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Viagens Rurrenabaque, Bolívia
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VIAGENS AMÉRICA DO SUL » BOLÍVIA » AMAZÓNIA

Bella Altura, Amazónia

Uma comunidade deixou há alguns anos as margens do Rio Beni, afluente da bacia amazónica, para escapar às cheias cíclicas que submergiam a aldeia sob uma torrente de água e lama. Para um vasto território de selva recuperado da predação madeireira, os habitantes de Bella Altura, na Bolívia, têm agora em mãos um projecto de ecoturismo.

Por Humberto Lopes

Onde fica Bella Altura [Google Earth]?



TRÊS DIAS EM TERRITÓRIO TACANA, AMAZÓNIA BOLIVIANA

La Paz amanhece com dois graus negativos e uma luz claríssima ilumina as neves eternas do Illimani. O voo da TAM, o sector de transporte civil da Força Aérea Boliviana, parte às oito da manhã com meia dúzia de passageiros a bordo. O Fokker faz uma volta sobre El Alto, a cidade periférica que cresce cada vez mais com os imigrantes que chegam todos os dias das zonas rurais, e dirige-se para leste, sobrevoando a Cordilheira Real. O pico nevado do Illimani passa lentamente ao lado da nave, que não tarda mergulhar numa massa compacta de nuvens. Meia hora depois, o horizonte volta a desnudar-se e um oceano verde irrompe lá em baixo, rasgado por serpentes douradas, rios barrentos que correm a engrossar a corrente do Beni, o mais importante curso de água da bacia amazónica boliviana.

Aldeia de Bella Altura, na amazónia boliviana
Aldeia de Bella Altura, na amazónia boliviana

Numa clareira abre-se a pista de terra de Rurrenabaque, a três quilómetros da cidade. Apesar da estação fria, a povoação abafa sob a ameaça de uma tempestade tropical. Uma hora depois um chuveiro torrencial enlameia as ruas e suspende-se tão depressa como começou. Nas poças de água castanha chapinham crianças, indiferentes ao céu sombrio que persistirá até ao anoitecer.

Do outro lado do rio está San Buenaventura, à distância de cinco minutos de barca. É nesta vila sem grande fulgor que nos espera o primeiro encontro com a cultura local mais representativa, no espaço do Centro Cultural Tacana, uma instituição que alberga um pequeno núcleo museológico e que disponibiliza informação sobre a cultura e a história das comunidades tacanas. O número total de indivíduos da etnia situa-se entre os três e quatro mil, uma boa parte marcada por processos de aculturação. A cultura tacana contemporânea é o resultado de 350 anos de contacto com a influência missionária católica. A língua é sobretudo falada pelos mais velhos, embora em núcleos populacionais como Tumupasa se encontrem muitas crianças e gente jovem que se expressa no idioma dos seus antepassados. O principal órgão político é o CIPTA (Consejo Indigena del Pueblo Tacana), constituído por representantes das vinte comunidades. Uma das suas funções é regulamentar os territórios de caça de cada uma das comunidades.

Margens do rio Beni, Amazónia
Margens do rio Beni, Bolívia

A aldeia de Bella Altura, uma dessas comunidades, está a sete quilómetros da margem do Beni. O nome do povoado é uma tradução das características topográficas, mas também da esperança das suas gentes, que há treze anos se transferiram das margens do Beni para fugir às cheias. São cerca de vinte famílias, uma centena de pessoas. A caça, a pesca, a agricultura e, mais recentemente, o artesanato, constituem as principais actividades que garantem a sua subsistência. Durante muitos anos, as florestas vizinhas estiveram à mercê da cupidez predadora dos madeireiros, mas legislação recente sobre os direitos das populações indígenas sobre os seus territórios de origem veio abrir perspectivas diferentes para estas comunidades, até há pouco tempo expurgadas dos benefícios desse património. O caso da comunidade de Bella Altura é exemplar. Escorados na lei do «Territorio de Comunidad de Orígen», os habitantes de Bella Altura estão actualmente envolvidos num projecto de ecoturismo que pretende explorar as potencialidades da selva circundante. A exploração de madeira ainda chegou a firmar-se no horizonte de possibilidades, mas a gente da aldeia acabou por preferir, em assembleia, a conservação do ecossistema e trabalhar para a sua rentabilidade através do turismo.



