VOLTA AO MUNDO - EUROPA
00. Prefácio da concretização de um sonho
Não é ficção - caio definitivamente na realidade -, a concretização do grande sonho está prestes a ter o seu início. Breves linhas em jeito de prefácio daquilo que espero venha a constituir um capítulo com algumas das mais belas páginas de uma vida: a minha primeira volta ao mundo.
01. O primeiro dia do resto de uma vida
O placard do aeroporto anuncia o voo inicial desta viagem de sentido único, tiro de partida efectivo para esta odisseia solitária em redor do globo terrestre. A volta ao mundo começou!
02. Deambulações pela cidade de Moscovo, Rússia
Percorrendo as ruas da grande metrópole moscovita - com especial incidência na zona envolvente à Praça Vermelha e ao Kremlin -, descubro o prazer de caminhar acompanhado por recém-amigos locais e observo com prazer algumas maravilhas arquitectónicas de Moscovo. A capital da Rússia é, sem dúvida alguma, uma cidade fascinante.
VOLTA AO MUNDO - ÁSIA
03. Vida em Movimento no Transiberiano
Três dias e meio a bordo de um comboio russo percorrendo a mítica linha transiberiana, numa experiência única mas por vezes difícil numa altura tão prematura desta viagem solitária. Viagem da capital Moscovo até Irkutsk, na Rússia.
04. Lago Baikal, Tesouro Siberiano
Encontro em Olkhon, pequena ilha do Lago Baikal, na Rússia, a primeira grande paixão desta viagem à volta do mundo. Uma daquelas histórias de amor à primeira vista, em território siberiano.
05. Lua de Invulgar Mel na Linha Trans-mongol
A caminho de Ulan Bator, capital da Mongólia, percorrendo as míticas linhas de caminho-de-ferro transiberiana e trans-mongol, conheci Fran e Richard, um casal chileno que viajava de mochila às costas durante a sua lua-de-mel. A confirmação de que, para muita gente por esse mundo fora, o casamento não implica o fim das aventuras de viagem.
06. Inesperadas Melodias no Deserto de Gobi
Algo inesperado me sobressalta no mercado de Dalanzadgad, em pleno deserto de Gobi, algures numa Mongólia fascinante mas profunda. Recordações que me fazem cantarolar o refrão de uma canção. E sorrir.
07. Percalços na Verdejante Mongólia Central
Depois de uma semana a viajar pelo Deserto de Gobi, chegar às estepes da Mongólia Central proporcionou uma agradável mudança de cenário. Surgiu a água, o verde, mais vida. Mas nem tudo foi perfeito. Os azares acontecem, ao melhor estilo mongol.
08. Um Dia com uma Família Mongol
No coração de uma Mongólia rural, uma inesperada mudança de planos levou-me ao encontro na mais amigável família mongol com quem já tive oportunidade de privar. Acolhido como em nenhum outro lugar por gente pobre e de enorme coração, nunca esquecerei o dia em que povos completamente distintos partilharam gargalhadas, muitos sorrisos e actividades domésticas sem uma única palavra em comum. Mongólia, fascinante Mongólia!
09. Em Busca do Famoso Canto Gutural, em Ulan Bator
Regresso ao ambiente urbano e encaro de imediato as particularidades das grandes cidades asiáticas: trânsito caótico, poluição desmedida, barulho em excesso. Em contrapartida, ouço esses sons estrambólicos vindos das gargantas mongóis e presencio um casamento tradicional. Ulan Bator, capital da Mongólia.
10. Em Pequim, de Regresso à Escola
Regresso aos bancos da escola na cosmopolita cidade de Pequim, como participante de uma aula de conversação em inglês. Na companhia de Richard, canadiano de 62 anos e mochileiro de longa data. Sou ainda surpreendido pelos velhos bairros de Pequim, bem como pelo capitalismo de Wanfujing, antes de percorrer a pé um trecho da majestosa Grande Muralha da China. Eis-me chegado a um novo país, a China.
