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VOLTA AO MUNDO » 33. VIETNAME, CAMBOJA, LAOS, MYANMAR, TAILÂNDIA E SRI LANKA

Súmula da Segunda Parte da Viagem

Sensivelmente a meio da volta ao mundo, acabo de deixar para trás países como o Vietname, Camboja, Laos, Myanmar, Tailândia e, inesperadamente, também o Sri Lanka. Uma fase extraordinária desta viagem, recheada de momentos formidáveis, pese embora profundamente marcada pela tragédia tsunami.

Por Filipe Morato Gomes

Qual o itinerário da volta ao mundo?



A caminho da Malásia e depois de exploradas algumas ilhas do sul da Tailândia, a viagem em redor do planeta encontrava-se sensivelmente a meio termo. Uma jornada recheada de momentos únicos e inolvidáveis, experiências extraordinárias polvilhadas com raras e insignificantes desilusões. Da maravilhosa baía de Halong à poluída e caótica Saigão, da paz dos templos de Bagan à dor dos sobreviventes nos cenários do tsunami, tempo agora para um balanço da segunda etapa desta viagem de sentido único.


Reflexões

Viajando temporariamente com a companheira de outras guerras, Luang Prabang, Laos
Viajando temporariamente com a companheira de outras guerras, Luang Prabang, Laos

À medida que Portugal ia ficando mais distante no avião com destino a Moscovo, era invadido por um sentimento de incerteza e atormentado por inúmeras questões sobre se fazer esta longa viagem seria uma decisão sensata. Sete meses depois, nem por um único momento senti algum arrependimento. Nunca me ocorreu abandonar a temporária vida de nómada global e voltar ao conforto dos ambientes familiares em Portugal. Aparte o bacalhau de Natal regado com um saudoso azeite caseiro duriense, um bom café expresso, falar em português e os familiares e amigos, há poucas coisas de que verdadeiramente sinto falta. O ser humano é, por natureza, facilmente adaptável a novas realidades.

É agora perfeitamente normal usar papel higiénico em vez de guardanapos, utilizar casas de banho sem sanita e tomar banho de água fria, dormir sob uma rede mosquiteira ou mesmo ao relento, comer com pauzinhos e não saber com exactidão o que está no prato. Assim como viajar de forma desconfortável durante dez ou quinze horas num autocarro apinhado de gente, sacos de arroz, galinhas ou porcos e chegar a um lugar desconhecido a meio da noite. Faz tudo parte da magnífica experiência de viajar de uma forma livre e independente.

Ao fim de sete meses a percorrer parte do mundo, há coisas que vão mudando na maneira de estar de um viajante. A paciência e despreocupação são características que se vão desenvolvendo com o tempo. O pragmatismo na resolução dos simples problemas do quotidiano vai aumentando. Não tentar perceber tudo o que, num dado momento, está a acontecer em redor do viajante e acreditar que no final tudo acabará por funcionar, é uma regra de ouro que aprendi a respeitar. Especialmente quando se trata de mudar de poiso e a viagem entre os dois locais implica incontáveis mudanças de transporte. Nunca se sabe ao certo quando o próximo autocarro partirá e um bilhete não é garantia de lugar sentado. Por vezes, os horários são meramente indicativos e o próprio meio de transporte não é certo: um autocarro pode facilmente transformar-se numa carrinha, ou vice-versa. Aconteceu já comprar um bilhete que incluía uma longa travessia de barco e a totalidade da jornada acabar por ser efectuada numa carrinha de doze lugares. Mas tudo acaba quase sempre por resultar.

Posando com Par Par Lay, o Moustache Brother número 1, à porta de sua casa em Mandalay, Myanmar
Posando com Par Par Lay, o Moustache Brother número 1, à porta de sua casa em Mandalay, Myanmar

Em muitos dos lugares por onde fui passando, decisões impulsivas acabaram por fazer toda a diferença. Um simples “olá” a alguém que se cruza no caminho pode tornar os dias seguintes completamente diferentes. As pessoas que se conhece na estrada - habitantes locais ou outros viajantes -, principalmente quando o viajante é solitário, é provavelmente o factor mais relevante para a experiência vivida num lugar ser apenas normal ou tornar-se excepcional. Um cumprimento e dois dedos de conversa já me proporcionaram, por exemplo, um convite de um jovem birmanês para entrar em sua casa. Lá dentro, numa casa de madeira de não mais de vinte metros quadrados, erguida sobre estacas, a sua mulher acarinhava o seu primeiro filho, recém-nascido de apenas um dia de idade. Uma xícara de chá aqueceu a conversa possível entre pessoas sem uma língua comum. A imagem do bebé feito casulo e respectivos pais sentados em volta de um braseiro na sua humilde casa, é uma das mais afectuosas que guardo desta viagem. E em todo o lado há experiências inesquecíveis aguardando os forasteiros, assim estes se deixem guiar por impulsos.


