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Barcelona de Gaudí

TextoLuísa PintoFotosFilipe Morato Gomes06/07/2006

Barcelona é uma das mais vibrantes cidades europeias. Pelo seu cosmopolitismo; pela gastronomia e movida, sobretudo na passerelle ininterrupta de Las Ramblas; pela moda que nela se dita e pelo design que nela se cria; pelos ares da montanha Montjuic e pelas irresistíveis águas do Mediterrâneo. E, sobretudo, pela obra ímpar de Antoni Gaudí. Esta é uma viagem à Barcelona de Gaudí.

Gaudí trabalhou quase sempre em Barcelona ou nos seus arredores, e ocupou grande parte da sua vida a construir aquele que é hoje considerado o principal símbolo da capital catalã: o Templo Expiatório da Sagrada Família.

Em construção há mais de um século, continua inacabada mas surpreendente. Cada vez que se lá entra, há um pormenor que antes os andaimes escondiam e que a luz deixa agora revelar. Diz-se que a Sagrada Família é a súmula de todo o trabalho de Gaudí, ele que foi responsável por uma obra arquitectónica a todos os títulos notável, embora os seus méritos nem sempre tenham sido reconhecidos. Nos anos 20 a sua obra estava votada ao desprezo, com poucos a perdoar-lhe tamanhas excentricidades.

Fachada da Casa Batlló, Barcelona, uma das mais extraordinárias obras de Antoni Gaudí

Fachada da Casa Batlló, Barcelona, uma das mais extraordinárias obras de Antoni Gaudí

Hoje em dia, as opiniões são unânimes. Os profissionais da arquitectura respeitam-no, não só pela originalidade das suas criações, mas também muitas pelas descobertas que fez e pelas formas engenhosas com que conseguia fazer cálculos e ensaios, numa época em que os computadores eram ficção científica. Os restantes, não especialistas em arquitectura (tal como a autora destas linhas), acabam invariavelmente por se render à imaginação delirante de Antoni Gaudí.

A cidade de Barcelona, aproveitando esse facto, organizou em 2002 um ano de comemorações em honra do seu filho pródigo. Chamaram-lhe o Ano Internacional Gaudí, a pretexto de passarem 150 anos do seu nascimento, e os seus edifícios mais emblemáticos franquearam as portas ao turismo. Turistas de todo o mundo responderam em massa ao apelo. Estava descoberto um filão valioso.

Em 2006, o nome do arquitecto é usado em nova efeméride. A extraordinária casa Battlo comemora 100 anos de existência e os seus donos decidem mostrar espaços antes raramente visitáveis. Aos poucos, Barcelona vai-se tornando, cada vez mais, a cidade de Gaudí.

O imaginário de Gaudí na Barcelona do século XXI

Não é preciso ser arquitecto para apreciar a obra de Gaudí, nem é preciso andar de guia na mão para entender a complexidade da sua obra. Nem sequer é necessário imaginar quão complexos seriam os exercícios matemáticos que Antoni Gaudí fazia, no início do século, para calcular pesos de estruturas e engendrar a forma de fazer com que uma simples coluna se transformasse numa árvore, ou que um muro de um jardim nos faça lembrar uma onda marítima.

Basta andar pelas ruas - o obrigatório Paseo de Gracia, o Parque Güell, pelas perpendiculares de Las Ramblas - para tropeçarmos em obras arquitectónicas que, não só nos obrigam a congelar os apressados passos, como nos impelem a voltar a cabeça para o ar e contemplar as suas fachadas.

Aspecto do interior da Casa Milá, no Paseo de Grácia, Barcelona

Aspecto do interior da Casa Milá, no Paseo de Grácia, Barcelona

O mais leigo dos leigos perceberá que estamos perante uma obra de difícil classificação convencional: não é gótico, não é art nouveau, não é modernista... Talvez seja tudo isso, mas talvez seja também uma outra coisa qualquer. É Gaudí, seguramente. E é sempre, sempre impressionante.

Em todo o caso, ter a percepção do que foi a vida de Gaudí e a forma como a plasmou na sua obra, acaba por ser importante para melhor apreciarmos as suas criações. Foi essa, pelo menos, a sensação que tive ao visitar a Casa Milá (também conhecida por La Pedrera), uma das mais importantes obras civis de Antoni Gaudí - e também a última que executou - e que, em boa hora, a Fundação Caixa Catalunya comprou, restaurou e ofereceu à cidade, transformada num magnífico centro cultural.