11. O Doce Aroma do Passado, em Pingyao
Deixo Pequim e viajo de comboio até Pingyao, uma pequena cidade amuralhada a caminho de Xi'an, classificada Património Mundial pela UNESCO. Percorro as ruelas de Pingyao com a sensação de ter recuado no tempo, e descubro o significado de Portugal na língua chinesa. Uma surpresa francamente adequada a esta época de vindimas.
12. Numa Excursão Chinesa ao Parque Natural de Jiuzhaigou
Decido incorporar uma excursão de turistas chineses ao Parque Natural de Jiuzhaigou, situado na província de Sichuan. Encontro um cenário deslumbrante mas sou obrigado a abandonar o grupo, para bem da minha saúde mental. Guias turísticos de bandeira em riste não são, definitivamente, para mim.
13. Chá de Jasmim em Chengdu, Palhetadas em Kunming
Uma tarde numa das famosas casas de chá em Chengdu, China. E tocando com um grupo de velhotes reformados melodias improvisadas num parque de Kunming. Quantas vezes os mais simples momentos não são aqueles que perduram eternamente na memória de um viajante?
14. À Mesa Com a Virgem Cristina de Yangshuo
Descanso da viagem na pacata povoação de Yangshuo, um recanto deveras ocidentalizado em plena China, numa semana animada por pedaladas, algumas cervejas e arrojadas revelações de índole sexual.
15. Súmula da Primeira Fase da Viagem
Três meses depois de partir, encerro aquilo a que poderei chamar a primeira fase desta viagem. Deixo para trás países como a Rússia, a Mongólia e a China com a certeza de ter vivido momentos únicos e inolvidáveis. Aqui fica um pequeno resumo desse período.
VOLTA AO MUNDO - SUDESTE ASIÁTICO
16. De Caiaque Pela Baía de Halong, Vietname
Pagaiando mar adentro, percorro um dos mais belos cenários naturais com que me deparei até à data. Retrato de uma exigente expedição de caiaque por entre as brumas da baía de Halong, muito próximo capital Hanói, norte do Vietname.
17. As Minorias Étnicas de Sapa, Vietname
Percorro o noroeste do Vietname ao encontro das minorias étnicas da região de Sapa. Dias de trekking rodeado por trajares tradicionais, costumes únicos, preparativos para um casamento e muito vinho de arroz.
18. Tirando as Medidas aos Alfaiates de Hoi An, Vietname
Reencontro a dinamarquesa Marie e com ela vou às compras nos famosos alfaiates de Hoi An, uma pitoresca localidade no centro do Vietname. Depois de tanto tempo a viajar sozinho, ter companhia é uma mudança extremamente bem-vinda.
19. Prazeres Simples no Cenário Tropical de Mui Ne, Vietname
Alojo-me num bungalow algures no extenso areal de Mui Ne, Vietname, e deixo-me enfeitiçar pela beleza típica de um paraíso tropical. Um lugar onde o tempo passa bem devagar e de onde não apetece sair.
20. As Marcas Que o Tempo Não Apaga, no Vietname
Chego a Saigão (Ho Chi Minh), no sul do Vietname, e nomes como o napalm ou o Agente Laranja tornam-se escandalosamente familiares. No Museu da Guerra. Mas também nas ruas. São as marcas de uma guerra absurda que o tempo demora a apagar.
21. Khmer Vermelhos, o Lado Negro da Natureza Humana
Entro no Camboja convicto de estar apto a enfrentar as sinistras visões dos horrores praticados pelo sanguinário Pol Pot e seus Khmer Vermelhos. Mas acabo por descobrir que há coisas para as quais nunca se está suficientemente preparado. Um relato repugnante sobre os Campos da Morte e o secreto S-21, em Phnom Penh.
22. O Lado Esquecido de Angkor Wat, Camboja
Visito os magníficos templos de Angkor, nas proximidades de Siem Riep, Camboja, e fico maravilhado com a beleza invulgar de Ta Prohm. E conheço o senhor Aki Ra, um homem cujo extraordinário trabalho em prol do futuro do seu país não merece, infelizmente, o apoio dos governantes locais.
