Rio Branco: o que fazer na capital do Acre (pouca coisa!)

Por Filipe Morato Gomes
Visitar Rio Branco, Acre
Rua no centro de Rio Branco, capital do Acre, no Brasil

Se está a pensar visitar Rio Branco, no Acre, saiba que está prestes a fazer algo que pouquíssimas pessoas fazem. O Acre é um dos Estados menos visitados do Brasil e, na verdade, tenho de concordar que não há muito o que fazer em Rio Branco.

Quando me disseram isso, desconfiei e encarei como um desafio. Quis ir ver com os meus olhos. Mas, reconheço agora, a capital acreana não tem muitos motivos de interesse turístico. Por isso mesmo, modere as expectativas, mas acredite que encontrará muita riqueza na história desta capital de Estado que deve ser uma das mais remotas do Brasil.

Rio Branco: breve introdução

Visitar Rio Branco
Praça da Revolução no centro de Rio Branco

Rio Branco nasceu de um seringal fundado em dezembro de 1882 por Neutel Maia, cearense que ali chegou à procura de borracha, numa curva do rio Acre marcada por uma gameleira frondosa.

Nas décadas seguintes, o território seria disputado entre seringueiros, comerciantes e migrantes nordestinos, até o Brasil assumir o controlo da região através do Tratado de Petrópolis, assinado com a Bolívia em 1903 — o Acre é, de resto, o único estado brasileiro adquirido por compra formal.

É essa história recente e a proximidade com a floresta que continua a dar forma à cidade. Rio Branco é das capitais mais isoladas do Brasil em termos de distância rodoviária, cortada pelo rio Acre, com uma identidade indissociável da luta dos seringueiros e da figura de Chico Mendes.

Encare então este roteiro para visitar Rio Branco como uma base para montar o seu próprio itinerário. Mas, como já referi, modere as expectativas porque não há muito mais a fazer.

O que fazer em Rio Branco

Museu dos Povos Acreanos

O que fazer em Rio Branco: visitar Museu dos Povos Acreanos
Museu dos Povos Acreanos

Aberto ao público desde agosto de 2023, o Museu dos Povos Acreanos ocupa, no centro de Rio Branco, o antigo edifício do Colégio Meta — construído em 1952 para acolher um pensionato de estudantes e, mais tarde, ponto de encontro de movimentos estudantis e sindicais, incluindo os promovidos por Chico Mendes.

Ficou abandonado depois de o colégio mudar de instalações em 2005, até ser desapropriado pelo governo do Acre em 2016 e transformado em museu com apoio do Banco Mundial.

Visitar Rio Branco: Museu dos Povos Acreanos
Interior do Museu dos Povos Acreanos, uma das atrações de Rio Branco

O investimento resultou em sete espaços expositivos climatizados, um átrio interno, um auditório e loja de recordações.

Nas palavras oficiais, o museu “dispõe de acervos importantes sobre a história e cultura do Acre, além de mobílias e equipamentos tecnológicos e interativos (…) que foram e são relevantes para o desenvolvimento sociocultural e para a preservação da identidade regional”.

Entre as peças em destaque estão um fóssil de purussauro (antepassado do jacaré), a reconstituição da casa de um seringueiro, a Sala Chico Mendes e a Sala das Personalidades, dedicada a acreanos com projeção nacional.

Mercado Velho

Mercado Velho
Loja de produtos naturais da Amazónia no Mercado Velho de Rio Branco

Apesar de simples, o Mercado Velho de Rio Branco é porventura um dos espaços mais interessantes da cidade.

O espaço degradou-se com o tempo, até ser inteiramente revitalizado em 2002, dando origem aos dois edifícios reconstruídos que hoje albergam bares, restaurantes, lojas de artesanato, ervanárias e lojas de artigos religiosos — muitas geridas por famílias com décadas de história no local.

Mercado Velho
Produtos naturais da Amazónia

Entre todas as lojas, a que mais me chamou a atenção foi uma loja de produtos naturais da Amazónia. Fez-me lembrar uma ervanária de Belém a que chamei a “farmácia do índio“.

A zona do Mercado Velho de Rio Branco é também um dos melhores pontos da cidade para ver o pôr do sol sobre o rio Acre. A visitar.

Museu da Borracha

Museu da Borracha Governador Geraldo Mesquita, Rio Branco
Explicações no Museu da Borracha, Rio Branco

Para perceber a importância deste museu é preciso perceber a importância da borracha para o próprio Acre.

Foi a corrida ao látex, no final do século XIX, que atraiu à região seringueiros, comerciantes e migrantes nordestinos à procura de prosperidade — uma disputa territorial que haveria de desembocar, em 1903, no Tratado de Petrópolis, através do qual o Brasil comprou formalmente o território à Bolívia.

