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Ecoturismo nos Bijagós e outros parques naturais
Viagens 5 Estrelas

VIAGENS ÁFRICA » GUINÉ-BISSAU » BIJAGÓS

Parques Naturais da Guiné-Bissau

Existem no território guineense quatro regiões com assinalável interesse para o ecoturismo ou turismo de Natureza. Uma delas, no sul, está já integrada num parque nacional. E as autoridades do país sonham com a classificação do arquipélago dos Bijagós como Património Mundial. Viagem ao encontro das belezas naturais da Guiné-Bissau.

Por Humberto Lopes | 20.Mar.2009



GUINÉ-BISSAU - TANTOS RIOS, TANTAS ILHAS

Uma breve observação do mapa dá conta da singularidade do território da Guiné-Bissau na costa ocidental africana. Os países situados imediatamente a norte e a sul, Senegal, Gâmbia, Guiné-Conacri e Serra Leoa, têm um litoral relativamente pouco recortado, comparado com a costa guineense. Para além do extenso de número de ilhas que formam o arquipélago dos Bijagós, rios de significativos caudais desaguam no Atlântico ao longo do litoral do país de Amílcar Cabral. Depois das naus lusitanas ali ancorarem, em meados do século XV, o território começou a ser justamente referenciado como os «Rios da Guiné» na setecentista geografia lusitana.

Ecoturismo na Guiné-Bissau
Parque Nacional Cantanhez, Guiné-Bissau

Apesar da modesta dimensão do país, cerca de um terço de Portugal, a Guiné-Bissau é caracterizada por razoável diversidade paisagística e reúne vários ecossistemas. Ao longo de quase todo o litoral e no arquipélago dos Bijagós predomina a floresta de mangue, com extensões importantes no contexto da África Ocidental. Em certas regiões do interior leste o cenário lembra a proximidade do Sahel. No sul, perto da fronteira com a Guiné-Conacri, há importantes manchas de floresta tropical. A necessidade de assegurar a gestão desses espaços e de planear novas reservas naturais levou à criação, em Dezembro de 2004, do Instituto da Biodiversidade e das Áreas Protegidas (IBAP).

Em quase todas essas áreas, e com o envolvimento das comunidades locais, estão em curso projectos de desenvolvimento de infra-estruturas e de actividades geradoras de rendimento para as populações, como a apicultura, a pesca ou a transformação do pescado. Um financiamento de onze milhões de dólares assegurados pelo Banco Mundial, através do Fundo Mundial para o Ambiente, apoia programas desenvolvidos em parcerias que associam o IBAP a várias entidades, como ONG's locais e internacionais e, ainda, a World Conservation Union.



TURISMO DE NATUREZA E O ARQUIPÉLAGO DOS BIJAGÓS

A Reserva Natural dos Tarrafes do Rio Cacheu é a área protegida mais próxima da capital e a de mais fácil acesso. Dos oitenta mil hectares que constituem a área do parque, localizado junto à fronteira com a província senegalesa de Casamansa, quase 70 por cento estão cobertos de floresta de mangue. É o maior bloco contínuo de mangal (que em crioulo se designa por tarrafe) de toda a África Ocidental.

Viagem Bijagós: Parque Nacional Cantanhez, Guiné-Bissau
Parque Nacional Cantanhez, Guiné-Bissau

No centro do país, muito próximo da cidade de Buba, está o Parque Natural das Lagoas da Cufada, a maior lagoa de água doce do país, que se estende por quase noventa mil hectares. Para além da fauna autóctone, é um importante ponto de acolhimento de aves europeias que ali vão passar o Inverno.

O Parque Nacional das Florestas de Cantanhez, no sul, é a mais recente área natural da Guiné a ser objecto de protecção legal. A reserva foi criada por decisão governamental em Março de 2007. As matas de Cantanhez, situadas ao longo da fronteira com a Guiné-Conacri, constituem a última mancha de floresta primária da Guiné-Bissau e são habitat de várias espécies. A zona acolhe, nomeadamente, populações de chimpanzés que estão a ser objecto de estudo.

