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Viagens Atenas, Grécia
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Atenas

Quem buscar beleza fácil e imediata, cedo ficará decepcionado. Atenas é uma cidade para se ir descobrindo, caminhando, sem pressas, à medida que os seus encantos se desnudam aos olhos do viajante paciente. Uma viagem a Atenas, capital da Grécia.

Por Humberto Lopes | 05.Fev.2005



A IMORTAL NUDEZ DE ATENAS

Uma conhecida expressão de Marguerite Yourcenar toma o tempo como o mais poderoso e profícuo escultor. As estátuas gregas sofreram séculos e séculos de vicissitudes que lhes deram o rosto com que hoje as vemos e nenhuma delas esconde a “beleza involuntária que lhes vem dos acidentes da história e dos efeitos naturais do tempo”. Não só não estão terminadas, portanto, como foram incorporando ao longo da sua vida, com maior ou menor subtileza, marcas que traduzem os movimentos da história ou do acaso, os trabalhos do tempo, afinal. Assim é, também, a velha Atenas - e mesmo os aspectos que muitos viajantes ignoram ou subvalorizam estão impregnados de um profundo significado histórico ou cultural.

Viagens Atenas: Render da guarda na Praça Sintagma
Render da guarda na Praça Sintagma, em Atenas

Quem, em Atenas, buscar beleza fácil e imediata, cedo se exilará numa decepção tão irremediável como absurda. Nenhum olhar sobre Atenas, como nenhum passo desenhado ao longo das ruelas da Plaka ou entre ruínas, guiará o espírito do viajante se nele não se fizer presente toda a complexa densidade histórica da mais oriental das capitais europeias. Noutros delicodoces cenários demandados pela turba turística talvez a eloquência do cenário dispense uma disponibilidade especial e a entrega incondicional do viajeiro. Mas não em Atenas, onde há que ser caminhante de sombras e de claridades, de ruínas e de tumultos, de silêncios e de caos, de memórias e de presenças nem sempre transparentes, nem sempre à flor das coisas.

A vetusta Atenas do século de Péricles expressar-se-á eternamente no delicado traço das pregas de uma estátua de Fídias ou no minucioso desenho que o espírito renascentista, emulador, reeditou sobre o mármore dois mil anos depois. Mas, como glosa habitualmente um dos mais tradicionais discursos sobre o que foi berço da civilização ocidental, a Atenas das mais antigas instituições democráticas do mundo não sobrevive menos numa herança que noutras latitudes é garante da plena realização humana através da participação cívica do cidadão na vida comunitária. Ainda hoje os atenienses rendem homenagem quotidiana ao espaço mítico da ágora, o lugar de excelência do diálogo e do confronto de ideias: noite dentro, as esplanadas da cidade fervilham de rumores e de inquietudes que se nomadizam depois pelos clubes de rebetiko ou pelas discotecas onde se dançam ritmos da variegada tradição musical grega.



ATENAS, UMA CAPITAL BALCÂNICA

A localização geográfica é, naturalmente, um dado relevante da identidade de Atenas. Tal como no domínio das culturas, as linhas geográficas convencionadas não passam de delírios imaginários e o viajante dá consigo a interrogar-se sobre onde começará verdadeiramente o Oriente. Atenas é também uma cidade balcânica, um mosaico de texturas e de gentes, de ritmos e de preocupações bem distantes por vezes das que movem outros cidadãos do velho continente.

Vista da cidade de Atenas
Vista da cidade de Atenas

Para o viajante português, uma das mais contrastantes surpresas reside na matéria dos noticiários televisivos: talvez seja essa, afinal, uma das mais profícuas introduções a um complexo contexto geográfico, político e cultural. Minudências futebolísticas, mundanas manobras ou novelísticas sociais, tão amplamente devoradas entre nós, passam nos principais canais gregos para terceiro ou quarto plano. A realidade dos Balcãs e as suas endémicas convulsões políticas e sociais, a que se soma o proverbial contencioso com a arqui-inimiga Turquia, é cintura iniludível que envolve a Grécia, implicando-a nos seus problemas e, de alguma maneira, nos seus destinos. A questão da designação da República da Macedónia (forçada a contra gosto a adoptar o nome de Antiga República Jugoslava da Macedónia), a instabilidade social, económica e política da vizinha Albânia e os problemas económicos (e de corrupção) na Roménia e na Bulgária são apenas alguns exemplos possíveis entre muitos outros.