UM COMPÊNDIO DE PLANTAS MEDICINAIS

Ernesto Guary Cartagena será o meu guia durante os três dias de visita aos domínios da comunidade. Noutras ocasiões tem conduzido grupos de viajantes pelo Parque Nacional do Alto Madidi, mas é esta a primeira vez que a aldeia e a floresta tropical vizinha recebem um forasteiro. As infra-estruturas projectadas deverão tornar-se uma realidade em breve, mas por ora apenas resta improvisar o acolhimento, adaptando-se algumas “melhorias” na tosca cama e mesa que são o quotidiano dos habitantes.

Viagens Amazónia, Bolívia
Bella Altura, Bolívia

As casas de madeira e com telhados feitos de um complexo entrançado de folhas de palmeira estão dispersas por uma ampla clareira rodeada de mangueiras e de bananeiras - tamarindos, papaias e toranjas são outros frutos abundantes nas imediações. O projecto de ecoturismo prevê a construção num dos níveis mais elevados do povoado de um pequeno hotel, com materiais e arquitectura tradicionais, com capacidade para vinte pessoas. O administrador do projecto é claro quanto à ideia de garantir um «turismo gentil», a uma escala consentânea com a sensibilidade e os ritmos da natureza.

A tarde do primeiro dia é preenchida com uma incursão à floresta vizinha e com uma caminhada até um pequeno lago. Aí se pode observar pequenos mamíferos, tartarugas, capibaras, taitetus, uma espécie de javali, mas sobretudo bandos de pássaros frenéticos. Riem, engasgam-se, buzinam, assobiam, tossem, roncam como serras, gargarejam, sopram, imitam linhas telefónicas interrompidas. Durante a jornada até ao lago, Ernesto detinha-se frequentemente e ia assinalando no compêndio da selva as plantas utilizadas na medicina local. Motaku para eliminar parasitas, yuquilla para problemas nos olhos, matico para a febre, copaybo para o reumatismo, etc., etc.



A HIPÓTESE DO JAGUAR

Até à orla da selva são cerca de uma vintena de quilómetros, primeiro por uma estradão de terra que leva a Tumupasa, com o território do Parque Madidi à esquerda, e depois por um caminho estreito que vai penetrando cada vez mais em densa vegetação. No dia anterior, três habitantes da aldeia, Félix, Jesus e Demétrio, haviam partido à frente para preparar o acampamento numa clareira aberta entretanto junto a outro lago. Após cinco horas de caminhada por trilhos que só o guia conseguia decifrar, chegamos ao acampamento, onde Félix, o cozinheiro, preparava a primeira refeição do dia, peixe apanhado pouco antes no lago. Jesus, o caçador, que veio ao nosso encontro, havia tentado, sem êxito, conseguir uma peça de caça para o almoço. Pelo caminho repetiram-se as explicações sobre as plantas medicinais utilizadas pela comunidade, intercaladas de silêncios súbitos para propiciar a observação de macacos, capivaras, taitetus ou parabas, uma espécie de araras tão coloridas quanto ariscas.

Viagem à Bolívia
Amazónia, Bolívia

O local escolhido para o acampamento deverá albergar mais tarde outro núcleo de cabanas de madeira para acolhimento dos turistas. A menos de cinquenta metros passa o Arroyo Concepción e o lago está a menos de dez minutos de caminhada. São ambos locais propícios à observação da bicharada. Após o jantar, já noite escura, com o auxílio de lanternas dirigimo-nos ao lago e ali pudemos observar os olhos luminosos dos caimões.

