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Royal Hotel em Pilgrims Rest, África do Sul
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VIAGENS ÁFRICA » ÁFRICA DO SUL » PILGRIM'S REST

Pilgrim's Rest, África do Sul

Próxima do afamado Kruger Park, na África do Sul, a antiga cidade mineira de Pilgrim's Rest transformou-se num museu vivo, logo depois do encerramento das minas de ouro, há cerca de trinta anos. O cenário é o de um povoado típico da época das loucas corridas dos garimpeiros em busca do precioso metal.

Por Humberto Lopes

Onde fica Pilgrim's Rest [Google Earth]?



O OURO NÃO É ETERNO EM PILGRIM'S REST

Transvaal, 1873. Ou algum tempo antes. Um certo Alec “Weelbarrow” Patterson, garimpeiro profissional, partia para o vale de Pilgrim's Rest em busca de jazidas de ouro. A fortuna sorriu-lhe, mas o segredo da descoberta não durou muito tempo. William Trafford, seu concorrente, seguiu-lhe as pisadas e confirmou a existência no local de importantes filões auríferos.

Pilgrim's Rest, museu vivo na África do Sul
Pilgrim's Rest, museu vivo na África do Sul

Começava então a primeira grande corrida do ouro na África do Sul, com uma dimensão menor do que a sua congénere californiana, mas mesmo assim suficientemente significativa para arrastar vagas de exploradores para a região. O local foi declarado oficialmente campo aurífero em 22 de Setembro de 1873 e no final desse mesmo ano contavam-se 1.500 pesquisadores de ouro ocupados em cerca de 4.000 concessões.

A pequena povoação de Pilgrim's Rest transformou-se no centro social dos garimpeiros e no final do século, em 1895, várias pequenas explorações acabaram por se fundir na companhia Transvaal Gold Mining Estate. Entre 1930 e 1950, ainda se extraíam cerca de 300.000 toneladas de minério por ano das minas de Pilgrim's Rest, mas nos anos seguintes essa quantidade caiu para um sexto devido à crescente perda de qualidade do minério, à instabilidade dos solos, à falta de mão de obra e às inundações.

Em 1972, a Transvaal Gold Mining Estate encerrava a última mina em exploração. O futuro da povoação tomava outro rumo e Pilgrim's Rest converteu-se numa espécie de museu vivo. A administração provincial procedeu ao restauro da totalidade dos edifícios - construídos em madeira e zinco - e concessionou a exploração de diversas actividades a entidades privadas. As ruas, os estabelecimentos comerciais, as lojas de antiguidades, os hotéis e os museus tornaram-se testemunhos “vivos” daquela época dourada do povoado. É este cenário reconstituído de uma cidade do tempo da corrida ao ouro que atrai mais de um milhão de visitantes por ano a Pilgrim's Rest, onde o que os espera é uma autêntica viagem no tempo.



ROYAL HOTEL

Não há forma de ignorar o Royal Hotel, um justificado ex-líbris da cidade - a maioria dos alojamentos disponíveis exibe um cartaz com a informação “Royal Hotel Annex”. Mantêm todos, tal como a “sede” e a grande maioria dos edifícios da cidade, as características arquitectónicas originais: casas térreas em madeira e telhados de zinco, pintadas com cores vivas.

Bar do Royal Hotel em Pilgrim's Rest
Bar do Royal Hotel em Pilgrim's Rest

O Royal Hotel foi fundado em 1871 e tem a idade de Pilgrim's Rest. A viagem no tempo tem início com ventos de feição nesta encantadora pousada, recentemente redecorada com uma tónica vitoriana matizada por alguns anacronismos, como objectos dos roaring twenties ou das duas décadas seguintes. Aí lanço âncora, numa noite fria - a cidade está a 1.300 metros de altitude -, depois de uma viagem pela região do Sabié, entre gargantas, cascatas, laranjais e os bananais.

Da sala da recepção, onde se ouvem, em surdina, os vibratos de Billie Holliday, encaminho-me para o pátio em volta do qual se dispõem os aposentos dos hóspedes - 11 quartos que parecem saídos do cenário de uma produção cinematográfica. O telefone é objecto interdito na estância, podendo, embora, ser solicitado à recepção pelos hóspedes mais obcecados pela comunicação. A razão da ausência de tal “moderno” artefacto explica-se, nem mais nem menos, pela coerência cenográfica: “due to aesthetics, they are not standard in the rooms”.

A banheira arcaica, meio dissimulada por um reposteiro florido, convida a um prolongado banho de imersão. E a viagem no tempo porfia ainda neste intervalo relaxante com a leitura de um fac-símile parcial de duas edições do «The Pilgrim's Herald» de 1949 e 1956 oferecido aos hóspedes. Uma delas transcreve uma notícia de 29 de Abril de 1916 que esclarece o leitor sobre a conclusão do palacete residencial do primeiro administrador-mor do centro mineiro, Mr. Richard Barry: “Reflecting a simplicity, Alanglade is truly a modern home, boasting electricity, hot running water, flushing toilets and even a bathroom attached to Mrs Barry's suite of rooms!”.