Lugares

Depois da Rússia, da Mongólia e da China, foi chegada a hora de penetrar no muito aguardado sudeste asiático e explorar o território do Vietname, Camboja, Laos, Myanmar e Tailândia, com uma curta e imprevista incursão ao Sri Lanka por altura do tsunami que assolou a região. O tsunami marcou vincadamente esta parte da viagem através de alguns dos mais difíceis momentos do ponto de vista emocional. Vestir a pele de um repórter fotográfico naqueles cenários de horror foi algo que me deixou abalado, mas ao mesmo tempo enriquecido.

Na companhia do guia J.P. Barua, durante um trekking na região montanhosa de Kalaw, Myanmar
Na companhia do guia J.P. Barua, durante um trekking na região montanhosa de Kalaw, Myanmar

Todo o Vietname foi uma experiência deslumbrante. Na zona de Sapa, visitar o mercado semanal da povoação pejado de gentes H´mong e quase ser embriagado com vinho de arroz quando pernoitei na casa de uma família de etnia Thai foram episódios memoráveis. Mui Ne é um lugar mágico. Pagaiar pela baía de Halong foi uma delícia para os sentidos. A pitoresca cidade de Hoi An, por onde os portugueses passaram séculos atrás, um encanto. Percorrer os túneis de Cu Chi, a partir de onde os soldados vietcongs fizeram a vida negra ao inimigo americano, foi extenuante mas recompensador. E visitar o Museu da Guerra em Saigão, uma experiência brutal mas absolutamente obrigatória para todo o viajante. E como esquecer a excelente culinária vietnamita, desde os restaurantes ocidentalizados até àquela refeição confeccionada num carrinho ambulante e servido no passeio de uma movimentada rua de Saigão?

No Camboja, os templos de Angkor são de uma magnificência avassaladora e merecem a atenção de quem quer que passe pelo país. Mas o melhor de Angkor foi conhecer Aki Ra, o homem que sozinho tenta limpar o solo cambojano das minas que ainda por lá abundam, e a sua história de vida. Fascinante. Na Tailândia, caminhar até uma aldeia da minoria étnica Poe e dormir ao relento no alpendre de uma das famílias de uma aldeia, e aprender a mergulhar em Koh Tao foram alguns dos momentos mais altos até à data. E as filas de monges percorrendo as ruas de Luang Prabang, recolhendo dos habitantes locais comida para consumo no próprio dia foi uma das mais belas cenas que presenciei no Laos. Em Myanmar, recordo a paz dos templos de Bagan, a pitoresca ponte de U´Bein e a refeição que me foi servida no chão de uma humilde casa de uma família da minoria étnica Dhanu, entre muitos outros momentos deliciosos.


Portugueses

Viajar de forma independente, sem pressa e com rumo flexível, é algo por demais recompensador para todos os sentidos. É por isso com alguma tristeza que fui constatando que, ao contrário dos naturais de muitos outros países europeus, os portugueses perderam a veia descobridora dos navegadores de outrora: em sete meses de viagem cruzei-me apenas com quatro lusitanos. Gostava de ter encontrado bastante mais. Muito teria o país a ganhar se mais gente se fizesse à estrada na busca de novas culturas, diferentes povos, outros valores, sensações desconhecidas. Em duas palavras, alargar horizontes.


{ 05.Mar.2005 - 10:40. Adaptado a partir da versão não editada do texto originalmente publicado no jornal Público }

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Qual a vossa opinião?
• Viajar é uma actividade enriquecedora e, em muitos lugares, o custo de vida é substancialmente mais baixo do que em Portugal. Assim sendo, porque é que os portugueses viajam tão pouco de forma independente e, genericamente, se abstêm de o fazer para além das tradicionais “férias de verão”?

Olá Filipe!
Por motivos pessoais, Singapura tornou-se como a minha segunda pátria, pelo que senti saudades ao verificar que já aí te encontras, se tudo correr bem ainda durante este ano deverei aí voltar.
Como já te deves ter apercebido, apesar dos canteiros verdejantes que decoram toda a cidade, não encontras aí grandes paraísos naturais dignos de nota como os que descreveste nas tuas crónicas.No entanto aqui deixo algumas sugestões mais citadinas... visita à ilha de Sentosa (via teleférico), um Sing Sling no Long bar do Raffles Hotel, passeio à noite por Boat Quay... e se te quiseres embrenhar nas zonas mais genuínas da cidade recomendo as coffee shops ao longo da Sims Avenue no distrito de Geylang no centro/leste, (estação de MRT: Paya Lebar). Não te esqueças de experimentar o Nasi Lemak (arroz de côco), acompanhado de tea Tarik (uma bebida à base de chá).
Orchard road é o centro comercial da cidade, mas não tem grande piada, excepto na época natalicia...
Já agora aqui fica um link para um budget hotel muito simpático no centro da cidade que ficou conhecido devido a uma curiosa falha estrutural... (é onde costumo ficar) - www.nsshotel.com.