Antes do anoitecer eu havia interrogado Ernesto sobre a presença de outra espécie, provavelmente uma das mais belas de toda a América, o jaguar. Nos últimos tempos não havia observado nenhum nas redondezas, mas era sempre possível que se aproximassem do acampamento se sentissem a presença humana. Entre os incessantes ruídos da floresta que tornam impossível o silêncio durante toda a noite, ouvimos a madrugadas tantas uns passos decididos rondando a clareira. Mas nem Ernesto nem os outros membros da expedição puderam assegurar a identidade do visitante nocturno.

A aventura maior acabaria por chegar no dia seguinte, após outras cinco horas de caminhada até à orla da selva. No local combinado, haviam faltado ao encontro as motorizadas-táxi. Com o aproximar da noite não nos restava outra solução que meter os pés ao caminho. Jesus e Demétrio, carregados com o equipamento, partiram por um atalho em direcção a Bella Altura. Eu, Ernesto e Félix, lançamo-nos em direcção à picada de Tumupasa, na esperança - que se revelaria vã - de conseguir um transporte que evitasse uma caminhada de mais quinze quilómetros. Tal só veio a acontecer já noite dentro, em San Isidro. Aí nos separamos. Ernesto e Félix desapareceram por um carreiro que levava a Bella Altura. Na vegetação que se adivinhava sob os raios do quarto crescente, milhares de pirilampos coreografavam a sua cintilante dança nupcial.



GUIA DE VIAGENS


COMO VIAJAR PARA RURRENABAQUE

A Iberia tem voos de Madrid para La Paz. As Linhas Aéreas do Chile voam para Santiago e daí têm ligações diárias para La Paz. Da capital boliviana para Rurrenabaque, na Amazónia, operam duas companhias, a TAM e a Lloyd Aereo Boliviano. Os preços da primeira são substancialmente inferiores e a viagem dura cerca de hora e meia. A alternativa terrestre é uma outra aventura. O trajecto exige 18 horas de autocarro e atravessa a bela, mas perigosa, região tropical de Los Yungas. A estrada que desce dos Andes é estreita, com precipícios de mil metros, e tem uma taxa de acidentes mortais altíssima - é, portanto, uma alternativa reservada para quem goste de emoções fortes.


Taitetu, espécie de javali muito comum na Amazónia boliviana
Taitetu, espécie de javali muito comum na Amazónia boliviana

QUANDO VIAJAR PARA A AMAZÓNIA BOLIVIANA

A melhor época para visitar a região é o Inverno, entre Junho e Setembro, quando faz menos calor e quase não chove, o que permite um trânsito mais fácil pelas estradas de terra.


HOTÉIS EM RURRENABAQUE

Duas sugestões de alojamento: Hotel Beni, na Calle Comercio, e Hotel Santa Ana, Calle Vaca Díez.


RESTAURANTES

Em Rurrenabaque existem alguns restaurantes razoáveis, à mesa dos quais se pode degustar a gastronomia local, especialmente espécies piscícolas da bacia amazónica. Recomenda-se particularmente La Perla de Rurre, na Calle Vaca Díez. Aí se cozinha de forma exímia o Surubi, um dos mais saborosos peixes da região. O restaurante possui um aprazível pátio onde os comensais podem almoçar à sombra de enormes mangueiras. Ruperto Morales, o proprietário, é um excelente anfitrião.


INFORMAÇÕES ÚTEIS

Para os cidadãos da União Europeia não é necessário visto para entrar na Bolívia. O tempo máximo de permanência para os turistas é de 90 dias. O Centro Cultural Tacana está localizado na Plaza Principal de San Buenaventura. É um meio de contacto com a comunidade de Bella Altura. Ajuda e informação detalhada sobre a região amazónica podem ser obtidas em La Paz, nos postos de turismo da Plaza del Etudiante e da Avenida 16 de Julho. A Secretaria Nacional de Turismo (SENATUR) está situada no Edifício Ballivián, 18º piso, na Calle Mercado. O indicativo da Bolívia é o 591, devendo-se acrescentar o algarismo 2 nas ligações para La Paz.




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