23. As Mãos de Génio dos Massagistas Tailandeses
Passo algum tempo na mega cidade de Banguecoque, Tailândia, onde assisto ao festival da lua cheia, nas proximidades do gueto mochileiro de Khao San Road. Mas não demoro a seguir para a ilha de Samet, onde me entrego aos cuidados de uma massagista tailandesa. Sem malandrices...
24. Tsunami Altera Planos da Volta do Mundo
Visito a atraente cidade de Chiang Mai antes de abandonar por uns dias a civilização ao encontro da minoria étnica Poe. Mas os trágicos acontecimentos provocados pelo maremoto fazem-me mudar de rumo. Do Laos - onde já me encontrava - sigo imediatamente para Phuket, onde me deparo com cenários paradisíacos transformados em locais de dor. Nenhuma palavra conseguirá fazer justiça ao horror que testemunho.
25. A Agonizante Luta Pela Sobrevivência, no Sri Lanka
Depois da destruição de Phuket e dos corpos sem vida que vi em Khao Lak, Tailândia, sigo para Galle, no sul do Sri Lanka, onde testemunho o sofrimento daqueles que tentam desesperadamente sobreviver. Uma experiência brutal. A agonia da fome não é fácil de encarar.
26. Reflexões Sobre Uma Profissão: Jornalista
Uma crónica diferente do habitual, escrita no rescaldo da minha experiência trabalhando como jornalista / repórter fotográfico em cenários de grande pressão emocional. Uma reflexão sobre uma profissão que muito admiro: a de jornalista.
27. Karen - Zoológico Humano ou Uma Forma de Sobrevivência?
Visito Ban Nai Soi, uma aldeia no norte da Tailândia habitada pela minoria étnica Karen de “pescoço comprido” com sentimentos ambivalentes. Estaria prestes a entrar num deplorável zoológico humano ou, simplesmente, a ver a forma de sobrevivência encontrada pela tribo? Um assunto complexo para o qual, tal como noutros lugares do planeta, é difícil encontrar resposta. Nem tudo é branco ou preto. E a dúvida subsiste...
28. Luang Prabang, A Mais Bem Preservada Cidade do Sudeste Asiático
Entro no Laos encantado com a possibilidade de conhecer Luang Prabang, cidade património mundial que a UNESCO considera “a mais bem preservada cidade do sudeste asiático”. E é no Laos, na povoação de Vang Vieng, que tomo o primeiro contacto com o drama humano do qual ninguém imaginava, ainda, as reais proporções.
29. Myanmar, um País Oprimido
Dirijo-me para Myanmar (Birmânia) ciente de estar a entrar num país dirigido por uma abominável junta militar, mas com um povo afabilíssimo. Páro em Kalaw, onde me embrenho nas montanhas envolventes e pernoito numa família de etnia Dhanu. E sigo depois para o lago Inle, onde observo a excentricidade piscatória daqueles que ali remam com as pernas.
30. Moustache Brothers, Gargalhadas Contra o Regime
Chego a Mandalay com objectivos bem definidos. Pretendo visitar a excêntrica ponte U'Bein, em Amarapura, passear de barco até ao imponente pagode de Mingun, e respirar um pouco do espírito combativo dos Moustache Brothers, a mais famosa trupe de comediantes de volta-ao-mundo/mandalay-myanmar.php. Tempo de soltar umas quantas gargalhadas contra o regime que governa o país.
31. Pôr-do-sol nos Templos de Bagan, Myanmar
Chego a Bagan, em Myanmar (Birmânia), pouco mais que moribundo, depois da pior viagem de autocarro de que tenho memória. Bagan é famosa pelos seus templos, que visito demoradamente, deleitando-me com um belo pôr-do-sol num minúsculo templo livre de turistas.
