
Se está a pensar visitar Alcântara, no Maranhão, saiba que vai encontrar uma das vilas mais singulares do Brasil. Um lugar que parece ter ficado suspenso no tempo desde o século XIX.
Na minha opinião, não é exagero afirmar que Alcântara é presença obrigatória em qualquer roteiro para visitar São Luís do Maranhão. Até porque a proximidade geográfica permite, caso prefira, fazer um passeio de São Luís até Alcântara voltando para a capital maranhense no mesmo dia. Ou seja, não é preciso dormir em Alcântara, embora o possa fazer para aprofundar a experiência.

Poder-se-á dizer que não há muito o que fazer em Alcântara — e eu entendo a afirmação. Mas, para mim, vaguear pelas ruas, explorar as ruínas, apreciar os casarões de origem colonial, comer nos seus restaurantes e provar o doce de espécie são motivos mais do que suficientes para um bate-volta a partir da capital maranhense.
Seja como for, partilho a minha experiência na esperança de o motivar para que possa visitar Alcântara — porque acho mesmo que vale a pena!

Dica: se vai visitar Alcântara, não se esqueça de fazer um bom seguro de viagem.
Alcântara: um pouco de história

Situada na região metropolitana de São Luís, do outro lado da baía, Alcântara nasceu em 1648 sobre a antiga aldeia tupinambá de Tapuitapera. E cresceu ao ponto de se tornar, nos séculos XVIII e XIX, num dos maiores centros produtores do Maranhão — rivalizando com a própria capital.
A riqueza vinha da exportação para a Europa de açúcar, sal e algodão, sustentada pela mão de obra escrava. Na época, havia uma aristocracia rural sustentava esse procura e mandava os filhos estudar para as universidades de Coimbra e um pouco por toda a Europa — uma influência que ainda hoje se sente na arquitetura da vila.

Alcântara chegou, aliás, a ser elevada a cidade em 1836, no auge desse ciclo económico. Mas o declínio não tardou. Com a queda do algodão e a abolição da escravatura, as grandes famílias partiram e os casarões ficaram entregues ao tempo e à vegetação.
Paradoxalmente, foi esse isolamento que preservou Alcântara. Sem dinheiro para demolir ou renovar, a vila conservou o seu conjunto de igrejas antigas, palacetes em ruínas e as ruínas do Forte de Vera Cruz do Itapecuru. Embora em mau estado, eles lá estão dando alma e cor a Alcântara, à espera de serem reabilitados.

Em 1948, tornou-se uma das primeiras cidades brasileiras classificadas como Monumento Nacional pelo IPHAN, com um perímetro protegido de cerca de 400 imóveis.
A minha experiência a visitar Alcântara

Quando cheguei ao cais da Praia Grande, em São Luís do Maranhão, o barco de “linha” Bahia Star estava atracado mas sem funcionar. Lá dentro, dois ou três homens lavavam o convés, mas ainda não sabiam se iam fazer a travessia até Alcântara. “O barco teve um problema mecânico e está à espera que a Marinha venha fazer a vistoria e liberar”, disseram-me. Ou seja, talvez não houvesse forma de chegar a Alcântara.
Foi quando José Bernardino perguntou aos presentes quem queria ir para Alcântara no seu catamarã. O custo seria ligeiramente mais alto do que no Bahia Star, mas a saída era garantida. Assim que se juntou gente suficiente, mandou trazerem o catamarã do Espigão até ao cais da Praia Grande e lá embarcámos. Tinha perdido algum tempo, mas ao menos ia conseguir visitar Alcântara!

Navegámos pela baía de São Marcos tranquilamente, numa viagem que durou sensivelmente uma hora e meia, até atracar no chamado porto do Jacaré, em Alcântara. Era altura de começar a explorar Alcântara a pé.
Decidi deixar o almoço para depois e fui subindo a ladeira do Jacaré, uma rua com piso deliciosamente irregular e casas térreas cujas pinturas se encontravam visivelmente gastas pelo tempo. Cumprimento alguns moradores, parei numa loja comprar uma bebida fresca e em menos de nada cheguei na pequena Praça das Mercês.

É lá que começa a Rua das Mercês, provavelmente a mais importante de Alcântara. Mas antes ainda fui espreitar a pequena Igreja das Mercês, que infelizmente estava fechada. Em compensação, existe um miradouro bem ao lado que permitiu desfrutar de vistas sobre a Ilha do Livramento — uma pequena ilha localizada diante de Alcântara.

De lá, percorri então a Rua das Mercês até Largo de São Matias (ou Praça da Matriz) — o espaço público mais importante da vila. É lá que fica o edifício da Câmara Municipal, mas também as ruínas da Igreja de São Matias e o pelourinho de Alcântara, para além do mais discretas ruínas do Solar Bequimão.

Se não sabe o que fazer em Alcântara ou não tem um roteiro pré-definido, vale a pena ficar por ali a absorver tudo em sua volta. Note como o edifício da Prefeitura convive com as majestosas — e fotogénicas! — ruínas da Igreja de São Matias, proporcionando um contraste que define bem a vila histórica de Alcântara. Foi por ali que me cruzei com Dona Maria e conheci o típico doce de espécie.

Entre as especialidades que vale a pena provar em Alcântara, o doce de espécie é sem dúvida a mais icónica. Vi-os à venda na banca improvisada de uma senhora que se apresentou como Maria, junto ao Largo de São Matias.
Para quem não conhece, o doce de espécie é feito tradicionalmente com farinha de mandioca, açúcar, coco e especiarias (como cravinho e canela), e tem uma textura densa a fazer lembrar o bem português doce de coco.

