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VIAGENS ÁFRICA » MARROCOS » AIT-BENHADDOUAit-Benhaddou, Marrocos
VIAGEM A AIT-BENHADDOU, CORAÇÃO DE TERRAUma serpente. Uma serpente cor de cinza. A estrada deixou para trás Marraquexe a arder ao sol e começa a subir até ao ponto mais alto deste trecho do Alto Atlas, o Tizi n'Tichka, a cerca de 2.200 metros de altitude. Depois da paisagem árida da planura, regressa o verde dos bosques de carvalhos e da vegetação rasteira.
O cume é um ponto de paragem obrigatória, um miradouro impressionante com vista para o panorama lunar do Anti-Atlas. Um pouco antes de se atingir o cume, um caminho à esquerda leva a Telouet, etapa importante da chamada «Rota dos Kasbahs», um dos principais atractivos turísticos do interior de Marrocos. Mais adiante, nas imediações de Anemiter, é possível visitar outros kasbahs, alguns completamente abandonados. A ruína começou há cerca de cinquenta anos, com o declínio do clã dos Glaoui, um dos mais poderosos grupos de berberes do sul marroquino. Os ksour (plural de ksar) são povoações fortificadas, construídas na maioria dos casos em tijolo de terra. O de Telouet, abandonado em 1956, foi durante largas décadas sede do poder dos Glaoui, tribo que conservou sempre uma certa independência relativamente ao poder do bají de Marraquexe. No início do século XX, quando Marrocos constituía um protectorado francês, o caíd Al-Maidani foi um garante da fidelidade do sul ao ocupante estrangeiro. A queda dos Glaoui começou a desenhar-se logo a seguir à segunda guerra mundial, quando o clã se manteve distanciado de Mohammed V, futuro soberano de Marrocos. As comunidades foram-se dispersando e muitos dos kasbahs acabaram nas ruínas que hoje desenham a paisagem do flanco sul do Atlas, de Telouet aos vales do Dadés e do Todra, do Vale do Draa às regiões orientais do Ziz e do Tafilalet. UM CENÁRIO CINEMATOGRÁFICOA estrada que leva a Ouarzazate, uma cidade moderna fundada pelos franceses, torna-se agora mais plana. A aridez que prenuncia o grande “vazio” do Sahara conquista pouco a pouco todo o horizonte. A cerca de trinta quilómetros de Ouarzazate, ponto de partida frequente para os viajantes que metem os pés ao caminho na «Rota dos Kasbahs», uma estrada secundária faz a ligação a Ait-Benhaddou, uma das povoações do género mais bem conservadas em toda a região, em parte pelo interesse que a indústria cinematográfica lhe dedicou a partir do início dos anos sessenta, quando David Lean ali filmou algumas cenas de «Lawrence da Arábia».
A “vocação” de cenário cinematográfico continuou a marcar tanto a vida de Ait-Benhaddou como de Ouarzazate nos anos mais recentes. É um dos temas preferidos dos guias, que repetem vezes sem conta aos turistas as mesmas histórias que misturam personagens de ficção com gente real, Michael Douglas, James Bond, Jean Claude Van Damme, Django e Ringo, John Malkovitch. Os custos locais de produção são obviamente baixos, e os estúdios Atlas de Ouarzazate continuam a atrair grandes produções norte-americanas. Também Scorsese veio aqui rodar cenas de «A última tentação de Cristo» e de «Kundum», produção que deixou um enorme Buda, destinado agora, ao que parece, a elemento decorativo de um futuro restaurante chinês. O livro de honra dos estúdios de Ouarzazate regista um bom número de figuras de primeiro plano da sétima arte: de John Huston a Bernardo Bertolucci, cineasta que aqui filmou, precisamente, algumas sequ cias de «Um chá no deserto». As velhas muralhas de terra de Ait-Benhaddou foram também o cenário de «Sodoma e Gomorra», de Robert Aldrich, e de uma série de filmes de aventuras como «O diamante do Nilo». «Babel», de Alejandro González Iñárritu, foi também parcialmente rodado na região a leste de Ouarzazate. UMA FAMÍLIA BERBEREO Oued Malih é um rio praticamente sem água a maior parte do ano. Apenas no Inverno e na Primavera o antigo ksar de Ait-Benhaddou fica isolado da pequena povoação, mais moderna, construída do lado de lá pelos emigrantes regressados de temporadas de trabalho em Casablanca, Agadir ou no estrangeiro. Atravessar o curso de água no dorso de um camelo e dar depois uma volta junto às muralhas é uma das propostas dos pequenos guias insistentes que esperam os visitantes para lhes contar algumas histórias mirabolantes sobre as rodagens cinematográficas. Nada a perder, portanto, na companhia destes guias que conhecem todos os recantos da povoação e que em pouco mais de um par de horas mostram aos turistas os cenários mais fotogénicos.
