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VIAGENS ÁFRICA » GUINÉ-BISSAU » GUINÉ-BISSAUGuiné-Bissau
GUINÉ-BISSAU, COM CAJU E COM AFECTOOs caminhos de Portugal e do território onde se situa hoje a Guiné-Bissau cruzaram-se pela primeira vez há mais de quinhentos anos, por volta de meados do século XV. Pouco antes de 1450, os navegadores portugueses, que em sucessivas expedições exploravam a costa ocidental africana abaixo do Rio do Ouro e iam avançando cada vez mais para sul, percorreram a costa guineense mas não se aventuraram para o interior. O estabelecimento de um regime colonial só se viria a concretizar no século XIX, quando se estendeu para paragens interiores um sistema de exploração das riquezas da região. Até essa data, a Guiné serviu frequentemente de fonte do infausto e sombrio comércio de escravos que durou até ao século XIX, e no qual se envolveram também ingleses, holandeses e franceses. A história oficial dos colonizadores continua a dourar as narrativas; a outra, já ao tempo, ocupou algumas páginas de uma elucidativa publicação de Bartolomé de las Casas, a «Brevíssima relação da destruição de África».
Qualquer compêndio de história da região elucidará que o colonialismo foi na Guiné-Bissau igual a si mesmo. O português destacou-se, na costa ocidental africana, pela letargia e indiferença pelo desenvolvimento das populações, marcando substancial distância relativamente às potências colonizadoras dos territórios vizinhos, que introduziram infra-estruturas para facilitar a exploração dos recursos locais. A Guiné-Bissau permaneceu até ao momento da sua independência, em 1975, como um território cuja economia assentava quase exclusivamente na actividade agrícola. E ainda hoje, a par da pesca ao longo da rica e bela região costeira, é ainda o sector primário que constitui a principal fonte de sustento da população guineense. Após o 25 de Abril de 1975, a Guiné-Bissau foi a primeira colónia portuguesa em África a tornar-se independente. Não por acaso, aliás: a luta pela libertação - que foi das mais longas em África - tinha sitiado politica e militarmente Portugal, e o PAIGC (Partido para a Independência da Guiné e Cabo Verde), dirigido por Amílcar Cabral, um dos mais carismáticos líderes africanos, controlava praticamente metade do território, tendo, inclusive, realizado eleições nas zonas libertadas, e obtido reconhecimento junto de várias dezenas de países. FRAGILIDADES E POTENCIALIDADES DA GUINÉ-BISSAUNão obstante a sua reduzida dimensão - cerca de trinta e cinco mil quilómetros quadrados, menos de metade do território português -, a Guiné-Bissau é um país com assinalável diversidade paisagística. Quase todo plano, com algumas terras altas no nordeste, reúne ecossistemas variados: no litoral e no arquipélago dos Bijagós predominam os mangais (dos mais importantes de África), no interior há florestas com um considerável potencial de exploração de madeira e, ainda, grandes extensões de savana. O norte é mais quente e seco, sofrendo influência do Sahel, enquanto as regiões do sul, mais húmidas, beneficiam de influência atlântica. O cajueiro - o país mantém níveis significativos de produção - é uma constante na paisagem, que se desenha também com os paradigmáticos embondeiros.
