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Viagens ao Atlas, Marrocos
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VIAGENS ÁFRICA » MARROCOS » ATLAS

Atlas, Marrocos

A poucas centenas de quilómetros do Mediterrâneo, o Atlas - a maior cadeia montanhosa do norte de África - é ponto de passagem para quem parte em busca das areias do deserto. Mas nele bate também o coração do Marrocos profundo, onde um povo resiste contra as adversidades da política, da história e da natureza. Viagem ao Atlas, em Marrocos.

Por Humberto Lopes

Onde fica o Atlas [Google Earth]?



VIAGEM AO ATLAS, ENTRE O SILÊNCIO DOS BERBERES

Nas Colunas de Hércules, ao sul da Península Ibérica, os continentes europeu e africano fazem-se mais próximos, separados por um canal de pouco mais de uma dezena de quilómetros. Aí, entre Ceuta e Gibraltar, as águas do Mediterrâneo lançam-se em comunhão com as do Atlântico. A designação desta passagem estreita bebe no imaginário mitológico da Grécia antiga, por mor de um episódio que narra uma viagem de Hércules por estas paragens. Para realizar o penúltimo dos seus "doze trabalhos", o herói buscou o auxílio do desafortunado Atlas, condenado a expiar na região mais ocidental do norte de África uma rebelião contra Zeus. Tal como contava Hesíodo, o castigo estava à altura da desmedida força do irmão de Prometeu, que assim se viu obrigado “a suportar às costas para sempre / o cruel peso do mundo esmagador / e a abóbada do Céu”.

Viagens: Atravessando o Atlas em direcção a Ouarzazate, em Marrocos
Atravessando o Atlas em direcção a Ouarzazate, Marrocos

Estes enredos mitológicos passam, obviamente, ao largo da cultura dos povos que habitam a cadeia montanhosa do Alto e do Médio Atlas, mesmo se o nome das montanhas mais elevadas do norte de África evoca o nome do semideus grego. Os Berberes encontram-se na região há quatro mil anos e, apesar da conversão ao islamismo por volta de finais do século VII, a sua cultura e o seu espírito de independência lograram resistir às sucessivas vagas de invasores, dos romanos aos árabes, passando pelos franceses da época do protectorado. Em 1919, líderes berberes do Rif chegaram a ameaçar seriamente o poder colonial, lançando uma série de ataques contra fortalezas espanholas do norte do território. A resistência dos Berberes face aos Árabes recém-chegados afirmou-se logo com determinação no século VIII, quando aderiram à heresia kharédjita e tentaram expulsar os invasores dos territórios do Magreb. A cidade de Marraquexe, que viria a ar nome ao país, foi fundada, aliás, na sequência de uma rebelião berbere que alastrou rapidamente pelo sul e centro do território e que abriu as portas à primeira grande dinastia da história de Marrocos, a dos Almorávidas.



DE MEKNÈS, CIDADE IMPERIAL, A AZROU, AGUARELA BERBERE

Durante o protectorado francês, que durou até à independência, em 1956, o país conheceu a construção de estradas e do caminho-de-ferro, mas a modernização cingiu-se praticamente a algumas cidades do litoral e a Rabat, a nova capital. No interior, e sobretudo nas montanhas, a economia permanece ainda hoje fortemente ligada à agricultura de subsistência e à pastorícia. A paisagem dos vales mais abrigados é desenhada frequentemente por socalcos cultivados junto a duares (povoados) de casas em adobe, de estrutura muito simples e com chão em terra batida. Alguns cereais como o trigo, o sorgo e a cevada, além de legumes, ocupam as reduzidas áreas de cultivo.

Viagens Atlas, Marrocos
Neves de primavera no maciço do Alto Atlas

Meknès, que tal como as outras cidades imperiais se caracteriza por uma dualidade urbanística - a zona nova, de traça colonial, e a velha medina - detém uma excelente localização para iniciar um dos dois percursos essenciais através do Atlas. A cidade é também um dos sítios ideais para obter informação e preparar alguns percursos de trekking pelo Médio Atlas. Azilal, nas imediações das cascatas de Ouzoud, é outro ponto de partida aconselhável para expedições na região, enquanto para o Alto Atlas, nomeadamente para o maciço do Toubkal, serão mais convenientes as cidades de Marraquexe e Ouarzazate.

Apesar da geografia acidentada do interior - a cadeia montanhosa do Atlas atravessa obliquamente o território de Marrocos, desde os planaltos argelinos até Agadir - existe uma boa rede de estradas asfaltadas que dispensam a necessidade de recorrer a um veículo todo-o-terreno, a não ser que esteja nas intenções do viajante chegar às aldeias mais remotas ou cruzar as pistas que separam Rissani das dunas do Erg-Chebbi.

A subida da montanha leva-nos até Azrou, uma povoação de origem berbere, e uma das poucas onde é possível encontrar alojamento convencional, a par de Ifrane, a 17 km, uma estação de esqui conhecida localmente como a “suíça marroquina”. Azrou tem crescido rapidamente, mercê da atracção que tem exercido sobre as aldeias das redondezas, debilitadas economicamente por causa das secas. Terça-feira é dia de mercado, cujo recinto se encontra do lado de fora da parte mais antiga do povoado. O mercado nada tem de bugigangas produzidas para turistas, apenas os bens essenciais às comunidades berberes, gado, produtos frescos, utensílios, farinha de centeio, tâmaras, açúcar para o chá, roupas e tecidos toscos como o ahendir, uma espécie de manto listado usado pelas mulheres no inverno. Alguns comerciantes de tapetes armam por lá o seu estendal e pode ser boa ocasião para negociar - mas convém ir cedo porque os melhores desaparecem num ápice.