O arquipélago dos Bijagós, com cerca de 80 ilhas, é o espaço natural guineense mais conhecido além-fronteiras e o que beneficia há mais tempo de um regime de protecção - desde 1996 que integra a Reserva da Biosfera. As zonas mais antigas abrangidas por protecção oficial (desde Agosto de 2000) são o Parque Nacional de Orango e o Parque Nacional Marinho de João Vieira e Poilão, que se situam no sul e sudeste do arquipélago. O primeiro ocupa uma área de quase 160 mil hectares e compreende cinco ilhas - Orango, Orangozinho, Meneque, Canogo e Imbone - e, ainda, um punhado de ilhéus. Na zona norte do arquipélago há ainda uma outra reserva, a Área Marinha Protegida Comunitária das ilhas Formosa, Nago e Cheidã.

O turismo de natureza tem ainda pouca expressão no país, embora a valorização dos recursos naturais passe também, a nível oficial, pelo desenvolvimento de actividades desse tipo. Estão previstas acções concertadas entre o IBAP e as autoridades guineenses que tutelam o turismo, designadamente a elaboração de um plano director para o desenvolvimento turístico nas ilhas e noutras áreas protegidas. Mas a decisão recente mais relevante do IBAP e do governo guineense foi a apresentação de uma candidatura das áreas protegidas do arquipélago dos Bijagós a Património Mundial, aguardando-se agora a decisão da UNESCO.



HIPOPÓTAMOS, CROCODILOS, TARTARUGAS

Ilha de João Vieira, no arquipélago dos Bijagós
Ilha de João Vieira, no arquipélago dos Bijagós

Nenhuma surpresa: Bolama, a primeira capital da Guiné, é um cenário com marcas do tempo. Há casario colonial em ruína, outro retoma fôlego, quiçá por mais algumas décadas, até à eventual retoma do ciclo de decadência. Contudo, como acontece com outras dos Bijagós, a ilha tem um potencial peculiar para reviver a experiência de Lázaro. Mas seria preciso, naturalmente, que o país, ou a política da capital, levasse outro rumo. Ainda assim, vale a pena a navegação de três horas de Bissau a Bolama em canoa pública sobrelotada, a baloiçar no fio da navalha. A gasolina chega?, não chega?, perder-se-á a barca Air Afrique à deriva, como acontece por vezes como outras naves? Para já, o Biricumba, mais leve, mais rápido, quase vazio!, deixa-nos para trás... e longe da vista está, ainda, a floresta densa que habita a mais próxima ínsula do arquipélago.

Os outros Bijagós são superlativos santuários de natureza. Bubaque é um bom ponto de partida para a exploração das ilhas, a não ser que se contrate previamente, a partir de Bissau, incursões a Orango e a João Vieira, por exemplo. No Parque Nacional de Orango, para além das aves migradoras e locais que nidificam nas ilhas, há várias espécies de mamíferos aquáticos: hipopótamos, crocodilos, lontras, tartarugas e golfinhos. Em terra, as florestas são morada de macacos e gazelas. O Parque Nacional Marinho de João Vieira e Poilão abrange quatro ilhas que não são habitadas permanentemente e que apenas são utilizadas pelas populações das tabancas de Canhambaque para fins cerimoniais e agrícolas. A ilha é o local mais importante de todo o Atlântico Oriental para a desova da tartaruga verde.