32. Em Koh Lanta, À Espera dos Turistas Depois do Tsunami
Aprendo a mergulhar nas águas cristalinas de Koh Tao, no golfo da Tailândia, antes de ser parte activa nas noites loucas de Koh Phangan. E sigo depois para Koh Lanta, uma ilha maravilhosa no mar Andaman, ainda despida de turistas. Efeitos do tsunami, dois meses depois.
33. Súmula da Segunda Parte da Viagem
Sensivelmente a meio da volta ao mundo, acabo de deixar para trás países como o Vietname, Camboja, Laos, Myanmar, Tailândia e, inesperadamente, também o Sri Lanka. Uma fase extraordinária desta viagem, recheada de momentos formidáveis, pese embora profundamente marcada pela tragédia tsunami.
34. O Azul do Mar, o Amarelo da Lua e o Verde do Chá, na Malásia
Entro na moderna Malásia para me dirigir sem demoras para as belíssimas ilhas Perhentian, onde me reencontro com a língua de Camões, antes de rumar às verdejantes paisagens das terras altas de Cameron.
35. Em Malaca, Por Mares Muito Antes Navegados
Chego a Kuala Lumpur, capital da Malásia, e surpreendo-me com a visão nocturna das torres Petronas. E sigo depois para Malaca onde, pese embora os abundantes vestígios da presença lusitana, encontro a língua de Camões totalmente moribunda.
36. Uma Singapura Sem Arranha-Céus
Chego àquela que provavelmente é a mais organizada, eficiente e limpa grande cidade de todo o planeta. Encontro uma Singapura longe da imagem preconcebida de meca consumista e centro de negócios, com ruas de casas térreas e fachadas profusamente trabalhadas. E saio de lá com a certeza de que, em Singapura, nada acontece ao acaso.
37. Orangotangos, os Homens da Selva do Bornéu
Com voos a preços incrivelmente baixos, mudo de rota e sigo em direcção ao Bornéu, região onde ainda existe uma abundante vida selvagem. Avisto os engraçados macacos proboscis e delicio-me com a inteligência dos mais famosos habitantes da ilha: orangotangos, os homens da selva do Bornéu.
38. Tartarugas, Polícias e Tubarões, em Sipadan
Embarco numa lancha em direcção à ilha Sipadan, mundialmente famosa pela excelência dos locais de mergulho em seu redor. Tartarugas, tubarões, barracudas, mantas gigantes e muitas outras espécies de grande dimensão são avistadas diariamente. Para este viajante planetário, mergulhar é agora um vício ao qual é difícil resistir.
39. O Momento Que Abalou a Harmonia de um Povo, em Bali
Chego a Kuta, coração turístico de Bali e apercebo-me que as feridas dos estilhaços de 2002 ainda não sararam. Os balineses, que têm na harmonia um valor supremo, ainda hoje não percebem as razões de tão vil atentado na sua ilha.
40. Os Espíritos Andam à Solta nas Ruas de Ubud
Entro num mundo de tradições, misticismo, crenças fortes e muita espiritualidade. E, vestido a rigor, participo numa cerimónia religiosa que acontece a cada duzentos e dez dias. Em Ubud, expoente máximo de uma outra Bali.
VOLTA AO MUNDO - TIMOR-LESTE E AUSTRÁLIA
41. As Fotos dos Pais que os Filhos Nunca Viram, em Timor-Leste
Chego a Dili, Timor-Leste, um dos momentos mais ansiados de toda esta viagem. Relembro o massacre de Santa Cruz, a vida dos guerrilheiros nas montanhas e de todos aqueles que lutaram pela independência do país. Um olhar para um passado recente de muita dor e sofrimento.
42. O Poder da Igreja em Timor-Leste
Encontro um ambiente tenso quando regresso a Dili, em virtude de um caricato braço-de-ferro entre a igreja católica e o primeiro-ministro timorense. A igreja, pilar fundamental na luta pela independência de Timor-Leste, tem agora um papel dúbio na sociedade. O povo, esse, continua a seguir cegamente as palavras dos representantes de Deus.
