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VIAGENS EUROPA » ISLÂNDIA » ISLÂNDIAIslândia
ISLÂNDIA, SOB O SIGNO DO FOGOO nome dá uma ideia do que nos espera: “Ísland”, Terra de Gelo. E o nome não se deve apenas ao clima frio: a própria natureza é árida e agreste como gelo. Sobre o chão de lava escura pouco consegue crescer para além de líquenes e algumas plantas rasteiras; é a esta quase completa ausência de árvores que se deve a velha piada “se estiver perdido numa floresta islandesa, levante-se”.
Em Skaftafell, um dos parques naturais favoritos dos islandeses, umas bétulas finitas são carinhosamente visitadas por famílias, mas só por comparação com a magra vegetação do país é que podem ser classificadas de “árvores”. As que existiam foram sendo destruídas pelos primeiros colonos, e os rigores climáticos tornam o crescimento da flora extremamente lento - no Verão, as temperaturas não costumam ultrapassar os 14° C. Cerca de um terço da ilha fica acima dos seiscentos metros de altitude e as montanhas tomam cores irreais graças à actividade vulcânica, com o sopé muitas vezes debruado a amarelos-enxofre, acompanhado de fumarolas e lagos de lama cinzenta e borbulhante. Este deve ser o melhor local do mundo para observar os movimentos de transformação do planeta. Para além das fumarolas e dos campos de lava, também há géiseres fabulosos, como o Strokkur, que chega a atingir vinte metros de altura - não admira que a palavra géiser venha do islandês geysir. VULCÕES NA ISLÂNDIA
Quanto a vulcões, são mais de cem, e o Hekla e o Katla continuam perigosamente activos; mesmo debaixo das calotas de gelo, como a do Vatnajokull, que atinge os mil metros de espessura, brota o fogo da terra, derretendo e alterando constantemente a forma do glaciar. Enquanto ao longo da costa o mar banha os sandur, deltas de areia negra, o interior é de uma aridez lunar: planaltos desérticos de lava em vários tons de negro, rochas enormes, vulcões e rios que descem dos glaciares, mas que não conseguem dar vida às margens. De vez em quando, gigantescas quedas de água, como a Dettifoss, que tem o maior caudal da Europa (quinhentos metros cúbicos por segundo), atroam por desfiladeiros cada vez mais profundos. Quanto à actividade sísmica, basta dizer que Thingvellir, local histórico onde se reunia o que é considerado o mais antigo parlamento do mundo, também é o local de encontro entre as placas tectónicas europeia e americana. Felizmente os islandeses não são indiferentes a nada disto. Faz parte da educação colectiva a responsabilização de cada um em relação a um equilíbrio tão precário, como é o da natureza nesta ilha. De forma pragmática e sistemática, o país aproveita os seus recursos sem os destruir. Por exemplo, o indispensável aquecimento dos edifícios é feito, em mais de 90% dos casos, através do aproveitamento geotérmico; o sistema eléctrico é alimentado quase na totalidade por fontes geotérmicas e hídricas. Mais do que isso, a Islândia tem ainda um projecto pioneiro para aproveitamento do hidrogénio líquido, que deve levar à substituição total dos combustíveis fósseis num prazo de trinta anos. REIQUEJAVIQUEA capital, Reiquejavique, é igual a todas as povoações que encontramos pela ilha fora, só que um bocadinho maior. Os prédios são raros e nunca muito altos, o trânsito é desafogado, as ruas largas, os canteiros ajardinados com flores garridas. Cerca de cento e setenta mil de um total de duzentos e cinquenta mil habitantes, vivem aqui. As ovelhas são bem mais abundantes: ultrapassam as setecentas mil, três vezes mais do que os islandeses. Akureyri, a segunda cidade, fica na costa norte, mas a paisagem urbana é a mesma, feita de casinhas baixas e garridas com um inexplicável ar de pré-fabricado.