ÁGUAS MIL

Viagem Guiné: embarcação no rio Cacheu
Embarcação no rio Cacheu

Uma rua, apenas uma rua, que depois se transforma na estrada para Canchungo, e uma praça de tonalidade vagamente colonial. Aquela que foi a primeira cidade fundada pelos portugueses na região conserva ainda um pequeno forte, assaz modesto como testemunho simbólico. Ribeirinha, a praça tem no centro uma laje ostensiva (a evocar uma vela ou uma proa?), de onde foram raspados os símbolos do ex-ocupante. E, aos pés, o rio, o grande rio Cacheu, cujas águas mil mal deixam ver na outra margem a imensa mancha de floresta de mangue que se estende até à fronteira com o Senegal. A canoa pública, uma barcaça de madeira com capacidade para meia centena de passageiros, há-de sair quando a maré estiver de feição, requisito imprescindível para se navegar nos copiosos rios da Guiné. São duas, três horas, até São Domingos, povoado fronteiriço. Pelo caminho, com sorte, entre os belos meandros com que o rio abraça os mangais, avistar-se-á alguma da fauna local. E com toda a certeza navegaremos por momentos a par das minúsculas canoas com que os pescadores das tabancas da zona andam diariamente à pesca e na faina da recolha de ostras.

A Reserva Natural dos Tarrafes do Rio Cacheu, que faz justiça à aura de paraíso de mangais, abriga nos seus 80 mil hectares duas centenas de espécies de aves, incluindo flamingos e papagaios. Mas existem, também, embora nem sempre ao alcance do olhar do viajante, crocodilos, hipopótamos, gazelas, hienas e macacos.



AVES DE PASSAGEM

À primeira vista, é o que a nossa ria de Aveiro poderia ser, não fosse o betão a ferir, por cá, a paisagem em todos os quadrantes. A Lagoa da Cufada é uma rede de espelhos de água e planuras verdes rodeada por floresta que resiste bem ao estio africano. A época das chuvas na Guiné começa em Maio, mas mesmo com escassas águas, não falta viço à paisagem.

Lagoas da Cufada, ecoturismo na Guiné-Bissau
Parque Natural das Lagoas da Cufada

As Lagoas da Cufada estão classificadas como “zona húmida de importância internacional”, tendo a Guiné-Bissau aderido à Convenção de Ramsar e, em sequência, criado um regime legal de protecção dos ecossistemas locais. O Instituto de Conservação da Natureza, juntamente com outras entidades portuguesas, participou na preparação e realização do projecto do parque.

O Parque Natural das Lagoas da Cufada abrange uma área de noventa mil hectares, na qual está inserida uma comunidade de cerca de três mil pessoas distribuídas por trinta e três tabancas. Os passeios pelas lagoas permitem a observação de várias espécies de aves, residentes ou migradoras, como flamingos, pelicanos e tucanos. Entre a fauna aquática abundam mamíferos como hipopótamos, manatins e crocodilos. Em terra, com sorte, o olhar do visitante pode tropeçar ocasionalmente com gazelas, porcos do mato e antílopes.



REINO DE CHIMPANZÉS

A partir do cruzamento de Mampatá, a estrada ruma em direcção a sul e segue depois paralela à fronteira com a Guiné-Conacri. É uma picada longa e estreita, de terra vermelha, entre palmares e floresta seca, e solitários embondeiros, que atravessa uma região que nos tempos coloniais estava sob firme controlo do PAIGC e onde se travaram algumas das mais duras batalhas da guerra de libertação. Em Guileje contornamos a rede de afluentes do Rio Cacine e ao fim de mais duas horas de solavancos chegamos a Jemberem, no cerne das florestas sagradas do sul. No dia seguinte, de madrugada, partimos a pé para o Mato de Cambeque, tentando um encontro com um dos vários grupos de chimpanzés que habitam as florestas tropicais guineenses.

Ecoturismo: Bolama, arquipélago dos Bijagós
Bolama, arquipélago dos Bijagós

A floresta húmida que caracteriza as catorze matas que constituem o Parque Nacional de Cantanhez cobre uma área superior a 100 mil hectares e conserva flora rara. Entre a fauna, para além de chimpanzés, há várias espécies de macacos, como o macaco fidalgo, e, ainda, antílopes, gazelas, pavões e várias espécies de tucanos. O WWF classifica as matas de Cantanhez como uma das duzentas eco-regiões mais importantes do mundo.

