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Viagens Todra e Dadés, Marrocos
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VIAGENS ÁFRICA » MARROCOS » VALES DO TODRA E DO DADÉS

Vales do Todra e do Dadés, Marrocos

As rotas turísticas em Marrocos passam cada vez mais pelas gargantas do Todra e do Dadés, mas menos frequentemente pelos caminhos mais interiores destes vales. Essa seria outra aventura, mas os itinerários ao alcance do viajante de passagem para o deserto ou para Ouarzazate conservam, ainda assim, suficientes aliciantes para uma viagem de dois ou três dias pela região.

Por Humberto Lopes

Onde ficam Todra e Dadés [Google Earth]?



TODRA E DADÉS, RIOS FORA DO TEMPO

Uma boa parte do caminho para leste, em direcção a Er Rachidia e Erfoud, faz-se ao longo de uma estrada que corre paralela ao fértil vale do rio Dadés. O relevo é ainda marcado pela presença dos contrafortes do Alto Atlas, a norte, onde mal se adivinha o cume nevado do Djebel M'Gun, a quatro mil metros de altitude, mas o percurso conta com uma via pouco acidentada. As etapas seguintes desta rota pelo sul de Marrocos serão Boulmane e Tinerhir, portas de acesso aos vales do Dadés e do Todra.

Viagens por Kasbah no Vale do Dadés
Kasbah no Vale do Dadés, Marrocos

Se o périplo se realizar em plena Primavera, este é um itinerário que pode dar a conhecer ao viajante um dos mais preciosos panoramas de Marrocos, a visão dos esplêndidos roseirais de El Kelaa M'Gouna. A arte da perfumaria tem pelo menos seis séculos entre os berberes de Marrocos e o país produz mais de três mil litros anuais de essência de rosas. Em El Kelaa M'Gouna e em Suk Jemis, os maiores centros de produção do Atlas, a colheita floral pode chegar às vinte mil toneladas de rosas durante os meses de Maio e Junho. É por esta época que se realiza em El Kelaa M'Gouna um grande festival de celebração das colheitas, com danças e cortejos que têm lugar sob chuvas de pétalas lançadas pelos habitantes da povoação.

Toda esta região está também polvilhada de belos kasbahs, que a luz do crepúsculo incendeia de vermelho, alguns entrevistos entre os palmeirais dos oásis, como o de Amerhidil, a meio caminho da cidade de Skoura. As caminhadas pelos oásis são especialmente agradáveis de manhã cedo ou ao fim da tarde, quando os camponeses berberes se ocupam mais visivelmente das suas tarefas agrícolas. São esses também os momentos em que a luz intensa do sul se torna mais meiga, suavizando os contrastes entre o verde das palmeiras e das hortas e os castanhos crus da terra e das montanhas.

Skoura, a quarenta quilómetros de Ouarzazate, acessível por um curto desvio a partir da estrada principal, conserva nos arredores alguns kasbahs, a grande maioria abandonados e em ruínas, castelos fantasmagóricos que parecem saídos de um livro de ilustrações. Raros são os que mantêm réstias de vida no interior, como o kasbah Ben Moro, a dois quilómetros de Skoura. Tem mais de século e meio de existência e é actualmente utilizado para acolher rebanhos. Os proprietários estão normalmente disponíveis para proporcionar aos viajantes uma breve visita guiada em troca de um “cadeau” ou de uma ou duas dezenas de dirhams.



VALE DO DADÉS: DUAS CORES NA PALETA

Boulmane não tem, aparentemente, muito para oferecer aos forasteiros. Duas hipóteses se abrem então, sendo a primeira a mais interessante: continuar a jornada pelo vale do Dadés acima, com paragens ocasionais nos imensos pontos que oferecem perspectivas notáveis sobre o vale e os oásis e pernoitar depois em Aït Oudinar. Esta opção permite a possibilidade de nos dias seguintes aceder a uma das várias actividades possíveis na região, nomeadamente caminhadas ao longo do vale ou até ao cume das formações rochosas circundantes. O Hotel La Kasbah de la Vallé, a dois quilómetros da povoação, disponibiliza equipamento e orientação para rafting, bem como para alguns percursos em todo-o-terreno em direcção às entranhas da cadeia montanhosa.

Rafting nas águas do Dadés, em Marrocos
Rafting nas águas do Dadés

A segunda alternativa é consumar uma espécie de visita relâmpago ao vale, subindo até ao ponto onde o rio é estrangulado por uma garganta estreita (a partir daí, convém dispor de um veículo todo-o-terreno, essencial se se desejar penetrar no coração do Alto Atlas até Imilchil) e regressar em seguida até Tinerhir, uma pequena cidade plantada à beira de um aprazível oásis. Mas a verdade é que o Vale do Dadés, pesem as condições sumárias de vida das populações - para quem a agricultura e a pastorícia continuam a representar, desde há vários séculos, os principais recursos -, parece imensamente mais interessante do que o do Todra. A cada passo se revela assombroso o mimetismo das povoações e da rocha avermelhada e enrugada em contraste profundo com as tonalidades de verde dos oásis e dos bosques de álamos e de nogueiras. É uma espécie de paisagem bicolor, com duas tonalidades bem ritmadas, como s o pintor apenas dispusesse de duas cores na paleta. E nem as nuvens rosadas das amendoeiras em flor, que ataviam as hortas em Fevereiro e Março, quebram esta cadência.