O Acre é, até hoje, o único estado brasileiro cuja origem passa por uma aquisição deste tipo: não nasceu de uma simples divisão administrativa, mas do valor económico da borracha e da massa humana que essa economia atraiu e fixou na região. Visitar o Museu da Borracha de Rio Branco é, por isso, visitar a própria certidão de nascimento do estado.

O que fazer em Rio Branco: visitar Museu da Borracha
Museu da Borracha Governador Geraldo Mesquita, em Rio Branco

As exposições seguem uma lógica cronológica, da chegada dos primeiros nordestinos ao Acre até à extração e produção do látex, e à sua exportação.

Projeções recriam o processo de defumação e pesagem da borracha, enquanto gravações áudio trazem depoimentos dos chamados “soldados da borracha”, explicando como se dava o alistamento. Um dos ambientes reproduz uma casa de seringueiro, com utensílios de cozinha, roupas, calçado e ferramentas de extração da época, e há painéis sobre a floresta amazónica acompanhados de sons de aves da região.

Casa Museu Acre

Casa Museu Acre
Casa Museu Acre

igualmente relacionado com a borracha, pode dizer-se que a Casa Museu é, hoje, o principal espaço para conhecer a história do Acre em profundidade. E tem uma origem muito particular: nasceu da coleção privada de Arquilau de Castro Melo, ex-desembargador do Tribunal de Justiça do Acre, reunida ao longo de mais de vinte anos.

Fica no condomínio Chácara Ipê, em Rio Branco, e o seu propósito é valorizar e dar a conhecer a identidade acreana e amazónica.

Camião da II Grande Guerra na Casa Museu Acre
Camião da II Grande Guerra na Casa Museu Acre

De iniciativa privada, a Casa Museu tem agenda aberta para visitas, que incluem uma pequena palestra do curador. O percurso passa por uma exposição de objetos da época áurea dos seringais e por um camião alemão da Segunda Guerra Mundial, ainda em funcionamento. E, para grupos maiores, há ainda uma demonstração ao vivo de um seringueiro a defumar uma pela de borracha.

Na minha opinião, é a melhor atração de Rio Branco. Se procura o que fazer na capital do Acre, este lugar é imperdível.

A visita à Casa Museu Acre custa 40 reais por pessoa e os horários estão sujeitos à disponibilidade dos anfitriões. Pode marcar pelo Whatsapp.

Palácio Rio Branco

Palácio Rio Branco, Acre
Exterior do Palácio Rio Branco

Sede do Governo do Acre, o Palácio Rio Branco começou a ser construído na década de 1920, com projeto do arquiteto alemão Alberto Massler, que se inspirou na arquitetura grega — visível nas colunas de ordem dórica e jónica da fachada principal. Foi inaugurado em 1930, embora as obras só tenham ficado concluídas em 1948, já no governo de José Guiomard dos Santos.

Em junho de 2002 foi revitalizado e ganhou função cultural, com exposições que percorrem as várias fases da história do povo acreano através de textos, objetos históricos, fotografias e depoimentos. O processo de classificação como património ficou concluído em dezembro de 2005, e em junho de 2008 passou a chamar-se, oficialmente, Museu Palácio Rio Branco.

Calçadão da Gameleira

O Calçadão da Gameleira estende-se por cerca de 500 metros à sombra de gameleiras centenárias — figueiras de grande porte, típicas da Amazónia, que dão nome ao local, sendo a mais antiga classificada como património público em 1981 — ladeado por casarões coloniais do início do século XX, hoje restaurados e transformados em lojas, restaurantes e bares que animam o calçadão com feiras de artesanato e espetáculos ao vivo. Fica a referência, para um eventual passeio ao fim da tarde nas margens do rio Acre.

Outras coisas a ver e fazer em Rio Branco

Apesar de tudo, há outras coisas que pode ver e fazer em Rio Branco, caso disponha de mais tempo para explorar a capital do Acre. Deixo aqui algumas e sugestões de atrações a visitar e atividades a fazer:

  • Explorar o Horto Florestal.
  • Passear pelo Calçadão da Gameleira e visitar a Casa do Artesanato Acreano.
  • Apreciar os murais resultantes das várias edições do Festival Acre Graffiti – Festival Internacional de Culturas Urbanas.

Guia prático

Qual a melhor época para visitar Rio Branco

A melhor época para visitar Rio Branco é durante a época seca, entre maio e setembro, com dias soalheiros e pouca chuva. De outubro a abril conte com chuvas frequentes e muita humidade.

Rio Branco é seguro?

Não me aconteceu nada, mas Rio Branco é daqueles lugares onde paira uma omnipresente sensação de insegurança. Talvez fosse pela existência de muitos sem-abrigo nas ruas, mas a verdade é que o centro de Rio Branco não é um lugar confortável para andar a pé. Não sei explicar.