É numa exposição permanente patente nesse edifício que é possível perceber como coexistiam em Gaudí o hiper-racional e a irracionalidade; como as suas vidas profissional e pessoal se fundem e confundem, como se fossem uma unidade orgânica; como a estrutura arquitectónica se baralha com a natureza e obedece às suas leis.

Uma visita à Casa Milá acaba por ser obrigatória para quem quiser perceber um pouco mais da vida e obra de Antoni Gaudí, seja a começar ou a culminar um pequeno roteiro às obras do mestre catalão existentes em Barcelona. Como as que aqui sugerimos, ordenadas cronologicamente, numa tentativa de dar uma sequência lógica a um inventário que não se deixa facilmente catalogar por critérios de importância.

Palácio Güell

Fica bem próximo de Las Ramblas, numa das suas perpendiculares, à Carrer Nou. Construída entre 1886 e 1890, foi encomendada pelo primeiro conde de Güell, aquele que acabaria por ser o principal mecenas e impulsionador da obra de Gaudí. Eusébio Güell encomendou a Gaudí uma ampliação da residência da família, e acabou por permitir o aparecimento do primeiro edifício moderno a ser distinguido pela UNESCO como património da humanidade (1985).

O que fica na memória mais imediata deste magnífico palácio é, desde logo, a sua entrada, com um vestíbulo duplo, para facilitar entrada e saída de carruagens; e também as antigas cocheiras e cavalariças. Mas também o terraço, o primeiro em que Gaudí testou algumas das soluções que agora o imortalizam, e que passa por “decorar” as chaminés, que teima em individualizar com revestimentos variados (cerâmicas coloridas, mármore, vidros).

Parque Güell, um pulmão em Barcelona

O Palácio não foi a primeira nem a última encomenda do conde Güell a Gaudí. Mas a mais marcante dessas encomendas foi o desafio feito a Gaudí para que construísse uma cidade-jardim, nos arredores de Barcelona.

Sempre pioneira em matérias de urbanismo, a capital catalã foi, também aqui palco de uma importante experimentação. Queria Güell que Gaudí desenvolvesse uma nova urbanização, em que as casas e espaços públicos homenageassem a natureza, em contraponto com a industrialização que as cidades europeias começavam a sentir.

Edifício à entrada do Parque Güell, Barcelona

Edifício à entrada do Parque Güell, Barcelona

Manda a verdade dizer que o projecto fracassou, se em conta tivermos o objectivo inicial de Güell de ali construir uma urbanização. Casas, só existe aquela que hoje está transformada em Casa Museu de Gaudí, e outros edifícios existem apenas os dois que ladeiam uma das entradas principais do parque.

Mas não são duas casas vulgares, mas sim construções oníricas que parecem saídas de um contos de fadas, onde colocaríamos sem dificuldade os irmãos devoradores de chocolate Hensel e Gretel.

Güell desistiu da ideia da urbanização quando esbarrou no seu insucesso comercial: não apareciam compradores para os terrenos já loteados. Mas não poderemos nunca pensar em rótulos de fracasso quando, afinal, a cidade de Barcelona acabou por ganhar um magnífico jardim, e a Humanidade tem ali importante património (como reconheceu a UNESCO em 1984).

Do que ficou do parque Güell, sobressai a Gran Plaza Circular, uma esplanada com um banco em toda a sua volta coberto por mosaicos coloridos - a praça foi executada por um dos principais colaboradores de Gaudí, Josep Jujol, também ele um nome a reter. O contorno serpenteante desta esplanada é justificado pelo “templo Dórico” que a sustenta: cerca de uma centena de colunas de mármore, intervaladas por aplicações de mosaicos também elas surpreendentes.

Gaudí trabalhou neste parque entre 1900 e 1914, e pode dizer-se que foi com ele que entrou naquilo que os especialistas declaram ser o seu período de maturidade, numa altura em que deixaram de o chamar modernista, para lhe colocar o epíteto de surrealista.

Seja de que traça arquitectónica for, a verdade é que é difícil não reter a forma invulgar como, no Parque Güell, o cimento segue de mãos dadas com a natureza, de forma bela e totalmente harmoniosa.