Esta última realidade não tem deixado, aliás, de repercutir os seus efeitos em Atenas: uma boa parte da imigração clandestina que diariamente atravessa a fronteira montanhosa do Épiro, no Norte, vem aqui parar na esperança vã de encontrar trabalho. Por isso, a Praça Omonia surge hoje povoada de rostos morenos e sombrios, de vultos expectantes e imóveis que lentamente aprendem que a solidariedade europeia se define aqui exactamente com os mesmos parâmetros da impotência grega para lidar com um problema que está longe de ser apenas doméstico, como amiúde reclamam os opinion makers e a opinião pública.

Também a realidade histórica das relações com a Turquia é argamassa incontornável na identidade de Atenas e da Grécia. A resistência a quatrocentos anos de dominação turca provaram a tenacidade do espírito e da cultura grega, mesmo se o esplendor do período clássico nunca mais tenha logrado ressuscitar. Quando em finais do séc. XVIII Catarina da Rússia incentivou o estabelecimento de colónias gregas nas costas do Mar Negro, as espirais imprevisíveis da História desenrolavam de novo algumas insuspeitadas pontas: duzentos tal anos depois, a inadiável decadência do império soviético fazia regressar a casa muitos descendentes dessas comunidades (cerca de 600.000 gregos regressaram, desde 1989, das regiões do Caúcaso, Azerbeijão, Turquemenistão e Cazaquistão).

Rua de Atenas, Grécia
Rua de Atenas, Grécia

Mas numa dessas cidades, em Odessa, se lançou entretanto a semente da luta pela independência com a fundação do primeiro partido político independentista grego. A independência foi alcançada em 1829, mas a Grécia teria ainda que enfrentar as vicissitudes das duas guerras mundiais e uma cruel guerra civil, antes de mergulhar numa ditadura de coronéis. E seria no rescaldo da primeira grande guerra que Atenas sofreria um abalo brutal: o Tratado de Lausanne, em 1923, pôs fim ao sonho do renascimento do império grego e despejou na capital grega, na sequência de um conflito bélico com a Turquia, quase dois milhões de gregos que viviam nas costas da Ásia Menor. O impacto deste enorme movimento de gente foi um dos factores que contribuíram para a sobre dimensão de Atenas. Outro factor foi a guerra civil, que ao provocar uma imensa multidão de desalojados determinou a aprovação de legislação especial que favoreceu a rápida expansão urbana da cidade. A reconstrução urgente teve os seus aspectos positivos e negativos: se Atenas lograva dotar em meados dos anos 50 e em larga escala os seus habitantes das condições habitacionais exigidas e exigíveis, não se pôde evitar, na vertigem da renovação urbanística, bizarrias como a da pequena capela bizantina que hoje encontramos sob as arcadas de um edifício na Rua Mitropoleos ou a da bela igreja bizantina de Kapnikarea, na rua Ermou, encafuada numa pequena praça cercada de modernas construções de betão.



“HÁ BANQUETES, AS RUAS ESTÃO CHEIAS DE GENTE, E RESSOAM CANTOS...”

Do alto dos quase trezentos metros do Monte Lycavittos, a maior colina de Atenas, avistamos uma fina lâmina de água, de um azul tão luminoso como a campânula celeste que sobrevoa a cidade branca. O mar Egeu contorna o porto do Pireu e os bairros de Paleo Faliro e de Alimos, espreguiça-se até para lá do aeroporto, em direcção ao cabo Sounion. A tsimentupolis - a cidade do cimento - estende os seus tentáculos muito para além do seu perímetro inicial, sobe pelas colinas mais distantes, invade o Peloponeso. Quatro milhões de habitantes, cerca de 40% da população grega vivem em Atenas. Assim, adormecida sob o sol, Atenas parece não se reconhecer na “urbe divina” do poema de Píndaro. Mas a “cidade brilhante, coroada de violetas”, inquieta e indisciplinada, transforma-se ela mesma em cada momento numa ode à vida que desafia espartilhos. “Há banquetes, as ruas estão cheias de gente, e ressoam cantos, celebrando a juventude”: a voz familiar de Píndaro recorda-nos o gosto dos atenienses pelos prazeres simples. No último decénio as ruas da Plaka têm vindo a ser devolvidas aos peões. No centro da cidade, entre a Praça Syntagma e Monastiraki, há muitos recantos arborizados povoados de pequenas esplanadas - como noutros quarteirões da cidade -, que são como oásis na grande selva de cimento, tanto como a sacrossanta sesta no tempo ateniense.