43. A Língua Portuguesa na Mais Próspera Nação do Planeta
Os governantes escolheram o português como idioma oficial, mas poucos timorenses usam a língua de Camões para comunicar. Um paradoxo no qual se viram envolvidos os professores portugueses, que dão o melhor de si para atenuar o problema. Seja em tétum, em bahasa indonésio ou em português, Timor-Leste procura ainda um caminho rumo à prosperidade.
44. A Difícil Adaptação Aborígene ao Mundo dos Brancos, em Darwin
Ao aterrar na Austrália, chegara ao primeiro país de cultura ocidentalizada desde o início desta volta ao mundo. Mas havia coisas que não batiam certo. Os povos autóctones do Northern Territory não andavam felizes. Um conflito civilizacional parecia ter lugar nos parques e ruas de Darwin.
45. Quando um Arco-íris Abraça Uluru (Ayers Rock)
Visito o coração semi-árido da Austrália. Durmo ao relento, no meio de nada, sob um céu continuamente estrelado, nas proximidades dos imponentes Kings Canyon, Olgas e, claro, Uluru (Ayers Rock). E observo turistas que, infelizmente, não demonstram o mínimo respeito pelas crenças dos povos indígenas da região.
46. Vivendo no Subsolo, em Coober Pedy
Vivo temporariamente em Coober Pedy, Austrália, um lugar onde a maioria da população habita no subsolo e de onde é extraída a quase totalidade da produção mundial de opalas. E delicio-me com excelentes tintos Shiraz e Cabernet Sauvignon nas afamadas regiões vitivinícolas a norte de Adelaide.
47. Vestígios dos Diabos da Tasmânia, em Port Arthur
Sigo inesperadamente para a Tasmânia, em busca do homónimo diabo mas, de diabólico, apenas encontro vestígios dos duros tratos infligidos a outras criaturas: os seres humanos trazidos para o estabelecimento prisional de Port Arthur.
48. Balmain, de Bairro Operário a Subúrbio Elegante de Sydney
Ainda na Austrália, voo da Tasmânia para Sydney, naquela que constitui a última paragem antes de rumar ao continente americano. Lá chegado, rendo-me aos encantos de Balmain - um dos mais elegantes bairros da cidade -, à ímpar arquitectura da Sydney Opera House e a uma dobrada tipicamente portuguesa.
49. Súmula da Terceira Parte da Viagem
Passo os antípodas de Portugal, deixando para trás as águas infestadas de criaturas marinhas do Bornéu, a organização imaculada de Singapura, o misticismo da ilha de Bali, o sorriso meigo das crianças timorenses e, por fim, a vastidão do outback australiano. Dirijo-me agora para a América do Sul e, a partir deste momento, estarei cada vez mais próximo de casa.
VOLTA AO MUNDO - AMÉRICA DO SUL
50. Na Rota dos Nobel Chilenos da Literatura
Chego a Santiago do Chile no Dia Nacional do Património, onde me delicio com as obras do escultor Auguste Rodin. E visito depois a casa La Chascona, onde Pablo Neruda viveu boa parte da vida, antes de seguir ao encontro do povoado que idolatra Gabriela Mistral, numa rota pela vida e obra dos laureados chilenos com o Nobel da Literatura.
51. Do Castanho do Deserto ao Branco do Sal
Entro nas paisagens tristes do Deserto de Atacama, no norte do Chile, onde tudo é seco e castanho. Visito lagoas deslumbrantes nos planaltos dos Andes, cavalgo pelas areias do deserto, aqueço-me em campos geotérmicos e fico maravilhado com o voo de graciosos flamingos. Até que o branco toma conta da paisagem, num prenúncio do que encontrarei nas planícies de sal bolivianas.
52. A Caminho de uma Bolívia a Ferro e Fogo
Sem a certeza de poder prosseguir viagem após Uyuni - em virtude de manifestações e bloqueios de estrada -, atravesso a fronteira do Chile com a Bolívia. Passo por lagoas incrivelmente belas e pelo maior planalto de sal do planeta, antes de pernoitar num hotel construído exclusivamente com sal. À chegada a Uyuni, perante os meus olhos, a linha de caminho-de-ferro é dinamitada e as dúvidas sobre se seria sensato continuar adensam-se.