Viagens Barcelona - Parque Güell

A extraordinária “onda” do Parque Güell, Barcelona

Parque Güell, uma das mais emblemáticas obras de Gaudí em Barcelona

Parque Güell, uma das mais emblemáticas obras de Gaudí em Barcelona

Visitantes dencansando no Parque Güell, Barcelona

Visitantes dencansando no Parque Güell, Barcelona

Barcelona: Provavelmente, o lagarto mais fotografado de toda a Espanha

Provavelmente, o lagarto mais fotografado de toda a Espanha

Casa Battló

Uma das mais importantes obras civis de Gaudí, assinala no ano de 2006 o seu centenário, sendo possível pela primeira vez, e à conta disso, visitar os terraços e o sótão desta magnífica casa, que tem ainda apartamentos habitados. Está situada na “maçã da discórdia”, um pequeno quarteirão onde, para além dos burgueses Batlló, também a família Amatler quis notabilizar-se pela diferença, entregando a construção da sua casa a arquitectos pouco convencionais.

Gaudí ocupou-se da reconstrução de um edifício habitacional e comercial entre 1904 e 1906 e, apesar do crédito que já tinha conseguido reunir junto dos catalães, a verdade é que os de Barcelona demoraram a gostar deste edifício. Apelidaram-na de “casa dos ossos”, interpretando como tíbias e perónios as colunas que, na fachada principal, sustentam uma ousada janela ao nível do primeiro andar.

Na fachada da Casa Batlló não há ângulos nem planos lisos, esquinas ou geometrias. Há, em vez disso, formas a lembrar elementos da natureza, de falésias com ninhos a lagos com nenúfares. Também o telhado é ziguezagueante, assemelhando-se a escamas de répteis ou dinossauros.

É um delírio total, visível do exterior e decifrável a partir da fachada, acentuado no seu interior, onde se mantém a ausência de esquinas e ângulos rectos, para antes dar lugar a formas suaves e ondulantes, sempre eficazes no que ao conceito de construção sustentável (como agora insistentemente se ouve) diz respeito, sobretudo em questões de aproveitamento de energia.

Viagens Barcelona - Escadaria principal à entrada da Casa Battló

Escadaria principal à entrada da Casa Battló, Barcelona

Espaço aberto no interior do complexo habitacional Battló, Barcelona

Espaço aberto no interior do complexo habitacional Battló, Barcelona

A excentricidade de Gaudí bem patente numa sala da Casa Battló, Barcelona

A excentricidade de Gaudí bem patente numa sala da Casa Battló, Barcelona

Terraço com vista sobre a cidade de Barcelona

Terraço com vista sobre a cidade de Barcelona

Casa Milá (La Pedrera)

Já Gaudí era o arquitecto mais reconhecido e mais caro de Barcelona, quando aceita construir mais um edifício no Paseo de Grácia: a Casa Milá. Iniciou-a em 1906 (mal terminou a Batlló, uns quarteirões abaixo), e abandonou-a seis anos depois, quase concluída, e em ruptura com o dono da obra. Foi a partir daí que se concentrou exclusivamente naquela que veio a ser, em todos os sentidos, a obra da sua vida: a Sagrada Família.

A Casa Milá, a última obra civil do arquitecto, chocou tanto a população que chegou mesmo a ser vandalizada com alguns graffitis. Foi aliás sem surpresa que, pelo facto de a população achar a construção aberrante, a baptizou, entre outros epítetos menos agradáveis, de La Pedrera.

Mas o que hoje ali podemos reconhecer é um edifício em nada aberrante. Para além da já referida exposição permanente no sótão do edifício dedicada a Gaudí, é imperativo visitar um dos apartamentos do quarto andar para melhor se perceber e interpretar o génio do arquitecto. Também nesta casa não há formas rectas, mas sim paredes ondulantes, e muita, muita luz.

Para além de belo, tudo é incrivelmente funcional. O espaço mais marcante de todo o edifício é o delirante terraço, com as suas incríveis chaminés, quiçá o mais famoso skylight de Barcelona.