A cultura do arroz e do amendoim, assim como a pesca, são outras actividades relevantes do sector primário, que ocupa mais de dois terços da população. Também a esses níveis, o potencial de desenvolvimento é assinalável. O futuro que os guineenses aguardam há tanto tempo e merecem estará a caminho? Se partilharmos o optimismo da gente da Guiné, só pode estar escondido pela curva do horizonte. Coexistem no território 23 grupos étnicos, sendo os de maior expressão os Balantas (um terço da população) e os Fula (20%). Quase metade dos habitantes tem menos de 15 anos, o que, à semelhança de muitos países africanos, significa uma população muito jovem - a taxa de fecundidade é, aliás, uma das mais altas de África. Os dados compilados pelo último relatório do PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) colocam o país no 172º lugar da lista, revelando as persistentes fragilidades da Guiné-Bissau em termos de desenvolvimento. A criação do IBAP (Instituto da Biodiversidade e Áreas Protegidas), em 2005, resultou da vontade ds autoridades guineenses encetarem políticas de preservação ambientel e, também, de promoção de condições estruturais para o desenvolvimento do eco-turismo, uma área em que a Guiné-Bissau detém um assinalável potencial. RESTOS COLONIAIS E TURISMO DE NATUREZAO casario de matriz colonial em Bissau, a tranquila Bafatá, nas margens do rio Gêba (com uma soberba vista sobre a floresta de mangue do outro lado e também alguma arquitectura sobrevivente dos tempos coloniais), Cacheu e o seu velho forte português, os animadíssimos mercados populares, os ritmos irresistíveis dos Super Mama Djombo e o Arquipélago dos Bijagós constituem razões bastantes para inspirar os viajantes a meter os pés a caminho, o que significa igualmente que o país possui potencial para uma expansão rentável das actividades turísticas, tal como tem acontecido recentemente em Cabo Verde e em Moçambique. Infelizmente, a instabilidade política que se tem verificado desde a abertura ao sistema multipartidário e desde as primeiras eleições livres, no início da década de 90, não tem contribuído para atrair os necessários e urgentes projectos de investimento. Os últimos anos têm sido, todavia, anos de tranquilidade.
No capítulo da natureza, a Guiné-Bissau tem um impressivo universo de atracções para oferecer ao viajante mais exigente. Há belas praias, como em Varela, Bubaque, Caravela ou Bolama (que conserva vestígios arquitectónicos da ocupação colonial), ou, ainda, embora menos acessíveis, em Cacine, no extremo sul do país. Nesta região, como em outras onde a natureza se encontra quase em estado bruto, o principal problema é, obviamente, de carácter logístico, faltando infra-estruturas de alojamento. Para as deslocações, é sempre possível partilhar uma canoa com os habitantes - a costa muito recortada e os inúmeros rios e reentrâncias tornam o transporte fluvial corrente e prático. Além do mais, é um tipo de experiência que facilita o conhecimento e amizade com as gentes da terra, abrindo oportunidade à integração dos visitantes nos ritmos de vida locais. A partir de Bissau, sai todas as sextas-feiras para a ilha de Bubaque o Expresso dos Bijagós, regressando domingo. O Parque Natural dos Tarrafes do Rio Cacheu, no norte, a cerca de cem quilómetros da capital, é um dos dois grandes atractivos em termos de eco-turismo. Paraíso de mangais, a reserva abriga duas centenas de espécies de aves, incluindo flamingos e papagaios. Crocodilos, hipopótamos, gazelas, hienas e macacos habitam também a região. Para ver alguma bicharada, pode-se apanhar o barquinho que zarpa diariamente de Cacheu para São Domingos - são umas duas horas de aprazível navegação entre os mangais. A menina dos olhos da mãe-natureza guineense é, todavia, o Arquipélago dos Bijagós, uma imensidão de ilhas e ilhotas relativamente próximas do litoral, parte das quais habitadas por comunidades de pescadores. Habitat de várias espécies e plantas raras, assim como de algumas populações de tartarugas marítimas, o arquipélago está classificado como Reserva da Biosfera. A ilha de Bubaque é o ponto de partida ideal para organizar expedições às outras ínsulas (alugando um barco), mas possui ainda um interesse especial para quem procure uns dias de repouso depois de vagabundear pelo país. A atmosfera é francamente relaxante, os caminhos imersos em verdes labirintos propícios a passeios de bicicleta (que pode ser alugada no local), e as praias magníficas, sobretudo a Praia Bruce, a uma vintena de quilómetros da cidade. Se a tudo isto acrescentarmos a infinita afabilidade da gente local, sempre optimista apesar dos obscuros torvelinhos da política, que mais pode pedir o viajante amador de África?
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