forma de, por um lado, vivenciar com maior intensidade a vida numa tabanca tradicional guineense; e, por outro, contribuir para a precária economia da comunidade. Honestamente, creio ser um projeto com impacto muito positivo. Fiquei com vontade de experimentar.
Mais fotos de Elalab
Dicas para visitar a tabanca Elalab
Como organizar a visita
A tabanca Elalab é uma pequena comunidade que apenas recentemente abriu as portas ao turismo. Para mim, foi uma experiência extraordinária, e só tive pena de não ficar a dormir na comunidade. Mas tenho a perfeita noção de que não é um destino para toda a gente. É preciso gostar de uma existência simples abdicar de alguns confortos tidos como garantidos (como água corrente, por exemplo).
Dito isto, caso queira visitar Elabab, a melhor forma de organizar tudo é falar com a Valentina (caso fique hospedado na pousada Casa Aberta KasumayaKu, em Varela) ou tratar tudo diretamente com Mário, um membro da comunidade. Neste último caso, use o WhatsApp +245 966673443.
Quanto a custos, tive de pagar o transporte de mota entre Varela e Susana (7.000 XOF, ida e volta); a viagem de barco até à tabanca Elalab (30.000 XOF pelo transporte barco, ida e volta, para até 10-12 pessoas); o serviço do guia local em Elalab (5.000 XOF) e ainda o almoço na tabanca (2.500 XOF).
Tudo somado, gastei cerca de 45.000 XOF, o que não é barato. Mas, se tivesse viajado com mais gente o custo do transporte e guia (por pessoa) seria naturalmente menor.
Como chegar a Elalab
Não há transportes públicos para chegar a Elalab. A comunidade é muito isolada e a melhor forma de lá chegar é de barco. Disseram-me que também é possível chegar de mota a partir de Varela, passando pelos belíssimos arrozais, mas não comprovei essa informação (eu fui e regressei de barco).
Ou seja, para organizar a viagem terá mesmo de recorrer aos contactos locais fornecidos acima.
Onde ficar
Se preferir apenas visitar Elalab mas não ficar a dormir na tabanca, considere pernoitar em Varela. Nesse caso, recomendo a magnífica pousada Casa Aberta KasumayaKu, gerida pela filha Valentina e pelo pai Frank, ambos de origem italiana. Os bungalows são excelentes, os anfitriões são muito afáveis e a comida é muito boa. Para reservar, fale com a Valentina pelo WhatsApp +245 6640180, uma vez que é atualmente impossível reservar online.
Caso opte por pernoitar na tabanca Elalab, uma noite custa em torno de 5.000 XOF por pessoa, sem contar com as refeições. Para tal, combine com a Valentina em Varela ou diretamente com o já referido Mário, habitante de Elalab.
Seguro de viagem
A IATI Seguros tem um excelente seguro de viagem, que cobre COVID-19, não tem limite de idade e permite seguros multiviagem (incluindo viagens de longa duração) para qualquer destino do mundo. Para mim, são atualmente os melhores e mais completos seguros de viagem do mercado. Eu recomendo o IATI Estrela, que é o seguro que costumo fazer nas minhas viagens.
Muito obrigado pela visita a Varela.
Parabéns pela brilhante descrição de Elabab. Já estive nesta aldeia e noutras próximas (Djufunco, Essor…) em trabalho de consultoria para o VIDA ONG, um estudo sobre cadeia de valor de tomate e, apesar de ser guineense, senti a mesma sensação e curiosidade sobre a vida destes aldeões. Parabéns aos senhores arquitectos pela iniciativa.
Parabéns pela viagem e descrição do nosso amado país.