53. Descida ao Inferno das Minas do Cerro Rico
Bolívia. Depois das paisagens deslumbrantes do sudoeste boliviano, entro num universo de pó, temperaturas extremas e falta de segurança. Arrepio-me com as atrozes condições do trabalho. E emociono-me com a dignidade daqueles homens rudes e pobres. Sejam bem-vindos ao inferno das minas do Cerro Rico, em Potosí.
54. Cenas da Vida do Lago Titicaca
Percorrendo as águas do Lago Titicaca, localizado na divisória da Bolívia com o Peru, calcorreio o lugar onde, segundo os Incas, o Pai Sol nasceu, visito as ilhas de Taquille e Amantaní e conheço o povo de Los Uros que, para escapar ao avanço da civilização Inca, decidiu viver em ilhas flutuantes.
55. Inti Raymi, Tributo Inca ao Astro-Rei
Chego a Cuzco, Peru, na época mais agitada do calendário local. Celebrava-se o Inti Raymi, uma alegre homenagem ao criador de todas as coisas para a civilização Inca: o Sol. Visito ainda as impressionantes ruínas de Machu Picchu, um local sagrado e um dos últimos refúgios Inca. Uma semana memorável.
56. Reinventando os Sons de Gardel, em Buenos Aires
Aterro em Mendoza - região que produz grande parte dos bons vinhos da Argentina -, antes de me embrenhar no ambiente poético do bairro San Telmo em Buenos Aires. Aí, no coração da capital argentina, vejo e ouço os arrojados caminhos trilhados pelo novo tango, muito por “culpa” do trabalho Gotan Project. O electro-tango veio para ficar.
57. As Tardes de Sábado no Mercado do Porto, em Montevideu
Atravesso o Rio da Prata e desembarco em Colónia do Sacramento, uma povoação histórica fundada por portugueses, antes de seguir para Montevideu, capital do Uruguai. Aí, por entre termos de água quente que passeiam debaixo do braço dos transeuntes, troco o chá-mate pela cerveja e pelo churrasco, durante a agitação diurna do característico Mercado do Porto - o ponto de encontro nas tardes de sábado da cidade.
58. Salpicos de Prazer, nas Cataratas de Iguaçú
De regresso à Argentina, depois de uma curta estadia no vizinho Uruguai, entro nos Esteros del Ibera, a versão argentina do pantanal mato-grossense, e anseio pelo fim da chuva para poder ficar cara a cara com jacarés, cobras e capivaras. Mas, numa semana dominada pela Mãe Natureza, deixo-me depois encharcar pela magia branca dos salpicos das águas das cataratas de Iguaçú. Um lugar verdadeiramente impressionante.
59. Bonito por Natureza
Chego ao Mato Grosso do Sul, Brasil, sem planos definidos. Acabo por seguir à boleia até Bonito - a auto-denominada capital do ecoturismo brasileiro e porta de entrada no Pantanal -, onde decorrem as actividades do Festival de Inverno da cidade. Divido os dias entre o teatro, a fotografia, o cinema e a música e tenho ainda tempo para fazer snorkelling em rios cristalinos, visitar grutas e passar tardes em fazendas encantadoras. Uma semana em que arte e ecoturismo andam lado a lado.
60. Em Ouro Preto, na Casa do “Papá”
Chegado a Ouro Preto, no estado de Minas Gerais, Brasil, “Manuel Joaquim Pereira”, aliás, eu próprio, dispenso os luxos de uma pousada e fico alojado numa república de estudantes. Por uma semana, recuo aos tempos académicos por entre sebentas e festas universitárias. E conheço “Papá”, um dos antigos moradores da república que, tal como a maioria, volta regularmente ao casarão para rever amigos e matar saudades.