Eu não gosto de julgar e posso naturalmente estar errado, mas foi o que senti quando visitei Rio Branco.

Como chegar a Rio Branco

Comparado com outras capitais estaduais no Brasil, não há muitos voos para Rio Branco. Mas, ainda assim, encontram-se ligações diretas de cidades como Brasília, Manaus, Belo Horizonte e São Paulo. Conte com voos operados por companhias como a Azul, a Gol ou a Latam.

Pesquisar voos para Rio Branco

Como ir do aeroporto até ao centro de Rio Branco

A melhor forma de ir do Aeroporto Internacional de Rio Branco – Plácido de Castro até ao centro da cidade é chamando um Uber. Foi o que eu fiz.

Dito isto, consta que a linha de autocarro 304 da RBTRANS liga o aeroporto ao Terminal Central de Rio Branco, mas não experimentei. Fica a dica.

Como se deslocar em Rio Branco

A capital do Acre não é a cidade com melhor sensação de segurança que já visitei no Brasil. Assim sendo, continuo a recomendar andar a pé (fiz isso muitas vezes) exceto à noite e com cuidado. De resto, o Uber é barato e a forma mais prática de se deslocar em Rio Branco — com a vantagem de evitar o calor tórrido que por vezes assola a cidade.

Onde ficar em Rio Branco

Para quem visitar Rio Branco em turismo não há grandes motivos para ficar no centro da cidade, já que de qualquer forma à noite terá de andar sempre de Uber.

Em concreto, quanto aos melhores hotéis para pernoitar na capital acreana, recomendo o excelente Nobile Suites Gran Lumni, de quatro estrelas; o incontornável ibis Rio Branco, de três estrelas; ou a pousada Rede Andrade Rio Branco, localizada na Gameleira.

Num registo mais informal e para um público jovem de espírito, o Hostel Povos da Floresta. É gerido por pessoas muito amáveis, e as condições são muito boas — eu pessoalmente gostei muito e recomendo sem hesitar. Para outras opções de alojamento em Rio Branco, pesquise usando o link abaixo.

Procurar hotéis em Rio Branco

Gastronomia e restaurantes onde comer em Rio Branco

Não posso começar esta secção sobre a gastronomia acreana sem falar da baixaria, um prato típico do estado do Acre tradicionalmente consumido ao pequeno-almoço. Trata-se de uma combinação de cuscuz de milho, carne picada e ovo estrelado, podendo incluir tomate ou vinagrete.

De referir também o tacacá que, dizem orgulhosamente, é ainda mais forte do que o tacacá do Pará. Eu não provei, por isso não posso confirmar.

No que toca aos restaurantes, posso recomendar desde logo o Mata Nativa, um dos melhores restaurantes de Rio Branco para comer tambaqui assado. Alternativamente, foram-me recomendados o restaurante Sabor Goiano e a Churrascaria Sabor do Sul. De resto, referência para o muito popular Deck Trattoria (bom se estiver com crianças), para o restaurante Flutuante Malveira (provar banda de tambaqui na brasa) e para a ⁠Casa do Rio (provar charutos e os quibe).

E, para um jantar mais requintado e contemporâneo, não deixe de experimentar o excelente Jannu’s Bistrô.

Seguro de viagem para o Brasil

Sendo os cuidados de saúde especializados relativamente dispendiosos, é fundamental ter um seguro de viagem para o Brasil com boas coberturas, por forma a diminuir o prejuízo em caso de doença ou uma eventual hospitalização.

Eu recomendo o IATI Estrela, que é o seguro que costumo fazer nas minhas viagens. Tem cobertura para COVID-19, não tem limite de idade nem franquias, cobre até 5.000.000€ (cinco milhões) em gastos médicos e não é preciso adiantar dinheiro em consultas ou hospitalização. Para mim, são atualmente os melhores e mais completos do mercado, ideais para viajar no Brasil.

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Internet e dados móveis no Brasil

Para os viajantes portugueses, a forma mais prática de ter acesso à internet no Brasil é através do eSIM Brasil da HolaFly, um cartão virtual que pode ativar com um QR Code mal aterre no país. Evita a necessidade de comprar um cartão telefónico brasileiro e tem dados móveis ilimitados.

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Outros destinos a visitar no Brasil

Se está a pensar visitar Rio Branco, talvez tenha interesse em saber um pouco mais sobre o que ver e fazer noutras cidades, ilhas e destinos turísticos do Brasil.

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Filipe Morato Gomes

Filipe Morato Gomes

Autor do blog de viagens Alma de Viajante e fundador da ABVP - Associação de Bloggers de Viagem Portugueses, já deu duas voltas ao mundo - uma das quais em família -, fez centenas de viagens independentes e tem, por tudo isso, muita experiência de viagem acumulada. Gosta de pessoas, vinho tinto e açaí.

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