ENCRUZILHADA DE TEMPOS NO VALE DO TODRA

De Tinerhir até às famosas gargantas do Todra, cada vez mais concorridas por praticantes de escalada, é um pequeno passeio de poucos quilómetros, atravessando uma sequência quase ininterrupta de palmeirais. A maior parte dos turistas fica-se pelas gargantas propriamente ditas, mas este pode converter-se num percurso de aproximação a comunidades mais isoladas do Atlas. Ao longo do vale do Todra, logo a seguir à passagem estreita entre a íngreme penedia de trezentos metros de altura, um estradão pedregoso entranha-se por uma região mais árida, antes de começar a surgir de novo a sombra dos oásis. O trajecto exige um veículo todo-o-terreno para se alcançar Aït Hani e depois Imilchil, no centro de uma região onde confluem o Médio e o Alto Atlas e onde nascem os rios Dadés, Todra e Ziz.

Atravessando o Todra, rumo a Imilchil, Marrocos
Atravessando o Todra, rumo a Imilchil

À excepção das zonas orientais do país, confinantes com a Argélia, e dos territórios do Sara Ocidental, este é um dos trechos mais “remotos” de Marrocos, habitado por populações cujos contactos com os viajantes têm sido esporádicos e breves, razão pela qual, naturalmente, as comunidades berberes que habitam os kasbahs da parte superior do Vale do Todra revelem uma extraordinária hospitalidade. Ali não chegaram ainda sinais do plano de electrificação que o novo rei Moahamed VI anunciou para o interior do país, onde dois terços das povoações isoladas não possuem nem electricidade nem água corrente. Na direcção de sudoeste alinha-se o maciço central do Alto Atlas ao longo de mais de setecentos quilómetros, com vários cumes cuja altitude ultrapassa os três mil metros. O clima de Imilchil é rigoroso e a paisagem despojada, razão pela qual os franceses chamaram, durante a época do protectorado, “le petit Tibét” à região.

As gargantas do Todra são um dos espaços naturais do interior marroquino mais concorridos pelo turismo, nacional e internacional. Diante do Hotel Yasmina, nas margens do rio, juntam-se caravanas de veículos todo-o-terreno cobertos pela poeira do deserto. Para chegar até aqui, há que atravessar o curso de água numa passagem mais propícia, duas centenas de metros para sul, algo como uma encruzilhada metafórica de tempos. Aí se interceptam, sem o mais pequeno indício de perplexidade, universos distantes: burricos de camponeses silenciosos com os olhos postos no caminho, mulheres árabes de rosto coberto, jipes cheios de turistas bem vestidos - rigorosamente estilo expedicionário, de farpelas acabadas de sair de lojas “especializadas” - ou velhas camionetas com grupos de berberes que se dirigem para os kasbahs do interior, enquanto lá no alto, nas paredes verticais dos rochedos, se vão cravando os ganchos dos praticantes de escalada.

Viagem aos vales Todra e Dadés, em Marrocos
A estrada que liga o Vale do Todra ao interior do Atlas, Marrocos

Imóvel, no desterro da sombra, acrescento outra distância demorando na boca o sabor das tâmaras negras do Ramadão, que as crianças do Vale do Draa oferecem aos viajantes em troca de uma dezena de dirhams.

Pouco depois de abandonarmos Tinerhir, há duas alternativas para alcançar o deserto. A estrada principal encaminha-se para a capital administrativa da região, a moderna Er-Rachidia. Meia centena de quilómetros depois de Tinerhir e vinte e cinco antes de Goulmina, uma estrada secundária acompanha o vale do Oued Rheris até Jorf e Erfoud, já em pleno coração do grande palmeiral do Tafilalet. É este o trajecto que a inquietação do deserto mais aconselha, mas o Vale do Ziz espera-nos ainda antes das desejadas dunas do Erg-Chebbi. Rumo a Er-Rachidia, navegamos entre planícies escaldantes, onde as pedras se desfazem lentamente em pó, horizontes áridos que anunciam a proximidade do Sara. Por largas horas, ainda, a memória insiste em não retomar connosco a viagem, retida na estreiteza das gargantas do Dadés e do Todra, portas de entrada para cenários onde correm rios fora do tempo.


Viagem às gargantas do Todra e do Dadés, Marrocos
O casario confunde-se com a paisagem no Vale do Dadés
Tinerhir, às portas do Vale do Todra, Marrocos
Tinerhir, às portas do Vale do Todra


GUIA DE VIAGENS


COMO CHEGAR A MARROCOS

Marrocos é, obviamente, o país do Magreb mais acessível a quem viaja a partir da Península Ibérica. É possível organizar uma viagem em viatura própria, não necessariamente um todo-o-terreno, embora o acesso a certas regiões exiga ou aconselhe um veículo desse tipo.


QUANDO VIAJAR PARA OS VALES DO TODRA E DADÉS

As melhores épocas para visitar Marrocos são o Outono e a Primavera. Durante o Verão, sobretudo Julho e Agosto, as temperaturas são mais elevadas, sobretudo no sudeste.




LINKS ÚTEIS

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