61. Forró à Lei da Bala, em Itaúnas
Sigo para o Espírito Santo, considerado o estado mais perigoso do Brasil. Passeio por lugares sem vestígios de violência, conheço o trabalho artesanal das Paneleiras de Goiabeiras e termino a semana num povoado que mudou de localização devido ao avanço implacável das dunas. E é aí, nesse pequeno éden chamado Itaúnas - a capital capixaba do forró -, que me apercebo que a lei da bala ainda impera, de facto, nalgumas zonas do Espírito Santo.
62. Os Deliciosos Sabores do Pará, Brasil
Entro no sul da Bahia, Brasil, onde avisto baleias em Caravelas, passeio pelas ruelas de areia de Caraíva, um vilarejo de pescadores, e aprecio a beleza ímpar de uma noite de lua cheia numa praia de Porto Seguro. Sigo depois para Belém, capital do estado do Pará, onde me delicio com a magnífica gastronomia local. Nomes como açaí, cupuaçú, piracuí, sururú, tacacá, tucunaré e tucupi tornam-se definitivamente familiares. E o palato agradece.
63. Solidariedade no Amazonas
Embarco numa viagem pelo rio Amazonas. De Belém a Santarém, navego acompanhado por perigosos prisioneiros, aprecio a beleza tranquila das margens do rio, entristeço-me com a pobreza de quem lá vive e emociono-me com a solidariedade dos brasileiros para com essa gente desfavorecida. E conheço ainda as bonitas praias fluviais de Alter-do-Chão, a inaudível música brega e o invulgar encontro das águas em Manaus. Uma semana em águas fluviais.
64. O Misterioso Mundo dos Tepuis Venezuelanos
Entro no sudeste da Venezuela e paro na primeira povoação existente logo após a fronteira. Aí, em Santa Elena de Uairén, encanto-me com a visão das formações montanhosas a que os indígenas Pemón chamaram tepuis e com a beleza verdejante da Gran Sabana. E sigo depois para Ciudad Bolívar, a cidade que mudou de nome em honra do “Libertador” da pátria, Simon Bolívar, não sem antes presenciar os intrigantes controlos policiais nas estradas da região.
65. Das Caraíbas Para Portugal
Escolho a pequena povoação piscatória de Santa Fé, nas águas tépidas das Caraíbas venezuelanas, como último destino da minha odisseia planetária. Faço passeios de barco, conheço as praias de uma região menos segura do que aparentava e cruzo-me com um revolucionário que estivera em Portugal no pós 25 de Abril, antes dar por finda esta volta ao mundo e regressar a solo luso. Imensamente feliz.
VOLTA AO MUNDO - BALANÇO DA VIAGEM
66. Balanço, Parte I - Da Europa à Indochina
Catorze meses a viajar de forma solitária pelo mundo é seguramente uma experiência única. Ao longo dessa aventura, marquei encontro com acontecimentos dramáticos como o tsunami, na Ásia, ou as manifestações populares, na Bolívia, e fui acumulando memórias intensas que recupero agora. Um balanço final dividido em três partes e que começa com os momentos mais marcantes vividos entre a Europa e a Indochina.
67. Balanço, Parte II - Do Sudeste Asiático à Oceânia
Já levava alguns meses de viagens quando ocorreu o tsunami no sudeste asiático. No momento do maremoto - que marcou decididamente esta viagem - estava no Laos, um país que escapou à tragédia. Mas, vestindo a pele de repórter fotográfico, regressei à Tailândia e passei pelo Sri Lanka, onde assisti ao inimaginável. Foram os momentos mais difíceis numa viagem recheada de outros instantes marcantes mas agradáveis.
68. Balanço, Parte III - América do Sul
Na hora do regresso, recordo palavras por mim escritas antes de encetar esta odisseia planetária. “Parto com a certeza de deixar para trás motivos suficientes para o não fazer. Mas um sonho tem a força de transformar uma ideia em algo imperativo, inadiável, inquestionável. Aterrorizar-me-ia chegar tarde na vida com a tortura do pensamento: ‘quem me dera ter feito aquela viagem...’” Ainda bem que parti. Valeu a pena.