Viagema Barcelona: Delírio criativo de Gaudí no terraço da Casa Milá, Barcelona

Delírio criativo de Gaudí no terraço da Casa Milá, Barcelona

Pormenor do topo da fachada

Pormenor do topo da fachada

Sagrada Família, viagem dos sentidos

A Sagrada Família é o expoente máximo das criações de Gaudí em Barcelona. Nela trabalhou quarenta anos, até morrer. A sua construção iniciou-se sob o conceito de templo expiatório, pelo que foi financiado desde o princípio exclusivamente a partir de esmolas de particulares. Ainda hoje continua a ser construído a partir de donativos e receitas provenientes das entradas dos visitantes.

Gaudí tomou conta da obra um ano depois de ter sido lançada a primeira pedra da catedral (1882), então obedecendo a planos do arquitecto Francisco Paula Del Villar, totalmente neogótico: uma igreja com três naves e uma cripta ortogonal. Quando Gaudí pegou na obra tinha apenas 31 anos, e logo alterou os planos de Del Villar, construindo uns capiteis mais naturalistas e abrindo um fosso na cripta, para nela entrar luz e ventilação directa.

E Dezembro de 1884 tornou-se oficialmente o arquitecto do templo, e começou a assinar os projectos de arquitectura: na altura, os planos do altar da Capela de S. José, cuja construção foi, ironicamente, bastante rápida.

De resto, nunca mais houve rapidez na obra. Gaudí acumulava a direcção da construção do templo com outras obras civis, e nunca deixou de querer inovar - se o templo da Sagrada Família obedecesse aos planos inicias de Del Villar e mantivesse as estruturas góticas como os contrafortes, ela seria outra Sagrada Família, e não este edifício marcante que, uma vez mais, a UNESCO protege como Património da Humanidade.

Só nos últimos 12 anos da sua vida Gaudí se dedicou em exclusivo à construção do templo, numa dedicação tal que o levou, inclusive, a montar no estaleiro a sua residência provisória. Foi também perto do templo que acabou por morrer, em 1926, atropelado, aos 74 anos de idade.

Antoni Gaudí acompanhou as fases iniciais dos trabalhos, mas não chegou a ver erigidas as imponentes fachadas da igreja - as Fachadas da Glória e da Paixão. Só oito dos doze campanários idealizados para as fachadas estão actualmente concluídos. Têm mais de 100 metros cada um, e são dedicados aos apóstolos. Falta ainda construir o zimbório central (de 170 metros) em honra a Jesus Cristo, a torre da Virgem Maria e a torre dos quatro evangelistas.

Com tanta obra por concluir, sobra apenas uma certeza: nada do que já foi construído surgiu do acaso ou não mereceu um tratamento especial. Entrar na nave principal desta catedral, mesmo em obras, é como entrar numa floresta e mergulhar nas entranhas da Natureza.

Prossegue a construção da Sagrada Família, Barcelona

Prossegue a construção da Sagrada Família, Barcelona

Fotografando a Fachada da Paixão, Sagrada Família, Barcelona

Fotografando a Fachada da Paixão, Sagrada Família, Barcelona

Guia de viagens a BARCELONA

Este é um guia prático para viagens a Barcelona, com informações sobre a melhor época para visitar, como chegar, pontos turísticos, os melhores hotéis da cidade e sugestões de actividades na capital da Catalunha.

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O Verão é bastante quente e o Inverno temperado, pelo que qualquer altura do ano é boa para viagens até Barcelona. Caso pretenda evitar as maiores enchentes e o calor tórrido, não viaje durante os meses de Julho e Agosto.

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A TAP e a Portugália voam regularmente para Barcelona. Vale também a pena estar atento às tarifas da low cost espanhola Vueling, que liga Lisboa à capital catalã em viagens directas. A partir do Porto e de Faro, a Ryanair voa para Girona. Do Aeroporto Internacional El Prat de Barcelona para o centro da cidade, aconselha-se a utilização do comboio até à estação de metro na Praça Catalunha, de onde facilmente se acede a qualquer zona da cidade.

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A oferta de hotéis em Barcelona é muito variada e serve quase todos os bolsos. Para além dos hotéis, pensões e pousadas, habituais numa grande cidade, há uma outra opção a considerar, especialmente se viajar com um pequeno grupo: o aluguer de apartamentos. Existem inúmeros sites onde é possível efectuar o aluguer de apartamentos on-line, com funcionalidades muito similares, pelo que é difícil indicar um em detrimento de outro.

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