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Viagem à Guiné-Bissau
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Guiné-Bissau

Entre os países que fazem parte da CPLP - Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, a Guiné-Bissau é reputada como o menos desenvolvido - ou, sem eufemismos, como o mais pobre. Mas é terra que acolhe os viajantes com enorme hospitalidade. Relato de uma viagem emocional à Guiné-Bissau.

Por Humberto Lopes | 16.Abr.2008



GUINÉ-BISSAU, COM CAJU E COM AFECTO

Os caminhos de Portugal e do território onde se situa hoje a Guiné-Bissau cruzaram-se pela primeira vez há mais de quinhentos anos, por volta de meados do século XV. Pouco antes de 1450, os navegadores portugueses, que em sucessivas expedições exploravam a costa ocidental africana abaixo do Rio do Ouro e iam avançando cada vez mais para sul, percorreram a costa guineense mas não se aventuraram para o interior. O estabelecimento de um regime colonial só se viria a concretizar no século XIX, quando se estendeu para paragens interiores um sistema de exploração das riquezas da região. Até essa data, a Guiné serviu frequentemente de fonte do infausto e sombrio comércio de escravos que durou até ao século XIX, e no qual se envolveram também ingleses, holandeses e franceses. A história oficial dos colonizadores continua a dourar as narrativas; a outra, já ao tempo, ocupou algumas páginas de uma elucidativa publicação de Bartolomé de las Casas, a «Brevíssima relação da destruição de África».

Estrada de Bambadinca, Guiné-Bissau
Estrada de Bambadinca, Guiné-Bissau

Qualquer compêndio de história da região elucidará que o colonialismo foi na Guiné-Bissau igual a si mesmo. O português destacou-se, na costa ocidental africana, pela letargia e indiferença pelo desenvolvimento das populações, marcando substancial distância relativamente às potências colonizadoras dos territórios vizinhos, que introduziram infra-estruturas para facilitar a exploração dos recursos locais. A Guiné-Bissau permaneceu até ao momento da sua independência, em 1975, como um território cuja economia assentava quase exclusivamente na actividade agrícola. E ainda hoje, a par da pesca ao longo da rica e bela região costeira, é ainda o sector primário que constitui a principal fonte de sustento da população guineense.

Após o 25 de Abril de 1975, a Guiné-Bissau foi a primeira colónia portuguesa em África a tornar-se independente. Não por acaso, aliás: a luta pela libertação - que foi das mais longas em África - tinha sitiado politica e militarmente Portugal, e o PAIGC (Partido para a Independência da Guiné e Cabo Verde), dirigido por Amílcar Cabral, um dos mais carismáticos líderes africanos, controlava praticamente metade do território, tendo, inclusive, realizado eleições nas zonas libertadas, e obtido reconhecimento junto de várias dezenas de países.



FRAGILIDADES E POTENCIALIDADES DA GUINÉ-BISSAU

Não obstante a sua reduzida dimensão - cerca de trinta e cinco mil quilómetros quadrados, menos de metade do território português -, a Guiné-Bissau é um país com assinalável diversidade paisagística. Quase todo plano, com algumas terras altas no nordeste, reúne ecossistemas variados: no litoral e no arquipélago dos Bijagós predominam os mangais (dos mais importantes de África), no interior há florestas com um considerável potencial de exploração de madeira e, ainda, grandes extensões de savana. O norte é mais quente e seco, sofrendo influência do Sahel, enquanto as regiões do sul, mais húmidas, beneficiam de influência atlântica. O cajueiro - o país mantém níveis significativos de produção - é uma constante na paisagem, que se desenha também com os paradigmáticos embondeiros.

Viagem Guiné-Bissau: Forte em Cacheu
Forte em Cacheu

A cultura do arroz e do amendoim, assim como a pesca, são outras actividades relevantes do sector primário, que ocupa mais de dois terços da população. Também a esses níveis, o potencial de desenvolvimento é assinalável. O futuro que os guineenses aguardam há tanto tempo e merecem estará a caminho? Se partilharmos o optimismo da gente da Guiné, só pode estar escondido pela curva do horizonte.

Coexistem no território 23 grupos étnicos, sendo os de maior expressão os Balantas (um terço da população) e os Fula (20%). Quase metade dos habitantes tem menos de 15 anos, o que, à semelhança de muitos países africanos, significa uma população muito jovem - a taxa de fecundidade é, aliás, uma das mais altas de África. Os dados compilados pelo último relatório do PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) colocam o país no 172º lugar da lista, revelando as persistentes fragilidades da Guiné-Bissau em termos de desenvolvimento.

A criação do IBAP (Instituto da Biodiversidade e Áreas Protegidas), em 2005, resultou da vontade ds autoridades guineenses encetarem políticas de preservação ambientel e, também, de promoção de condições estruturais para o desenvolvimento do eco-turismo, uma área em que a Guiné-Bissau detém um assinalável potencial.