É, na verdade, um doce simples, tradicionalmente preparada por ocasião da Semana Santa e profundamente ligado à identidade de Alcântara. Fica desafio: quando visitar Alcântara, não deixe de provar um doce de espécie.
De estômago aconchegado e alma ainda mais aquecida (nesse dia, estava um calor difícil de suportar em Alcântara!), era então altura de virar à esquerda e continuar a passear pelo centro histórico de Alcântara.

Primeiro pela rua Grande, onde pontificam as ruínas do Palácio Negro e do Palácio do Barão de Mearim, a Casa do Divino (um pequeno museu sobre as Festa do Divino Espírito Santo) e ainda a Igreja Nossa Senhora do Carmo — que, infelizmente, também estava de portas fechadas.
Depois, pela rua da Mirititua, com o objetivo de chegar à Largo do Rosário e visitar a Casa de Cultura Aeroespacial. Não que o assunto me interesse particularmente, mas porque é algo único e inesperado num lugar como Alcântara.

O contraste entre os casarões coloniais em ruínas e a tecnologia aeroespacial ali ao lado é, só por si, um bom resumo do carácter dúbio desta vila: parada no tempo mas com o futuro feito presente. Se a temática lhe interessa, pode caminhar até à Casa de Cultura Aeroespacial, no centro histórico de Alcântara, onde terá um vislumbre desta valência aeroespacial do povoado.

Curiosamente, é neste mesmo município — a poucos quilómetros do centro histórico — que fica o Centro Espacial de Alcântara, uma base de lançamento de foguetes da Força Aérea Brasileira ali instalada, diz-se, fruto da proximidade com a linha do Equador.
Mas, mais do que foguetões, caminhar por Alcântara é, acima de tudo, calcorrear um raro retrato antigo congelado da opulência colonial maranhense — e é essa singularidade, mais do que qualquer atração pontual no centro histórico, que torna a travessia a partir de São Luís até Alcântara mais do que justificada.

Por falta de tempo, acabei por não incluir neste roteiro para visitar Alcântara a praia de Itatinga, tida como a melhor praia de Alcântara.
Dicas para visitar Alcântara (São Luís do Maranhão)
Qual a melhor época para visitar Alcântara
A povoação de Alcântara é visitável durante todo o ano todo mas, em teoria, a melhor época vai de junho a dezembro. Junho é o mês das festas do Bumba-Meu-Boi, pelo que é uma excelente época para estar São Luís e aproveitar para conhecer Alcântara.
De resto, caso pretenda também visitar os Lençóis Maranhenses, sugiro que o faça durante os meses de junho e julho, após a época das chuvas. É quando as lagoas se encontram mais cheias, conferindo uma beleza sublime à paisagem.
Como chegar a Alcântara desde São Luís do Maranhão
Para chegar a Alcântara, há uma lancha de “linha” chamada Bahia Star, cujos horários variam conforme a maré. Para saber os horários pode ver no Instagram, mas recomendo passar no cais quando chegar a São Luís para confirmar. O custo é de apenas 20 reais por trajeto.
Transportes em Alcântara
Eu recomendo visitar o centro histórico de Alcântara a pé, mas, se tiver problemas de mobilidade ou tiver pouco tempo, saiba que há taxis que esperam no porto do Jacaré e transportam os visitantes até ao coração do centro histórico. Eu não utilizei, mas é importante saber
Onde ficar em Alcântara
A maioria das pessoas opta por dormir em São Luís do Maranhão e fazer um passeio a Alcântara regressando no mesmo dia. Foi o que eu fiz. Mas, caso queira uma experiência mais profunda e vivenciar Alcântara sem turistas, desfrutando do amanhecer e do final da tarde com menos gente, saiba que há algumas pousadas de qualidade na povoação.
Infelizmente, reservar pode ser um problema, uma vez que dificilmente conseguirá fazê-lo nas plataformas digitais.
Dito isto, recomendo a Pousada La Maison du Baron (dá para reservar online) ou a Pousada Bela Vista (+55 98 991432503). Na eventualidade de aparecerem opções de alojamento em Alcântara no booking.com, pesquise usando o link abaixo.
Seguro de viagem para o Brasil
Sendo os cuidados de saúde especializados relativamente dispendiosos, é fundamental ter um seguro de viagem para o Brasil com boas coberturas, por forma a diminuir o prejuízo em caso de doença ou uma eventual hospitalização.
Eu recomendo o IATI Estrela, que é o seguro que costumo fazer nas minhas viagens. Tem cobertura para COVID-19, não tem limite de idade nem franquias, cobre até 5.000.000€ (cinco milhões) em gastos médicos e não é preciso adiantar dinheiro em consultas ou hospitalização. Para mim, são atualmente os melhores e mais completos do mercado, ideais para viajar no Brasil.
Fazer seguro para o Brasil (com 5% de desconto)
Internet e dados móveis no Brasil
Para os viajantes portugueses, a forma mais prática de ter acesso à internet no Brasil é através do eSIM Brasil da HolaFly, um cartão virtual que pode ativar com um QR Code mal aterre no país. Evita a necessidade de comprar um cartão telefónico brasileiro e tem dados móveis ilimitados.
Outros destinos a visitar no Brasil
Se está a pensar visitar Alcântara, talvez tenha interesse em saber um pouco mais sobre o que ver e fazer noutras cidades, ilhas e destinos turísticos do Brasil.
Arraial d’Ajuda・Belém do Pará・Belo Horizonte・Cabo de Santo Agostinho・Caraíva・Costa do Descobrimento・Fernando de Noronha・Ilha do Marajó・Jericoacoara・Lençóis Maranhenses・Macapá・Manaus・Olinda・Parintins・Porto Seguro・Recife・Rio Branco・Salvador・São Luís do Maranhão・São Paulo・Trancoso (Bahia)