OS ÚLTIMOS NÓMADAS DAS MONTANHAS

A caminho de Midelt, surgem vários desvios a partir da estrada principal que conduzem a povoações menos frequentadas por turistas, facto que modela o acolhimento da população. À excepção de crianças que correm para os automóveis na ilusão de um presente - a maioria pede ”un styloz”, mesmo se não frequenta a escola -, são raras as ofertas insistentes de guias, como acontece em locais mais tocados pelo turismo. Uma boa parte destas crianças poucas palavras pronuncia em francês. Fitam-nos em silêncio, por vezes, num misto de timidez e atrevimento, e esse é também o silêncio mais interior de um território quase sem existência para os poderes centrais.

Aldeia berbere no Atlas
Aldeia berbere no Atlas

A língua berbere é a mais falada no quotidiano destas populações e, para um povo que não possui escrita, tem representado um importante instrumento de resistência cultural. Cerca de um terço da população do país fala berbere, língua que é, aliás, maioritária em algumas regiões, como no maciço do Toubkal e no Médio Atlas. Quanto ao analfabetismo, a taxa é muito elevada, atingindo em algumas zonas rurais mais de 80%. Uma das apostas estratégicas para o desenvolvimento anunciadas recentemente pelo novo rei Mohammed VI passa pela escolaridade obrigatória e gratuita para as crianças dos 6 aos 15 anos, uma política de educação que visa reduzir radicalmente o analfabetismo até 2015 e que deverá começar a ser posta em prática já a partir do próximo ano.

No percurso para Ain Leuh atravessamos uma região com florestas de altitude, e é exactamente ao longo da estrada de Azrou para Kenithra que surgem bosques de cedros gigantes e colónias de macacos semelhantes aos que povoam o rochedo de Gibraltar. O maior dos cedros atrai para a sua sombra um amplo leque de curiosos e com causa justificada: o prodígio tem mais quarenta metros de altura e dez de diâmetro. A paisagem em algumas passagens deste trecho do Atlas bem podia ser confundida com a de certas regiões montanhosas da Europa. Aqui, são frequentes os rebanhos de ovelhas vigiadas por pastores nómadas dispersos por pastagens que persistem ainda ao longo da Primavera. Mas Marrocos tem enfrentado nos últimos anos o flagelo da seca: das treze secas históricas ocorridas desde 1940, oito foram registadas entre 1980 e 1998 - e a de 2000 foi fatal para o agravamento da importação de cereais. Na zona de Midelt, onde no início da Primavera ainda é possível ver alguma neve invernal, os solos das pastagens estão em degradação por sobreutilização e muitos pastores nómadas começam a trocar a sua actividade por outras mais sedentárias.



SALTOS DE ÁGUA DE CEM METROS

A centena de quilómetros que separa Azrou de Kenithra desenha uma fita negra que acompanha a cordilheira a leste e reserva outras surpresas ao viajante. O lago Aguelman costuma atrair várias espécies de aves e não muito longe podemos acercar-nos das fontes que alimentam, em cascata, o maior dos rios de Marrocos, o Oued Um. As cascatas não têm o esplendor e a dimensão das de Ouzoud, que havemos de admirar mais adiante, já depois de Beni-Mellal, mas são também mais sossegadas. Em Ouzoud, indiferentes à algazarra das centenas de visitantes que descem até ao fundo em busca de um refrigério para o calor, as águas tombam de um altura de cem metros e formam lá em baixo um pequeno lago que convida a uns mergulhos. Os amantes das caminhadas têm aqui outra oportunidade de dar corda aos pés, seguindo o curso do rio até às gargantas do Oued el-Abid.

Para quem optar pela rota do Midelt em direcção ao vale do Oued Ziz, a transição rápida da paisagem representa um suplemento de emoção. Ao longe ainda se avistam os cumes nevados da cordilheira central do Atlas, mas em primeiro plano a vegetação rasteira dá lugar a um áspero manto de pedras e terra seca. Num abrir e fechar de olhos, a estrada inicia a descida e mergulha num monumental vale desértico ladeado por montanhas escalvadas. Os sentidos acordam definitivamente sob a ardente campânula de luz, enquanto o vento quente do deserto semeia murmúrios em volta.


O Atlas visto do vale do Ziz, Marrocos
O Atlas visto do vale do Ziz
Viagens: Atlas, Marrocos
Paisagem a caminho de Midelt


GUIA DE VIAGENS


VIAGENS PARA MARROCOS

Marrocos é, obviamente, o país do Magreb mais acessível a quem viaja a partir da Península Ibérica. É possível organizar uma viagem em viatura própria para o Atlas marroquino, não necessariamente um todo-o-terreno, embora o acesso a certas regiões exiga ou aconselhe um veículo desse tipo.


QUANDO VIAJAR PARA O ATLAS

As melhores épocas para visitar Marrocos são o Outono e a Primavera. Durante o Verão, sobretudo Julho e Agosto, as temperaturas são mais elevadas, sobretudo no sudeste. À excepção do Inverno, qualquer época é boa para os trekkings no Atlas.




LINKS ÚTEIS

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