A cerca de quarenta quilómetros da capital, a lagoa Azul deu fama à central geotérmica que lhe está adjacente. Só aqui nos podemos banhar ao ar livre em água naturalmente aquecida, opaca e azulada, num cenário de chaminés metálicas que nos remete para um filme de ficção científica. Na encosta do vulcão Krafla, um dos vinte e quatro furos com mais de dois mil e trezentos metros de profundidade, expele vapor a duzentos graus centígrados e o rugido assustador de uma panela de pressão prestes a rebentar. Junto ao lago Mývatn podemos apreciar a permanente reformulação da ilha: quando um dos vulcões da zona lançou lava para os pântanos que ali existiam, formou-se uma fila de falsas caldeiras, redondas e alinhadas, na borda do lago. Estes são apenas alguns dos locais onde é possível ver e sentir o nascimento e transformação do que é considerado como o mais jovem país da Europa, geologicamente falando. Dizem os cientistas que, dentro de alguns milénios, se não tivermos conseguido acabar de vez com o planeta, é possível que existam até duas Islândias; uma linha de tensão avança de norte a sul da ilha, rasgando-a em duas, atravessando o glaciar de Vatnajokull em direcção a Fjallabak. O encanto da Islândia resulta justamente deste seu lado selvagem e do carácter efémero da sua beleza. Glaciares de um azul arrepiante, fumarolas sibilantes, lagoas de lama pálida e cones escuros de vulcões silenciosos são as memórias que ficam desta ilha feita de fogo. QUEM MORA NA ISLÂNDIAIntitulam-se “filhos dos vikings” porque, à parte algumas mal provadas permanências de monges irlandeses, os primeiros e definitivos colonos foram, de facto, escandinavos, sobretudo noruegueses. Entre 800 e 1066, durante o terror dos raides vikings que assolaram e ocuparam quase todo o território da Irlanda e da Grã-Bretanha, chegando mesmo à costa do Norte de África, muitos foram os nativos destas ilhas que se refugiaram na Islândia, misturando-se com as populações locais. A ilha tornou-se muito cedo uma província da Noruega e passou para as mãos da Dinamarca durante a União de Kalmar, que reunia estes dois países e a Suécia. A independência total só chegou em 1944. Tal como na Escandinávia, é nas sagas que podemos encontrar referências à vida dos primeiros colonos.
O isolamento relativo da ilha e a sua reduzida povoação não apagaram as suas raízes nórdicas, mas “congelaram” a língua, por exemplo; ainda hoje se fala uma língua arcaica, muito próxima da dos vikings - uma espécie de latim escandinavo. O mais antigo parlamento do mundo, o Althing, nasceu no século X, o que faz com que muitos considerem esta república a primeira democracia da Europa. Poderíamos acrescentar que é também uma das mais verdadeiras, dado que conjuga um sistema de saúde abrangente, uma assistência social sem exclusões e pouca diferença de salários entre, por exemplo, um médico e um pescador especializado. Ainda por cima, trabalhar é mesmo um hábito; os estudantes trabalham nas férias, que vão de Maio a Setembro, e muitos adultos arranjam trabalhos extra, já que o nível de vida da ilha não se compadece com férias. Tudo é importado, à excepção do peixe, dos derivados de ovinos e pouco mais, o que torna o país num dos mais caros do mundo. No século XI, o cristianismo foi adoptado como religião do país, substituindo o panteão de deuses nórdicos. Apesar disso, a moral cristã nunca foi completamente absorvida pela população no que diz respeito, por exemplo, ao casamento. Ainda hoje, um terço das crianças da ilha nascem de pais muito jovens e não casados, sem que isso seja um problema para as respectivas famílias. E também por aqui continuam as histórias de duendes, fadas e gnomos, que habitam em determinados locais, cuidadosamente evitados por muitos. Diz-se que chegaram mesmo a ser alteradas construções e alguns traçados de estradas, para não incomodarem estas criaturinhas vingativas. A ISLÂNDIA AO NATURALA Islândia é uma das maiores ilhas do Atlântico Norte, com pouco mais que a área de Portugal. O Círculo Polar Árctico passa poucos quilómetros a Norte da ilha principal, na pequena ilha de Grímsey. Geologicamente, é o mais jovem país da Europa e um dos vulcanicamente mais activos a nível mundial. De vez em quando uma erupção ocorre e o país é presenteado com mais uns quilómetros de território; foi o caso da ilha de Surtsey, por exemplo, que “nasceu” em 1963.
A nível da flora, para além dos líquenes que formam a tundra e de algumas bétulas dispersas, a zona mais rica e diversificada encontra-se na área do Parque Nacional de Skaftafell, no sul da ilha. As bétulas são maiores, assim como a sorveira. Abundam as saxifragas, angélicas e campainhas, e começam a fixar-se alguns salgueiros. Quanto à fauna, convém lembrar a abundância de peixes de águas frias, que incluem o nosso amigo bacalhau, para além de uma série de mamíferos aquáticos, como as focas do Árctico e dezassete tipos diferentes de baleias, a quem os islandeses não dão muito descanso apesar de todos os apelos internacionais. Mais em terra, depois de as renas terem sido consideradas extintas nos anos trinta, e de os ocasionais ursos polares serem sempre expulsos para o mar a tiros de caçadeira, resta destacar as raposas e as martas, para não falar na abundância de ovelhas e dos característicos cavalos islandeses. A ilha é particularmente rica em aves. Para além de uma série de espécies vulgares, como gaivotas e carriças, também existem grandes colónias de moleiros grandes, de papagaios-do-mar, e diversos grupos de gansos e patos distribuídos pelos lagos e pântanos do país. Os insectos fazem-se representar por algumas borboletas e uns mosquitos que, a avaliar pela sua voracidade, devem ser aparentados com vampiros.
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