O bar do Royal Hotel tem também uma história curiosíssima que dá sublime conta de como todo o mundo é composto de eterna mudança. A estrutura, acoplada ao edifício principal e com acesso por uma entrada independente, tem uma forma que sugere bem as suas anteriores funções. Outrora uma capela na capital moçambicana, veio há umas boas décadas para Pilgrim's Rest, onde foi de novo montada, peça a peça. Ironicamente, a primeira das humorísticas regras de permanência no bar advertem o cliente: “No talk of religion or politics”.



DEPOIS DA QUIMERA DO OURO NA ÁFRICA DO SUL

Fachada do Royal Hotel
Fachada do Royal Hotel

Pilgrim's Rest fica situado na província de Mpumalanga, no nordeste da África do Sul, 360 km a leste de Joanesburgo e a pouco mais de uma centena de quilómetros da fronteira moçambicana. Tem actualmente mais de dois milhares de habitantes, contando com os arrabaldes, e o turismo constitui a principal fonte de recursos da população. A pesca, os passeios a cavalo, os percursos de trekking, experiências de garimpo ou incursões às lojas e aos museus são os principais atractivos do povoado, cujo centro histórico se resume a três ou quatro ruas ao longo do estreito vale. Num dos extremos da povoação, a sul, fica o complexo de tratamento do minério, uma gigantesca estrutura isolada por uma cerca de arame farpado.

Atravessar as portas das lojas e dos pequenos armazéns que se alinham ao longo da rua principal significa recuar algumas décadas ou até mesmo um século. Em algumas vendem-se realmente antiguidades, outras há em que as “velharias” se confundem com o cenário e são mesmo o cenário. Na verdade, estamos perante verdadeiros museus - como a “Dredzen Shop”, que representa um armazém típico dos anos trinta e quarenta do século passado. Uma outra casa faz as vezes - e é, aliás, essa a sua designação oficial - de museu da habitação. É uma residência de 1913 restaurada em 1976 e mobilada rigorosamente para mostrar como era uma casa da classe média no início do séc. XX e as características dominantes da decoração de interiores e do mobiliário do final da época vitoriana. Por sua vez, o Museu da Imprensa evoca a publicação em Pilgrim's Rest de dois jornais, o «Gold News», fundado em 1874, e o «Pilgim's Rest and Sabie News», cuja primeira edição surgiu em 1910.

Vista do Royal Hotel
Vista do Royal Hotel

Um dos espaços museológicos mais interessantes é precisamente o que narra a saga dos mineiros na região, mostrando, ao mesmo tempo, um acervo de utensílios e equipamentos utilizados na actividade. É, naturalmente, uma história bem menos colorida e festiva que o fisionomia da cidade na actualidade, que tanto encanta os turistas. Não existiam, então, cuidados médicos adequados - o hospital não passava de uma tenda improvisada - e os mineiros constituíam uma força de trabalho explorada até ao tutano, numa lógica (desumana, mas “eficaz”) tão familiar a tantas economias, geografias e épocas, e que nos tempos que correm reaparece reforçada no sisudo discurso de certos e “prestigiados” economistas e instituições como panaceia de males vários.

Enquanto o ouro se evaporava num circuito transcendente, justificado e explicado, certamente, pelos economistas de serviço, os mineiros consumiam o seu magro salário nas onze cantinas que em Pilgrim's Rest lhes eram oferecidas como forma superior de entertainment. Agora, o ouro deixou de correr das entranhas da terra e o que parecia eterno transmutou-se em cascalho e pó estéril. E é a memória desse tempo, revista e amansada, que mantém, afinal, a bela cidade de Pilgrim's Rest nas rotas turísticas da África do Sul.



África do Sul
Letreiro publicitário em Pilgrim's Rest, África do Sul
Meio de transporte novecentista em Pilgrim's Rest, África do Sul
Meio de transporte novecentista em Pilgrim's Rest, África do Sul


GUIA DE VIAGENS


COMO CHEGAR A PILGRIM'S REST, ÁFRICA DO SUL

Pilgrim's Rest fica a cerca de 120 km da fronteira moçambicana e a 350 de Joanesburgo e Pretória. A TAP é uma das companhias com voos para Joanesburgo e Maputo, cidade que constitui actualmente a melhor porta de entrada para esta região sul-africana - a capital de Moçambique está ligada à fronteira por uma nova estrada que permite fazer o trajecto em cerca de uma hora.


HOTÉIS EM PILGRIM'S REST

Em Pilgirm's Rest, o Royal Hotel (Main Street, Pilgrim's Rest) é, sem dúvida, o hotel com mais carisma.


INFORMAÇÕES

Em Maputo, a SET Tours organiza programas para Pilgrim's Rest, e também para o vizinho Kruger Park.




LINKS ÚTEIS

» Site Oficial do Turismo da África do Sul


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» Kruger Park
» Pilgrim's Rest


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