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VIAGENS AMÉRICA DO SUL » BOLÍVIA » AMAZÓNIABella Altura, Amazónia
TRÊS DIAS EM TERRITÓRIO TACANA, AMAZÓNIA BOLIVIANALa Paz amanhece com dois graus negativos e uma luz claríssima ilumina as neves eternas do Illimani. O voo da TAM, o sector de transporte civil da Força Aérea Boliviana, parte às oito da manhã com meia dúzia de passageiros a bordo. O Fokker faz uma volta sobre El Alto, a cidade periférica que cresce cada vez mais com os imigrantes que chegam todos os dias das zonas rurais, e dirige-se para leste, sobrevoando a Cordilheira Real. O pico nevado do Illimani passa lentamente ao lado da nave, que não tarda mergulhar numa massa compacta de nuvens. Meia hora depois, o horizonte volta a desnudar-se e um oceano verde irrompe lá em baixo, rasgado por serpentes douradas, rios barrentos que correm a engrossar a corrente do Beni, o mais importante curso de água da bacia amazónica boliviana.
Numa clareira abre-se a pista de terra de Rurrenabaque, a três quilómetros da cidade. Apesar da estação fria, a povoação abafa sob a ameaça de uma tempestade tropical. Uma hora depois um chuveiro torrencial enlameia as ruas e suspende-se tão depressa como começou. Nas poças de água castanha chapinham crianças, indiferentes ao céu sombrio que persistirá até ao anoitecer. Do outro lado do rio está San Buenaventura, à distância de cinco minutos de barca. É nesta vila sem grande fulgor que nos espera o primeiro encontro com a cultura local mais representativa, no espaço do Centro Cultural Tacana, uma instituição que alberga um pequeno núcleo museológico e que disponibiliza informação sobre a cultura e a história das comunidades tacanas. O número total de indivíduos da etnia situa-se entre os três e quatro mil, uma boa parte marcada por processos de aculturação. A cultura tacana contemporânea é o resultado de 350 anos de contacto com a influência missionária católica. A língua é sobretudo falada pelos mais velhos, embora em núcleos populacionais como Tumupasa se encontrem muitas crianças e gente jovem que se expressa no idioma dos seus antepassados. O principal órgão político é o CIPTA (Consejo Indigena del Pueblo Tacana), constituído por representantes das vinte comunidades. Uma das suas funções é regulamentar os territórios de caça de cada uma das comunidades.
A aldeia de Bella Altura, uma dessas comunidades, está a sete quilómetros da margem do Beni. O nome do povoado é uma tradução das características topográficas, mas também da esperança das suas gentes, que há treze anos se transferiram das margens do Beni para fugir às cheias. São cerca de vinte famílias, uma centena de pessoas. A caça, a pesca, a agricultura e, mais recentemente, o artesanato, constituem as principais actividades que garantem a sua subsistência. Durante muitos anos, as florestas vizinhas estiveram à mercê da cupidez predadora dos madeireiros, mas legislação recente sobre os direitos das populações indígenas sobre os seus territórios de origem veio abrir perspectivas diferentes para estas comunidades, até há pouco tempo expurgadas dos benefícios desse património. O caso da comunidade de Bella Altura é exemplar. Escorados na lei do «Territorio de Comunidad de Orígen», os habitantes de Bella Altura estão actualmente envolvidos num projecto de ecoturismo que pretende explorar as potencialidades da selva circundante. A exploração de madeira ainda chegou a firmar-se no horizonte de possibilidades, mas a gente da aldeia acabou por preferir, em assembleia, a conservação do ecossistema e trabalhar para a sua rentabilidade através do turismo. UM COMPÊNDIO DE PLANTAS MEDICINAISErnesto Guary Cartagena será o meu guia durante os três dias de visita aos domínios da comunidade. Noutras ocasiões tem conduzido grupos de viajantes pelo Parque Nacional do Alto Madidi, mas é esta a primeira vez que a aldeia e a floresta tropical vizinha recebem um forasteiro. As infra-estruturas projectadas deverão tornar-se uma realidade em breve, mas por ora apenas resta improvisar o acolhimento, adaptando-se algumas “melhorias” na tosca cama e mesa que são o quotidiano dos habitantes.