Vista da Acrópole, Atenas, Grécia
Vista da Acrópole, Atenas

Não obstante a escala da cidade, a vida ateniense parece teimar em não perder de vista os versos escritos por Sófocles dois mil e quinhentos anos atrás: “Muitos prodígios há; porém nenhum maior do que o homem”. Por isso, apesar das normalizações europeístas, a nudez da Grécia, e a nudez de Atenas, resiste imortal como escrevia Kazantzaki em O Bom Demónio. Georges Seferis, que foi prémio Nobel em 1963, poeta nascido na Ásia Menor, fala dessa força misteriosa, primordial, irresolúvel à norma, e portanto prenhe do seu potencial criativo, que os gregos acalentam há mais de dois milénios: “Porque já conhecemos tão bem esse destino que é o nosso, / girando desde há três ou seis mil anos / por entre pedras quebradas, / tacteando entre os edifícios em ruínas que eram / talvez a nossa própria casa (...) Porque fomos acorrentados e dispersos (...) / perdidos, encontrando um caminho repleto de multidões cegas, embrenhando-nos nos pântanos e no lago Maratona, / poderemos morrer segundo as normas?”. Será possível olhar Atenas sem estes versos, sem esta luz que assim a desnuda?



GUIA DE VIAGENS


COMO CHEGAR A ATENAS

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Não há voos directos para Atenas a partir de Portugal. A Iberia, via Madrid, e a Lufthansa, via Frankfurt, são duas das opções à disposição do viajante português. A TAP voa também para Atenas, em code-share, via Roma ou Frankfurt.

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HOTÉIS EM ATENAS

Hotéis

Algumas sugestões de hotéis na zona da Plaka, em Atenas: The Acropolis House, Kodrou 6; Hotel Myrto, Nikis 40; Hotel Omiros, Apollonos 15; e Hotel Diomia, Diomias 5. Mais opções de alojamento nesta selecção de hotéis em Atenas.

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O QUE VISITAR EM ATENAS

A Acrópole, o Museu Nacional de Arqueologia e os teatros de Herodes Atticus e de Dyonisius são, naturalmente, visitas obrigatórias. Mas podemos acrescentar, no rol museológico, o Museu Goulandris de Arte das Cíclades (Neofytou Douka, 4, Kolonaki), que alberga uma notável colecção de escultura e de cerâmica, o Museu Bizantino (Vassilis Sofias, 22, Kolonaki) e o Museu do Folclore Grego (Kydathineon, 17, Plaka).

As ruas da Plaka, o bairro mais antigo de Atenas, que escapou à reconstrução urbana, e as colinas de Lycavittos e de Filopappos merecem igualmente mais do que uma visita. Em Filoppapos é possível ter uma das melhores vistas nocturnas da Acrópole.

Vale bem a pena, também, uma visita ao grande porto do Pireu, o maior da Grécia e um dos mais movimentados de todo o Mediterrâneao, e, eventualmente, uma pequena viagem à ilha mais próxima, Egina, a cerca de meia hora de barco. O cabo Sounion e o Mosteiro de Dafni (séc. XI), um dos mais impressivos exemplos de arte bizantina na Grécia, fazem parte também do leque de visitas possíveis nas imediações de Atenas.


MÚSICA / ESPECTÁCULOS

É na zona de Exharia que se verifica a maior concentração de bares e clubes de rebetiko (música popular trazida pelos gregos da Ásia Menor). Para ouvir e ver outras danças tradicionais gregas, recomenda-se também a Companhia de Dança de Dora Stratou, na colina de Filopappos (todas as noites, entre Maio e Outubro, às 22h00 num teatro ao ar livre) - informações na Rua Scholiou, 8 (Plaka).


LIVRARIAS EM ATENAS

Traduções francesas e inglesas de literatura grega podem ser encontradas na livraria Eleftheroudakis (Nikis 4, perto da praça Syntagma) ou na Pantelides Books (Amerikis 11, perto da anterior);


RESTAURANTES

A Plaka e Kolonaki são zonas por onde, normalmente, se circula mais como turista. Para degustar algumas especialidades da gastronomia grega como a moussaka ou o souvlaki, eis alguns endereços: Ouzeria Kouklis, Tripodon 14 (Plaka); Ouzeria Apotsos, Panepistimiu 10 (Syntagma); Em Monastiraki, a dois passos da Plaka, há uma série de tavernas populares que vale a pena conhecer, como Taverna a Sigalas (Plateia Monastirakiou, 2).


INFORMAÇÕES

A Embaixada de Portugal em Atenas fica na Karneado, 44/46 - 6º (Kolonaki), tel. 7290052, fax 7236784. A menos que o viajante saiba grego, e aproveite para praticar, o inglês é a língua mais utilizada na comunicação com os turistas; ocasionalmente, pode encontrar-se quem fale francês.



LINKS ÚTEIS

» Site Oficial do Turismo da Grécia


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