Numa rua que desce até ao leito do rio, duas raparigas berberes oferecem-se para fazer tatuagens com hena e franqueiam as portas de casa aos viajantes. À entrada, sorridente, está Boulkil Hamil, pequeno agricultor de subsistência e mecânico nas suas muitas horas vagas, cuja família é uma entre a escassa dezena que habita o ksar. A cerimónia do chá pode esperar, Hamil reescreve a partitura da hospitalidade berbere levando-nos para um pátio interior para nos apresentar a todos os membros da família. Apenas Hamil e as raparigas mais novas falam francês. O irmão, ausente, é guia profissional: em dois álbuns de fotografias vemos imagens de outros viajantes posando em Ait-Benhaddou ou no belo ksar de Taourirt, em Ouarzazate. A avó da casa mostra-se definitivamente reservada quanto a fotografias, mas quase todos os membros da família fazem o possível para nos fazer sentir à vontade. A timidez berbere é assaz destoante da reserva árabe, proporcionando ao visitante que tem a fortuna de um acolhimento semelhante um sentimento que oscila entre o ser-se centro das atenções e ao mesmo tempo ignorado. Imprevisivelmente, uma das mulheres mais jovens decide amamentar uma criança de colo, enquanto Hamil experimenta no gravador portátil a música mais apropriada para o momento. Quase uma hora decorre entre sorrisos e olhares de curiosidade. O ritual da tatuagem desenrola-se, entretanto, na cozinha, de onde ecoam ruidosas gargalhadas e exclamações na língua berbere. RESTAURO SOB OS AUSPÍCIOS DA UNESCO EM AIT-BENHADDOUOs kasbahs do sul e a tipologia das construções são obviamente devedoras a circunstâncias históricas, condições climáticas e aos materiais disponíveis localmente. O sistema defensivo de muralhas que fazem corpo com as casas justificava-se pela necessidade de protecção contra os ataques dos nómadas. Os habitats previam, assim, a possibilidade de abrigarem não apenas os habitantes como também os animais, as colheitas e as caravanas que vinham do Tafilalet para Marraquexe ou faziam o caminho para o sul. Justamente, a localização das tribos Glaoui nesta área foi também um dos factores da sua fortuna. Este ponto do Atlas sempre foi uma encruzilhada estratégica, tendo em conta as rotas das caravanas que ligavam os mercados no norte de África com Tombuctu, nas margens do Níger, três mil quilómetros a sul e a cinquenta e dois dias de viagem, como anunciam humorísticos cartazes em Agdz ou em Zagora, no Vale do Draa.
O tipo de arquitectura de terra de Ait-Benhaddou é semelhante ao de muitos outros ksour. Os edifícios são construídos com tijolos de terra secos ao sol, podem ter quatro ou cinco andares, excepcionalmente seis ou sete, e as torres são invariavelmente decoradas com motivos geométricos, particularmente as dos tighremts, as casas mais “nobres”. Os materiais utilizados nestes género de arquitectura exigem naturalmente uma manutenção atenta e permanente. Pelo menos uma vez por ano, logo a seguir à estação das chuvas, é necessário inspeccionar minuciosamente as fissuras e os canais de drenagem da água. A possibilidade de beneficiarem de electricidade e de água corrente no novo povoado do outro lado do rio atraiu pouco a pouco a quase totalidade dos habitantes de Ait-Benhaddou, de tal forma que nem sequer uma dezena de famílias permanecia no kasbah em 1987, quando a UNESCO decidiu inscrever a aldeia na lista de lugares classificados como Património da Humanidade. Precisamente um ano antes havia sido criado com o apoio financeiro e técnico da ONU um organismo vocacionado para o restauro deste género de povoações, o CERKAS (Centre de Conservation et de Réabilitation des Kasbahs). Um dos objectivos era criar um quadro de cooperação com outras entidades regionais no sentido de dinamizar a implantação de infra-estruturas que favorecessem a vida económica e social e a reocupação da aldeia. Se este propósito ficou até agora no papel, a actividade do novo organismo centrou-se ao longo dos anos noventa no restauro das muralhas e da mesquita, no apoio aos cidadãos residentes para a reconstrução das suas casas e em diversas medidas de conservação. Esta intervenção foi particularmente impreterível na sequência das chuvas torrenciais que se abateram sobre a região em 1989 e causaram graves danos em quase toda a aldeia. O frágil coração de Ait-Benhaddou regressou então parcialmente à sua origem, como num ciclo que devolvesse à terra o que é da terra.
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