Comentário à viagem enviado por Daniel em 07.MAR.2005 - 22:35

Uau... começo a ficar assustado com a quantidade de histórias que já tens para contar...
Fico muito contente em saber que tem realmente valido a pena e que, passado tanto tempo só te apeteça continuar.
Por mim também tem valido muito a pena estar a acompanhar a tua viagem e tenho ficado muito enriquecido com as tuas crónicas.

Um abraço,
Zé Carlos

Comentário à viagem enviado por Zé Carlos em 07.MAR.2005 - 22:37

Viva Filipe,
Atentamente vou lendo as crónicas.
Boa sorte, e que Deus te acompanhe!
De Braga, ao resto do Mundo... É um instante.

Comentário à viagem enviado por Musqueteira em 08.MAR.2005 - 23:47

Bravo Filipe!

Já estava a ponderar há bastante tempo demitir-me do meu emprego e fazer uma volta ao mundo. O teu site fez-me caminhar mais um (grande) passo nessa direccao.
Projecto brilhante o teu, e a capacidade com que comunicas.

Parabéns

Comentário à viagem enviado por Anonimo em 09.MAR.2005 - 15:59

Caro Gralha...

Fazia tempo que não visitava a tua página. Li com a concentração habitual as crónicas que entretanto havias escrito, e deslumbrei as últimas fotos publicadas.

A aposta em alargar os teus próprios horizontes, é algo muito dificil de se fazer.
A decisão de viajar pelo mundo, sozinho, de conhecer novas culturas, novos lugares, novos valores, novas realidades... jamais poderá ser tomada de ânimo leve. A isto, alia-se a incerteza, o não sabermos o que vamos encontrar, o ser difícil prever e planear o que quer que seja, o partir para o desconhecido, e o financiamento da viagem.

Poucos são aqueles que têm a coragem que tu tiveste. Independentemente de serem Portugueses, Espanhóis, Brasileiros, Italianos ou Americanos.

O balanço que até agora fazes da tua viagem é extremamente positivo. As novas experiências, os sentimentos que estas te fizeram despoletar, o alargar verdadeiramente todos os horizontes, o conhecer, o responder ao adverso, o descobrir, o re-descobrir... o sorrir, o chorar, o viver cada dia com toda a intensidade.. e não haver um só dia em que acordes e não penses: tenho um imenso mundo para descobrir hoje!!

É de deixar um gajo a pensar, não é???

Grande Abraço e continuação de uma boa viagem... Força...

Aníbal (Pessoal)

Comentário à viagem enviado por Aníbal em 22.MAR.2005 - 17:06

Somos como os animais que vivem uma rotina instintiva e diária de sobrevivência...
Não é fácil esquecer os padrões sociais do emprego estável, a casa, o carro, a família, casar, procriar...

E vamos vivendo neste ram-ram, esquecendo que somos animais, mas racionais, e que há todo um mundo por descobrir. Uma série de lugares e pessoas que certamente daríam uma dimensão muito mais humana e muito mais realizada e um verdadeiro sentido de descoberta e construção às nossas vidas... sempre iguais.

Parabéns viajante.

Comentário à viagem enviado por Daniel (Cristo) em 02.ABR.2005 - 17:01

Encontrei esta página porque... tenciono ir ao Vietname... o meu 88º país a visitar! Há portugueses que desapareceram da Terra Natal e que viajam com bastante frequência e de forma independente mas que preferem manter um “low profile”... o caso de um português que conheci por acaso em Zamboanga-Ilha de Mindinao... Recentemente no Templo Dourado em Kyoto ouvi falar português... Mas como não me apresentei regressarão a Portugal com... “Não vimos português nenhum!”... Há portugueses que viajam que se fartam e, tendo em conta o número da nossa população, já somos alguns... só que não temos a pachorra para o apregoar na net...
(Sydney)

Comentário à viagem enviado por Valdemar Alves em 30.DEZ.2005 - 22:16


Nota: com a renovação do design de Alma de Viajante, em 2006, foi desactivada a introdução automática de comentários à volta ao mundo, para evitar a publicação de spam nas crónicas de viagem. As mensagens podem ser enviadas por e-mail e serão colocadas neste travelogue, manualmente.

Obrigado a todos os que, ao longo dos tempos, enriqueceram esta volta ao mundo com as suas palavras.


OUTRAS CRÓNICAS DA VIAGEM VOLTA AO MUNDO

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