Mesmo antes da criação oficial do parque já havia restrições a algumas actividades como a caça e o desmatamento para cultivo de arroz. Tendo em vista o perspectivado desenvolvimento do turismo de natureza, a direcção do parque, com a cooperação da AD (Acção para o Desenvolvimento), uma ONG, formou dezena e meia de guias. Com os novos bungalows praticamente concluídos, a reserva está pronta para receber visitantes.



GUIA DE VIAGENS


QUANDO VIAJAR PARA A GUINÉ-BISSAU

A estação das chuvas decorre de Junho a Outubro. A melhor época para visitar a Guiné-Bissau é, portanto, o período entre Novembro e Maio. Os meses mais amenos são Dezembro e Janeiro.


COMO CHEGAR À GUINÉ-BISSAU

Pesquisa e reserva de voos na eDreams

A TAP e a TACV dispõem de voos entre Lisboa e Bissau. Uma forma de contornar as pesadas tarifas da operadora portuguesa é explorar as alternativas da Iberia e da Air Europa, que voam de Madrid para Dakar. Da capital senegalesa, as ligações para Bissau são asseguradas pela Air Senegal e pelos TACV. Esta última companhia tem também voos de Lisboa para Bissau via Sal ou Praia. O acesso aos Bijagós pode ser feito em canoa pública (para Bolama e Bubaque), com relativas condições de segurança ou utilizando o Expresso dos Bijagós, um antigo cacilheiro lisboeta que sai à sexta-feira e regressa a Bissau no domingo, em horário dependente das marés (e das avarias e outros imprevistos). Há também a possibilidade de alugar uma avioneta (para Bubaque) ou um barco para 6 ou 10 pessoas (para Bubaque, Orango e João Vieira).

» Mais informações e reserva de voos



HOTÉIS NOS BIJAGÓS E OUTRAS REGIÕES

Rio Cacheu, Guiné-Bissau
Rio Cacheu, Guiné-Bissau

Em Bolama a AD dispõe de quartos para alugar (ad@mail.eguitel.com). Em Bubaque, há mais alternativas. As melhores são a Kasa Africana e o Hotel Le Calypso (calypsohotel@neuf.fr). Mais em conta e muito popular é a pousada da D. Dora (susybubaque@gmail.com), também conhecida por Aparthotel Canoa. Há, igualmente, alojamento na ilha de João Vieira, o Chez Claude, e em Orango o Orango Parque Hotel (orangotel@sol.gtelecom.gw). O melhor poiso para visitar a Lagoa a Cufada é a Pousada Bela Vista, em Buba. Em Cacheu, há junto ao rio uma meia dúzia de bungalows com condições básicas, mas espaçosos e em sítio invejável: as madrugadas são embaladas pelo murmúrio das águas. Contacto para reservas: 2456641925. Para visitar o Parque Nacional de Cantanhez, o aldeamento de Jemberem é a base perfeita. Um pequeno conjunto de bungalows recentes está situado mesmo junto ao Mato de Cambeque. Com a excepção de Cacheu, em todos os alojamentos há serviço de restaurante. Aí, junto ao rio, há um pequeno “restaurante” onde se come, invariavelmente, peixe fresco e arroz. Os preços do alojamento variam entre 15.000 e 45.000 francos CFA (de 25 a 75 euros) consoante a qualidade. As melhores instalações são as de João Vieira e de Orango.


INFORMAÇÕES ÚTEIS

É necessário visto para a Guiné-Bissau, que pode ser obtido no Consulado Geral da Guiné-Bissau em Lisboa. Convém fazer a profilaxia da malária. A moeda local é o franco CFA. Os euros podem ser trocados nos bancos ou nas casas de câmbio à volta do mercado, em Bissau, ou nos melhores hotéis. As caixas multibanco só funcionam com cartões locais.


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