RESTOS COLONIAIS E TURISMO DE NATUREZA

O casario de matriz colonial em Bissau, a tranquila Bafatá, nas margens do rio Gêba (com uma soberba vista sobre a floresta de mangue do outro lado e também alguma arquitectura sobrevivente dos tempos coloniais), Cacheu e o seu velho forte português, os animadíssimos mercados populares, os ritmos irresistíveis dos Super Mama Djombo e o Arquipélago dos Bijagós constituem razões bastantes para inspirar os viajantes a meter os pés a caminho, o que significa igualmente que o país possui potencial para uma expansão rentável das actividades turísticas, tal como tem acontecido recentemente em Cabo Verde e em Moçambique. Infelizmente, a instabilidade política que se tem verificado desde a abertura ao sistema multipartidário e desde as primeiras eleições livres, no início da década de 90, não tem contribuído para atrair os necessários e urgentes projectos de investimento. Os últimos anos têm sido, todavia, anos de tranquilidade.

Viagem Bissau
Bissau Velho

No capítulo da natureza, a Guiné-Bissau tem um impressivo universo de atracções para oferecer ao viajante mais exigente. Há belas praias, como em Varela, Bubaque, Caravela ou Bolama (que conserva vestígios arquitectónicos da ocupação colonial), ou, ainda, embora menos acessíveis, em Cacine, no extremo sul do país. Nesta região, como em outras onde a natureza se encontra quase em estado bruto, o principal problema é, obviamente, de carácter logístico, faltando infra-estruturas de alojamento. Para as deslocações, é sempre possível partilhar uma canoa com os habitantes - a costa muito recortada e os inúmeros rios e reentrâncias tornam o transporte fluvial corrente e prático. Além do mais, é um tipo de experiência que facilita o conhecimento e amizade com as gentes da terra, abrindo oportunidade à integração dos visitantes nos ritmos de vida locais. A partir de Bissau, sai todas as sextas-feiras para a ilha de Bubaque o Expresso dos Bijagós, regressando domingo.

O Parque Natural dos Tarrafes do Rio Cacheu, no norte, a cerca de cem quilómetros da capital, é um dos dois grandes atractivos em termos de eco-turismo. Paraíso de mangais, a reserva abriga duas centenas de espécies de aves, incluindo flamingos e papagaios. Crocodilos, hipopótamos, gazelas, hienas e macacos habitam também a região. Para ver alguma bicharada, pode-se apanhar o barquinho que zarpa diariamente de Cacheu para São Domingos - são umas duas horas de aprazível navegação entre os mangais.

A menina dos olhos da mãe-natureza guineense é, todavia, o Arquipélago dos Bijagós, uma imensidão de ilhas e ilhotas relativamente próximas do litoral, parte das quais habitadas por comunidades de pescadores. Habitat de várias espécies e plantas raras, assim como de algumas populações de tartarugas marítimas, o arquipélago está classificado como Reserva da Biosfera. A ilha de Bubaque é o ponto de partida ideal para organizar expedições às outras ínsulas (alugando um barco), mas possui ainda um interesse especial para quem procure uns dias de repouso depois de vagabundear pelo país. A atmosfera é francamente relaxante, os caminhos imersos em verdes labirintos propícios a passeios de bicicleta (que pode ser alugada no local), e as praias magníficas, sobretudo a Praia Bruce, a uma vintena de quilómetros da cidade. Se a tudo isto acrescentarmos a infinita afabilidade da gente local, sempre optimista apesar dos obscuros torvelinhos da política, que mais pode pedir o viajante amador de África?


Viagens Guiné-Bissau: Rio Buba
Rio Buba, Guiné-Bissau
Rio Cacheu, numa viagem à Guiné-Bissau
Rio Cacheu
Rua de Bafatá, Guiné-Bissau
Rua de Bafatá, Guiné-Bissau
Viagens: Bolama, arquipélago dos Bijagós
Bolama, arquipélago dos Bijagós


GUIA DE VIAGENS


QUANDO VIAJAR PARA A GUINÉ-BISSAU

Os meses de Novembro a Março são os mais indicados para uma viagem à Guiné-Bissau. A partir de Abril as temperaturas sobem bastante e em Junho começa a estação das chuvas.


COMO CHEGAR À GUINÉ-BISSAU

Pesquisa e reserva de voos na eDreams

A TAP tem voos directos para Bissau todas as sextas-feiras, com regresso no mesmo dia. Uma alternativa é voar via Dakar, ou com a TACV via Sal ou Cidade da Praia, em Cabo Verde. De Bissau para a ilha de Bubaque, nos Bijagós, há um barco semanal - o Expresso dos Bijagós - com partida à sexta-feira e regresso ao domingo. Para a ilha de Bolama há canoas, com partidas irregulares (a informação pode ser obtida no porto)

» Mais informações e reserva de voos



HOTÉIS EM BISSAU

Fachada da Pensão Central, em Bissau
Fachada da Pensão Central, em Bissau

Em Bissau, o alojamento não é barato. A velha Pensão Central continua a ser uma referência. O Hotel Malaika e a Residencial Coimbra são outras opções a ter em conta.


INFORMAÇÕES ÚTEIS

Os portugueses precisam de visto para a Guiné-Bissau, que pode ser obtido no Consulado Geral da Guiné-Bissau em Lisboa, na Rua de Alconena 17, telefone 213009080. Aconselha-se a profilaxia da malária e a vacina contra a febre-amarela. Em termos de segurança, a Guiné-Bissau é considerado um dos países mais seguros de África.


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