As casas de madeira e com telhados feitos de um complexo entrançado de folhas de palmeira estão dispersas por uma ampla clareira rodeada de mangueiras e de bananeiras - tamarindos, papaias e toranjas são outros frutos abundantes nas imediações. O projecto de ecoturismo prevê a construção num dos níveis mais elevados do povoado de um pequeno hotel, com materiais e arquitectura tradicionais, com capacidade para vinte pessoas. O administrador do projecto é claro quanto à ideia de garantir um «turismo gentil», a uma escala consentânea com a sensibilidade e os ritmos da natureza. A tarde do primeiro dia é preenchida com uma incursão à floresta vizinha e com uma caminhada até um pequeno lago. Aí se pode observar pequenos mamíferos, tartarugas, capibaras, taitetus, uma espécie de javali, mas sobretudo bandos de pássaros frenéticos. Riem, engasgam-se, buzinam, assobiam, tossem, roncam como serras, gargarejam, sopram, imitam linhas telefónicas interrompidas. Durante a jornada até ao lago, Ernesto detinha-se frequentemente e ia assinalando no compêndio da selva as plantas utilizadas na medicina local. Motaku para eliminar parasitas, yuquilla para problemas nos olhos, matico para a febre, copaybo para o reumatismo, etc., etc. A HIPÓTESE DO JAGUARAté à orla da selva são cerca de uma vintena de quilómetros, primeiro por uma estradão de terra que leva a Tumupasa, com o território do Parque Madidi à esquerda, e depois por um caminho estreito que vai penetrando cada vez mais em densa vegetação. No dia anterior, três habitantes da aldeia, Félix, Jesus e Demétrio, haviam partido à frente para preparar o acampamento numa clareira aberta entretanto junto a outro lago. Após cinco horas de caminhada por trilhos que só o guia conseguia decifrar, chegamos ao acampamento, onde Félix, o cozinheiro, preparava a primeira refeição do dia, peixe apanhado pouco antes no lago. Jesus, o caçador, que veio ao nosso encontro, havia tentado, sem êxito, conseguir uma peça de caça para o almoço. Pelo caminho repetiram-se as explicações sobre as plantas medicinais utilizadas pela comunidade, intercaladas de silêncios súbitos para propiciar a observação de macacos, capivaras, taitetus ou parabas, uma espécie de araras tão coloridas quanto ariscas.
O local escolhido para o acampamento deverá albergar mais tarde outro núcleo de cabanas de madeira para acolhimento dos turistas. A menos de cinquenta metros passa o Arroyo Concepción e o lago está a menos de dez minutos de caminhada. São ambos locais propícios à observação da bicharada. Após o jantar, já noite escura, com o auxílio de lanternas dirigimo-nos ao lago e ali pudemos observar os olhos luminosos dos caimões. Antes do anoitecer eu havia interrogado Ernesto sobre a presença de outra espécie, provavelmente uma das mais belas de toda a América, o jaguar. Nos últimos tempos não havia observado nenhum nas redondezas, mas era sempre possível que se aproximassem do acampamento se sentissem a presença humana. Entre os incessantes ruídos da floresta que tornam impossível o silêncio durante toda a noite, ouvimos a madrugadas tantas uns passos decididos rondando a clareira. Mas nem Ernesto nem os outros membros da expedição puderam assegurar a identidade do visitante nocturno. A aventura maior acabaria por chegar no dia seguinte, após outras cinco horas de caminhada até à orla da selva. No local combinado, haviam faltado ao encontro as motorizadas-táxi. Com o aproximar da noite não nos restava outra solução que meter os pés ao caminho. Jesus e Demétrio, carregados com o equipamento, partiram por um atalho em direcção a Bella Altura. Eu, Ernesto e Félix, lançamo-nos em direcção à picada de Tumupasa, na esperança - que se revelaria vã - de conseguir um transporte que evitasse uma caminhada de mais quinze quilómetros. Tal só veio a acontecer já noite dentro, em San Isidro. Aí nos separamos. Ernesto e Félix desapareceram por um carreiro que levava a Bella Altura. Na vegetação que se adivinhava sob os raios do quarto crescente, milhares de pirilampos coreografavam a sua cintilante dança nupcial.
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