A ideia era seguir para Luxor, no sul do Egito, mas uma estrada errada e perigosa levou os viajantes a decidirem voltar ao Cairo e seguir diretamente para a península do Sinai. Até que chegaram a uma bifurcação e viram uma placa indicando Suez e outra Alexandria. “Queres ir já embora?” Não. E assim foi.
Decidimos deixar o caos do Cairo depois de uma semana passada a tentar atravessar as ruas sem sermos atropelados, depois de caminharmos como nunca em busca do Coptic Cairo, depois de termos visitado os habituais monumentos e pontos turísticos onde encontramos todos o turistas que chegam ao Egito, depois da Tanya ter ficado doente um dia inteiro por causa da comida, da bebida ou sabe-se lá de quê, depois de termos visitado mesquitas impressionantes “mendigando” a entrada só porque não estávamos dispostos a pagar dois euros por algo que, achamos nós, deve ser gratuito – a religião e os espaços religiosos -, depois de termos conhecido pessoas fantásticas, bebido chás deliciosos, comido iguarias em apertadas ruas onde os locais se sentam e os turistas, por causa da sujidade das ruas, fogem a “sete pés”.
Decidimos, pois, depois de dias de indecisão, partir rumo ao deserto líbio e fazer 1.400 quilómetros até Luxor, fugindo da perigosa estrada que acompanha o Nilo e passando por alguns dos mais bonitos oásis do país. Sair do Cairo não foi fácil. O mapa não ajudava nada, a polícia não tinha respostas para as nossas perguntas, as pessoas nem conheciam as cidades que estavam perdidas no meio do deserto. Pedalámos para este, para norte e, finalmente, para oeste, onde a Oasis Road nos deveria levar ao destino desejado. Depois de conseguirmos sair da cidade e dos subúrbios, entrámos finalmente no deserto e o silêncio só era cortado por uns quantos camiões que, de vez em quando, nos apitavam à sua passagem.
Ao longe, começámos a ver um pequeno povoado e, atravessando este, uns quantos rapazes saltaram de dentro de uns contentores e insistiram que parássemos: “Where are you from? Welcome to Egypt” e, claro está, que estávamos nós ali a fazer, montados em duas bicicletas, no meio de uma estrada tão perigosa. “Perigosa? Porquê?”. Surpreendidos por não sabermos, puxaram do mapa e apontaram a nossa localização. Estávamos na estrada que não queríamos, na que acompanha o Nilo, na que, diziam, não podíamos seguir, se não queríamos correr o risco de levar um tiro e ficar sem as bicicletas. Voltar para trás era a solução. “Daqui para a frente”, diziam, “nem nós passamos; só com cobertura policial; pode não acontecer nada mas, o mais certo, é que não consigam chegar a Luxor”.
Acordámos dentro da tenda com um nevoeiro cerrado e esperámos mais de duas horas para que este desaparecesse e pudéssemos pedalar com um mínimo de segurança! Volvidos à estrada, estávamos de novo a caminho do Cairo e não fosse uma boleia duma pickup que passou, não teríamos chegado naquele dia, tamanha era a força do vento de frente. Já no Cairo, decidimos desta vez não ficar muito mais tempo no Egito híper povoado e partir para o Suez, onde atravessaríamos para o Sinai! Umas tantas centenas de metros à frente porém, uma bifurcação apareceu: para o Suez, seguir em frente; para Alexandria, cortar à direita. Parámos e olhámos um para o outro:
– Queres ir já embora?
– Não sei, queres? Por um lado gostava de ver mais coisas deste lado…
– Pois, como eu… e então, que fazemos?
– Vamos para Alexandria!
…e pedalámos pela Desert Road rumo ao Mediterrâneo.
O que se passou a seguir, foi fantástico. De Alexandria, já toda a gente conhece tudo: a história de Alexandre – o Grande, a Biblioteca de Alexandria, as Catacumbas, as praias que de limpas e paradisíacas têm muito pouco, as catedrais, as mesquitas, o forte, as lojas que vendem de tudo um pouco e o turismo e os hotéis que crescem a cada dia que passa. No entanto, de Amrya, de Mutobis e de El Hâmul, as pequenas vilas onde ficámos antes e depois de Alexandria, pouca gente sabe, mesmo nós. O que interessa à história, à nossa história, é que fomos acolhidos por famílias fantásticas que nos deram de dormir, de comer e connosco passaram o melhor dos serões em família. Sem que nenhuma delas falasse pouco mais do que uma mão cheia de palavras noutra língua que não o árabe, os momentos passados juntos foram inesquecíveis.
Tudo começava com o nosso pedido para montar a tenda ou o convite das pessoas para comermos algo em suas casas, com o mundialmente conhecido gesto da mão levando algo à boca: comer; logo seguido da mão aberta por cima da cabeça: casa. Aceitávamos tudo de bom grado, depois de, durante o trajecto, termos já aceite mais de uma dúzia de chás, de cada vez que parávamos numa povoação para perguntar alguma coisa. De barriga cheia de pequenos pratos de comida, muito arroz e muita amizade, tentávamos depois adormecer com o som irritante dos mosquitos. No dia seguinte, enquanto comíamos o arroz do pequeno-almoço todos do mesmo prato, passávamos a mão pela testa e sentíamos os altos provocados pelas picadas de tão pequeno animal. Ainda assim, dias perfeitos!
Chegámos a Damietta, uma cidade portuária e dois dias foram passados com dois espanhóis: um deles, a Maria, a viver no Egito há 9 anos, depois de 2 anos na Jordânia que diz ser bem mais calma. Da cidade pouco vimos, preferindo passar o tempo em casa sem nada fazer, descasando dos dias anteriores passados na estrada.
Dali para Port Said, foi um instante. As roupas lavadas depois de terem passado pela lavandaria, expeliam um cheiro intenso a perfume. O vento pelas costas e a estrada com boas condições fez com que os 85 quilómetros fossem feitos em menos de quatro horas. Já na cidade de Port Said, depois do banho na pousada da juventude, caminhámos para o seu centro, bem mais limpo que em qualquer outra cidade que passámos anteriormente, apreciando as poucas casas em madeira de arquitetura puramente europeia que restam na cidade, degradadas, depois dos confrontos nas guerras com Israel no anos 60 e 70 e, claro está, da manutenção inexistente ao longo dos anos. Em Port Said começa o Canal do Suez, uma das maiores obras de engenharia do século XIX, iniciada em 610 a.c. pelo Faraó Nekau II e inaugurada em 1869 d.c..
Ismailia será a nossa próxima paragem, a cidade onde viveu Ferdinand de Lesseps, o responsável pela Companhia do Canal do Suez, cônsul francês no Egito, responsável pela construção do canal nos últimos anos, uma cidade onde existe um bairro francês imenso, deixado intacto e habitado hoje por responsáveis com cargos no Canal. Espera-nos um cheiro a Europa no Egito.
O projecto Eurásia é uma viagem de bicicleta entre Portugal e Macau, com passagem pela Europa, Médio Oriente e Ásia Central e 19 meses de duração. Ao longo de todo o percurso foram publicadas crónicas com periodicidade média quinzenal.
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